segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Andar com fé eu vou

A energia da fé acalma a mente. Ela é o ponto de equilíbrio entre passado e futuro, capaz de situar-nos no momento presente proporcionando saúde, paz e habituando-nos a viver no aqui e agora, sem as agonias com o futuro ou as desilusões com  o passado.




Diz a música: "Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar", o compositor Gilberto Gil devia saber a importância dessas palavras.Estudos recentes comprovam a importância da fé para o ser humano.


A fé é o combustível do ato de viver, afirmação que, além de título de livro de Ermance Dufaux, é uma constatação da ciência e do bom senso. A fé está em cada uma das pequenas ações do nosso dia. Precisamos de fé até para tomar um copo d'água, pois se não tivéssemos fé na água, provavelmente morreríamos de sede.


Uma força contrária à fé é a desconfiança. Em algumas doenças mentais, como o  transtorno de ansiedade, surge a desconfiança de que a água pode estar contaminada e muitos pacientes têm de ser internados para serem hidratados de forma venosa.


Mas se a fé é tão inerente, tão preciosa, se é o combustível do ato de viver, por que é tão difícil mantê-la e, muitas vezes, senti-la, mesmo em uma pessoa saudável?


É por causa da localização da fé em nossa configuração psíquica/mental. A  fé, assim como sua dileta prima, a vontade, vive na sombra, em uma parte da nossa psique  que a gente não conhece. Na região a qual algumas escolas de psicologia chamam de sombra.


Porém, a sombra é também um centro de talentos e qualidades ocultas que solicitam de nós sua manifestação.


Ser uma pessoa de fé não tem nada a ver com ser uma pessoa religiosa. Não diz respeito a rituais exteriores ou manifestações sociais de qualquer ordem.


Para que possamos entrar em sintonia com essa energia oculta existem alguns caminhos, entre eles a oração, a meditação e a conduta.


A religião tenta nos ensinar alguns desses meios para o desabrochar da fé, porém se aprendermos apenas os rituais externos dessas práticas e não a pratiquemos  intimamente, dificilmente sentiremos seus efeitos vivificadores.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Discurso do Método



Duvidando de tudo, Descartes queria conhecer a verdade.   Sua busca deu margem para a criação de métodos científicos bastante discutíveis para os tempos atuais. No entanto, podemos aprender com ele e, ainda assim, não desenvolvermos arrogância em nosso pensar. Uma boa maneira de flexibilizar nossa maneira de ser e viver, através de uma metodologia científica, é ter a humildade de reconhecer que o que vemos não é o todo, mas parte de um processo vivo e dinâmico e que nossas inferências são relativas a uma determinada visão desse processo que leva em consideração X, Y e Z, mas deixa de fora outras variáveis.  Esse conceito pode ser considerado por muitos como relativismo, mas difere dele por uma coisa: não afirma que a verdade não existe, apenas diz que, de onde me encontro - agora -, não consigo ver o que se passa por completo. E mais, mesmo não vendo tudo, tudinho, assumo responsabilidade por aquilo que vejo e pelo senso que desenvolvo a partir do que vejo. E mais um pouquinho: o que vejo também sou eu.


O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída, porquanto cada um acredita estar tão bem provido dele que, mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa, não costumam desejar tê-lo mais do que já o têm.


Descartes começa o Discurso do Método com essas palavras e continua, no segundo parágrafo, dizendo: "Não é provável que todos se enganem a esse respeito".


Não sou cartesiana, mas devo concordar com ele. Todos consideramos que temos "bom senso", não é mesmo? No entanto, como alerta nosso velho militar francês, apesar de todos nós termos em igual medida a capacidade do bom senso, não levamos em consideração as mesmas coisas, ou seja, falta a um ou outro as informações que poderiam influenciar no juízo que faz das coisas.


Se não conhecemos todos os lados de uma questão, pelo menos aqueles possíveis de ser conhecidos, como poderemos ajuizar corretamente? Como podemos afirmar que nossa opinião é baseada em bom senso?


Porém, diferentemente de Descartes que acreditava que um método correto poderia ajudar na compreensão da verdade e, assim, tornar possível o verdadeiro bom senso, acredito no pensamento processual, pois penso que nunca conheceremos tudo, tudinho, de uma coisa. 


No entanto, podemos nos ater àquilo que temos acesso e lembrar que isso é parte de um grande processo, vivo, dinâmico, imensurável.


Assim, ao invés da arrogância dos senhores da verdade, exercitamos a humildade do que podemos entender dentro de um  nível de desenvolvimento momentâneo. Faremos nossos juízos dentro do patamar de humildade daquilo que podemos enxergar e daquilo que somos capazes de compreender - por enquanto.


Pode parecer apenas metodologia, mas isso faz uma grande diferença para o nosso modo de ser e viver, principalmente no que se refere ao estar social, fazendo  de nós pessoas mais flexíveis e humanas.

sábado, 14 de novembro de 2009

A panela de pressão


Pressão todos passamos, a vida é cheinha dela. Podemos dizer que somos como panelas de pressão. No entanto, alguns de nós são mais explícitos, reclamam, se debatem, fazem barulho como  o apito estridente da válvula da panela chiando no fogão.  Outros, porém, têm a válvula entupida, passam a vida quietinhos, todo mundo acha que está tudo bem e de repente  explodem, ou pior, implodem, no silêncio de uma doença grave. Tanto um quanto o outro tem de regular sua escuta interior para perceber a necessidade de desentupir a válvula ou abaixar o fogo.


Uma imagem muito usada para descrever um rompante emocional em pessoas calmas é a da panela de pressão.
O quietinho-bonzinho vai aguentando, aguentando, até que um dia explode, feito panela de pressão entupida.


Quando a panela não explode, pode acontecer pior ainda, o quietinho-bonzinho implode: AVCs, enfartes, cânceres, depressões.


Mas não é exatamente desse aspecto, panela entupida, que eu quero falar. Aproveitando a metáfora, gostaria de refletir sobre o bom desempenho de uma panela de pressão.


Vejamos: a panela de pressão é  bem vedada por uma borracha na tampa que impede o vapor escapar. Ele vai se acumulando dentro da panela, até atingir um limite. Para que não aconteça uma explosão, existe a válvula. A pressão máxima dentro da panela consegue empurrar o pino da válvula para cima, assim o excesso de vapor escapa. Desta maneira a pressão se mantém controlada  e sabemos disso pois escutamos um barulhinho do apito.


Muito bem, voltemos à nossa metáfora: qual seria o barulho que  nossa panela faria para evitar explosões? Incômodos, dores, acidentes, doenças. O apito vai aumentando num crescente. Se não damos atenção aos pequenos incômodos, muitas vezes eles se transformam em dores. Se também as dores não nos acordam, podem vir os acidentes ou doenças. Se mesmo assim, continuamos surdos ao apito indicativo de pressão, aparecem as doenças graves ou fatais.


A pessoa com padrão quietinho-bonzinho vem de fábrica com a válvula entupida. Não chia, não incomoda, "não ocupa espaço", como diz minha sogra, mas de repente explode.


Os que tem válvula, como eu, fazem barulho, sabe-se sempre quando estão fervendo, mas se não abaixarem um pouco o fogo e, na introspecção de si mesmo, perceberem os sinais da alta fervura podem acabar entupindo suas válvulas e - pimba! - lá vamos nós correr os mesmos riscos dos quietinhos-bonzinhos: espelhar feijão para todo lado. 

sábado, 7 de novembro de 2009

Meus amuletos


Um amuleto é definido como um "pequeno objeto que, desde a mais remota antiguidade, alguém traz consigo ou guarda, por acreditar em seu poder mágico de afastar desgraças ou malefícios". Confesso que uso amuletos. São minhas muletas, mas não acredito que o poder esteja no objeto. Para mim, amuletos ou talismãs são espécies de despertadores, servem para nos fazer lembrar que o poder está em nós.


Vou relatar aqui uma prática vista, muitas vezes, de forma preconceituosa: o uso de amuletos e talismãs. Espero que minha fala possa ajudar a olharmos de forma diferente para aqueles que, como eu, ainda não conseguiram desapegar-se de rituais externos na busca de desenvolver qualidades internas.


O leitor já está cansado de saber: sou uma pessoa complicada. No entanto, o que o paciente leitor nem imagina é que além de complicada sou supersticiosa. Reluto um pouco em dizer: "supersticiosa", mas mesmo que eu queira mascarar esse sentimento, dando-lhe um nome mais pomposo e justificável, no fundo o que pratico é mesmo superstição. 

O tipo de superstição que devo  confessar é a adoção de amuletos e talismãs. Tenho alguns e os utilizo diariamente.


Para mim, um amuleto não é um objeto que pode proteger-me  de algum malefício, como definem os dicionários. Os adoto de forma diferente, como  um despertador. 


Explico: quando olho para um amuleto ou talismã, procuro que ele desperte em mim, por exemplo, a confiança. A confiança é minha, o leitor sabe, mas nesses tempos de incertezas, às vezes ela se esconde em um cantinho da alma, fica invisível. 


Então, olho para aquele anel de prata e pedra cor-de-rosa que comprei especialmente, no início do ano passado, como um despertador de confiança, e lembro: a confiança está em mim. Desse jeito, o medo enfraquece e a situação parece ficar melhor.


Tem também um tercinho, o mesmo há muitos anos, carrego comigo sempre. É o meu despertador de fé. Está escrito que a fé remove montanhas. Dizem até que a fé é a qualidade anímica mais importante que existe, que a fé é a base para uma vida saudável.


Sei disso, até posso entender isso perfeitamente, mas, vira e mexe, preciso de um despertador de fé. Nessas horas, em que percebo a descrença querendo tomar volume, seguro firme meu tercinho na mão, e percorro cada pedrinha declamando as orações de acordo com a tradição.Quando termino, a fé volta a aparecer e a ocupar os espaços que antes estavam dominados pelo medo. Tem vezes que até escuto uma voz carinhosa dizendo: Homem de pouca fé, por que duvidaste? 


Sei que isso pode causar dependência psicológica e que, apesar de querer e tentar, ainda não consegui passar desse estágio e desenvolver sentimentos de superação de forma independente do externo, mas acredito que já é um grande avanço em relação à crença de que o poder está no objeto fora de mim.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Esclarecimentos

Pais e professores ficam aflitos diante da difícil tarefa de educar.   Como corrigir sem desqualificar? Como  promover o aprimoramento  sem evidenciar erros e falhas? Essas são algumas das perguntas que normalmente me fazem em palestras e cursos. A primeira coisa que respondo é que a tarefa é difícil e inabitual. Depois, afirmo que precisamos tratar com respeito nossas próprias falhas, pois dessa forma estaremos treinando para respeitar as falhas alheias. Lembro também que a perfeição não existe e que mais importante do que o resultado final é a consciência do processo. Por fim, procuro mostrar que a  ação pode ser errada ou falha, não o indivíduo.



Ontem eu estava conversando com um leitor sobre a crônica da semana passada que chamava atenção para a importância de tratar com respeito nossas falhas e, por consequência, as dos outros.

É muito difícil quebrar paradigmas. Normalmente, quando o fazemos, começamos por um movimento pendular: temos a tendência de sair de um extremo ao outro.

No caso de rever nossa postura diante da perfeição e do erro também é assim. Ao percebermos o quanto é importante para o processo de desenvolvimento e  melhoria da estima do indivíduo aprender a respeitar nossas falhas , ficamos com a impressão que não será possível o aprimoramento, pois não teremos a devida correção dos erros.

Claro que a correção dos erros deve ser feita, claro que erro é erro e que, por isso, deve ser evitado, reparado, superado. Porém, isso não implica em desqualificação, em sentir-se inferior diante da ideia, que é sempre perfeita, pois não é real.

Se há o erro ele deve ser reconhecido, porém dentro de uma perspectiva de processo, ou seja, quem erra deve perceber o contexto da ação equivocada. Deve ter a consciência de que o erro é em relação a determinado objetivo a ser alcançado, definido com clareza e anteriormente. As regras do jogo têm de estar claras, mesmo que sejam as regras para o grande jogo da vida.

O erro está na ação, não no indivíduo. Quem erra não é "o" errado, é apenas o autor de uma ação errada. Fazemos muitas ações erradas diariamente, mas se não aprendermos desde cedo a separar emocionalmente a ação do autor, ficaremos sempre com a sensação de que não somos bons, de que somos errados.

E quando passamos a acreditar que "não somos bons", muita coisa pode mudar na nossa vida, podemos passar a acreditar que  não somos suficientemente capazes de fazer o bem, e talvez, por isso, optar por fazer o mal.

Quando deixamos de nos considerar errados, maus, incapazes e passamos a aprender a respeitar nossas falhas, quando nos acostumamos a olhar nossos erros dentro de uma situação definida, de um objetivo claro, podemos pensar: sou bom, no entanto, ainda estou errando nesse contexto.

A diferença parece sutil, e é, porém faz uma enorme diferença, principalmente se, quem estiver sendo "acusado" de errado for alguém que ainda não tem condições de discernir sozinho entre autor e ação, como no caso de uma criança.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tratar com respeito nossos erros


Tratar com respeito nossos próprios erros não é tarefa fácil, mas é condição imprescindível para que possamos romper paradigmas indesejáveis como a crença na existência da perfeição. A perfeição é uma ideia, ela não existe de fato. Ela é uma ideia que ajuda muito pouco ao desenvolvimento humano, causa baixa autoestima, imobiliza a vontade, provoca separatividade e preconceito. A perfeição sempre aponta para aquilo que não somos e todos estamos carecas de saber que já passou da hora de aceitarmos, incondicionalmente, a nós mesmos como somos aqui e agora.


Nossa grande e ancestral culpa, desde os idos da maçã, prejudica demais nossa vida e, em especial, nossa pedagogia.

Quando alerto uma aluna, normalmente uma professora em processo de especialização, que ela deve dar um valor especial a suas falhas e, desse modo, começar a exercitar-se para tratar com respeito seus próprios erros e por extensão, os de seus alunos, elas se surpreendem.

Entendo qual é a surpresa e conheço sua origem: a falsa ilusão da perfeição. Vivemos aprisionados a ideias antigas e muito do que sofremos hoje está relacionado a conceitos imprecisos cunhados na antiguidade, quando o grau de desenvolvimento da humanidade era outro.

Não sou muito platônica, conceitualmente falando, mas gosto de imaginar que ele tinha razão no sentido de que, aqui, aqui, nessa terrinha onde pisamos, não há perfeição, só sombras daquilo que é o "perfeito". Ou seja, de fato, fatídico, o perfeito não existe. Se há outro lugar onde as coisas são certinhas, não sei, nunca vi.

O que vejo todos os dias são crianças sendo massacradas por que "erram", são pessoas carregando peso por décadas por seus atos impensados.

São essas coisas que devem ser reformuladas. O conceito de erro paralisa, desmotiva, desqualifica, culpabiliza. Já a mesma falha dentro da perspectiva de "processo", vivifica, funciona como degrau, como patamar para a próxima

etapa, como vontade de superação.

Para que essa mudança de paradigma aconteça é urgente aprender a tratar com respeito - com respeito - nossas falhas. Depois que nos acostumarmos a essa prática, conseguiremos ver os erros como parte do processo. E processo é desenvolvimento, vida, ação infinita, composta de etapas claras e metas possíveis.

O processo é o lugar do possível e viva o possível. Se escolho atingir o perfeito, nunca chegarei lá. Se almejo uma etapa possível, em breve terei atingido minha meta, e saberei que o caminho do desenvolvimento continua sempre e que esse caminhar é que dá sentido à existência.

Para que possamos combater pensamentos ancestrais tão arraigados, como o da maçã e o da perfeição inatingível, temos que valorizar e respeitar cada pequena falha.

Temos que aprender a tratar com respeito nossos atos impensados, nossos defeitos, nossos deslizes. Temos de aprender a errar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Costelações familiares


O trabalho que tem por base a constelação familiar, não é uma terapia no sentido tradicional. Ele traz à luz laços de destino e seus efeitos. Ele ajuda a "ver", sem buscar influenciar o que a pessoa que "vê" fará com o que é visto. O trabalho com a constelação familiar também ajuda as pessoas a sentirem o próprio amor, frequentemente oculto no destino cego, possibilita abrir os olhos para o amor, estabelecendo relações cara a cara. E estabelecer relações de amor nem sempre é uma tarefa fácil nas famílias.

Ao vir ao mundo no seio de uma família, não herdamos somente um patrimônio genético, mas sistemas de crenças e esquemas de comportamento. Nossa família é um campo de energia no interior do qual evoluímos. Cada um, desde seu nascimento, ocupa nesse campo de energia um lugar único.

Estar em uma família nem sempre é uma coisa fácil, aliás, quase sempre é um grande desafio, por isso mesmo, trabalhos como o da Dra. Joy Manné, autora do parágrafo acima, são importantes para redimensionar a visão que temos da nossa constelação familiar e, assim, possibilitar relações mais equilibradas.

Quando compreendemos o campo energético de nossa família, levando em conta o perfil dos genes, crenças e os modelos de comportamento comuns, adquirimos a capacidade de nos distanciar e, dessa forma, ter uma visão ampliada da geografia familiar.

Além da geografia, a história da família, tanto aquela conhecida quanto a oculta, possibilitam esquematizar e delinear no espaço e no tempo os esquemas que atuam em nós de forma consciente ou inconsciente e que costumam nos prender a modelos de comportamento que não desejamos mais.

Quem já não teve a sensação de estar aprisionado a um modelo de comportamento negativo que reproduz um jeito familiar? Por mais consciência que temos desse traço indesejável ele permanece lá, arraigado, fixo.

No âmbito familiar há sempre áreas de trauma anímico, feridas profundas relacionadas com a ruptura do amor em direção à mãe, ao pai, a outras pessoas importantes ou à vida em si mesma. Tais traumas muito frequentemente advém de experiências precoces na infância, época delicada para a formação da alma.

O trabalho com constelações familiares é focado nos processos de vínculo e liberação da alma machucada. Soluções emergem através do olhar para a integridade do sistema de relações.

As feridas podem ser curadas por um processo retroativo de cura na alma entre a criança, mesmo que já esteja adulta, e uma outra pessoa essencial na vida desta projetada, muitas vezes, em um boneco. Através desse processo, há uma ampla área de ligação e liberação nas relações familiares. A solução é encontrada através do reconhecimento das ordens do amor, um sistema que, quando reconhecido, pode nos permitir compreender e perdoar pessoas e situações.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sorri, sorry


Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador


Deve ser mais ou menos assim: a coisa está ruim, sorria. A coisa está pior, sorria. Sorria por fora, mesmo que por dentro o motivo não tenha.

Parece hipocrisia? E é. Claro. Digamos, uma hipocrisia saudável. É como o princípio da homeopatia: semelhante cura semelhante. O sorriso exterior pode ajudar a fazer surgir o sorriso interior. Tomara.

Estou falando isso, porque fiquei a semana pensando nos questionamentos da crônica anterior "As Horas", onde eu me perguntava o que fazer para dar conta das aflições-crônicas- sem-remédio. Sorry, mas foi a melhor resposta que consegui imaginar. É mais ou menos como aquela coisa de "fazer o que gosta" ou "gostar do que faz". Se temos que fazer, melhor esforçar um pouquinho para gostar, não é mesmo?

Tem também o provérbio popular que encaixa bem nesse caso: "se não tem remédio, remediado está". É o senso comum das nossas avós aconselhando o sorriso, mesmo que amarelo, diante do inevitável.

Sorry, se decepcionei, mas realmente, encarar diariamente o inadequado inevitável não é para qualquer um. Difícil encontrar uma solução. A gente vive na ilusão de poder fazer a vida melhorar sempre, ninguém gosta de pensar que o indesejável pode ser durável. No entanto, mesmo sabendo que "não há mal que sempre dure" alguns duram mais do que a gente e temos de nos acostumar.

Sabe aquela música do Charles Chaplin, está acima, tem um trecho que diz: "Sorri vai mentindo a tua dor". Parece triste, mas pensa bem, se o mal não tem remédio, não é melhor sorrir do que ficar com aquela "cara de comeu e não gostou"? Se a tal expressão de indigestão resolvesse, tudo bem ficar com cara ruim, mas acredito que só atrai mais infelicidade.

Semana passada fiquei pensando nas habilidades especiais que temos de desenvolver para viver "as horas" indesejáveis que todos enfrentamos na difícil arte de viver.

Pois bem, uma habilidade que parece essencial é rir de si mesmo e do inevitável. Parece simples e talvez seja até simplista, no entanto, vale tentar sorrir.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

As horas


Quando Virgínia Woolf escrevia seu romance "Mrs. Dalloway", o fazia com o título provisório de "As Horas". A obra da escritora inglesa mostra, através de situações corriqueiras, a luta dos personagens para enfrentar seus fantasmas interiores, suas escolhas e decepções e o eventual sufocamento que pode gerar a rotina ou a acomodação a um modo de vida não desejado. Esse 'acomodar-se" é o aspecto que mais me impressiona em "Mrs. Dalloway" e na obra intitulada "As Horas", de Michael Cunningham, inspirado no livro de Woolf e levada ao cinema em 2002 por Stephen Daldry. Fico pensando nas habilidades especiais que temos de desenvolver para viver "as horas" indesejáveis que todos enfrentamos na difícil arte de viver.


Sabe aquela sensação que podemos denominar de "as horas"? Não? Explico. Você passa por um momento difícil, dificílimo mesmo. Aguenta firme. Supera. O momento crítico passa, afinal, tudo passa, mas é aí que: tcham tcham tcham tcham, começam "as horas". As horas depois do momento crítico.

Por exemplo: você vai ao médico, faz uma porção de exames, volta ao médico e fica sabendo: a coisa está instalada. Choque, choro, o drama de informar os familiares. Durante uma ou duas semanas a notícia corre e toma proporções inimagináveis. Você recebe telefonemas de solidariedade, demonstrações de estima e interesse. Enquanto o episódio
acontecia, você estava lá, firme, inteiro, mas tudo passa e aí chegam "as horas". As horas depois da grande crise, as horas em que seu drama vira notícia velha e você tem de encará-lo hora após hora sem o apoio daquela força que vem de não se sabe onde quando a coisa está no auge.

Outro exemplo: aquele ente querido, muito próximo, morre. Comoção, vigília, desolo. Você ali, envolvido, ocupado, consolando, sendo consolado, providenciando papéis ou infraestrutura para o velório.

Enquanto o episódio acontecia, você estava lá, firme, inteiro, mas - tudo passa - e aí chegam "as horas". As horas depois do acontecido. As horas que se constata que o quarto está vazio e que não voltará a ser ocupado pela mesma pessoa. Você percebe que é real e que as horas vão continuar a correr uma após a outra, independente da sua vontade.

As horas são implacáveis, elas não param por nada nesse mundo. Até mesmo nas coisas mais banais, as horas são inflexíveis.

Último exemplo: numa reunião de trabalho você recebe uma agressão velada, um erro que não cometeu lhe é atribuído por um colega que não lhe estima. O clima pesa, você se segura para manter a postura, pois não pode provar a calúnia. O fato passa, afinal, tudo passa, mas é aí que as horas chegam: você terá de conviver com os olhares críticos e/ou duvidosos dos colegas hora após hora.

O que fazer quando "as horas" chegam e mostram que até os momentos mais críticos passam e deixam atrás de si um rastro de monótono sofrimento? Afinal, no ápice da crise, quase sempre, somos fortes e corajosos, a questão difícil é manter o vigor nas horas que se seguem irremediavelmente indesejáveis.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Qual é o número do futuro?


Sou do tipo controladora, diria também, autocontroladora. Vivo na ilusão do controle. Penso que posso controlar a mim e ao que está ao meu redor. Até o nome dos meses, se pudesse, mudaria ao meu gosto. Tenho a falsa ideia que posso controlar, catalogar e até numerar o futuro, mas qual é o número do futuro? Hoje, escrevendo essa coluna, percebi que essa pergunta só pode ter uma resposta: o número do futuro é o número da confiança. Com confiança, abrimos mão do controle, pois sabemos que haja o que houver estaremos bem. O controle, na maioria das vezes, esconde um grande medo de viver. Para pessoas controladoras e medrosas, como eu, a melhor receita é deixar a vida correr suavemente e até mesmo, superficialmente, e confiar.


Estava travada. Minha mente se assemelhava a uma página em branco, a um buraco negro. Tinha colocado o título (sempre começo pelo título): "Aogosto". Queria falar do mês que inicia hoje e como eu gostaria que ele fosse do meu gosto e com isso refletir sobre minha teima em controlar até o nome dos meses.

Claro que o trocadilho sem graça me paralisou, não consegui pensar em como começar a escrever nem a primeira linha dessa crônica.

Foi aí que o episódio aconteceu. O pequeno aqui de casa chega correndo e pergunta: "Mãe, qual é o número do futuro?". Tomada de surpresa pela pergunta pouco comum, antes mesmo de responder, apaguei o "Aogosto"e escrevi o título: "Qual é o número do futuro?".

Só depois voltei para meu filho e pedi para que explicasse, ele repetiu e então entendi: o "número" era o "canal" e o "futuro" era o "Futura". A resposta foi "15" e o guri correu em direção à sala de TV.

Mas o impacto inicial da pergunta já tinha deixado sua marca. "Qual é o número do futuro?" Qual? A pergunta ainda está ecoando em mim, sombreando a folha em branco, preenchendo irregularmente o buraco negro.

Qual é o número do futuro? Você sabe? A resposta não está na Internet. O Google não sabe, nem o Yahoo Respostas. Porém, a pesquisa me levou até um site português sobre esmalte de unha, chama-se: "Blog de Verniz de Unhas, Miss Verniz", com um subtítulo engajador: "Para as verdadeiras fãs de vernizes de unhas!!!". As três exclamações estão no original.

Sobre a questão intrigante o post diz o seguinte: "Verniz Dote número 256 - Futuro". O comentário da blogueira portuguesa diz: "Hoje testei uma cor mais suave e ao mesmo tempo pouco vista nas marcas de vernizes".

Impossível não dar risada. A minha folha em branco entrou por um buraco negro e foi parar em Portugal em meio a cores suaves e jamais vistas.

Aprendi a lição, ao invés de querer mudar até o nome dos meses ao meu gosto controlador, ao invés de querer numerar o futuro, às vezes é mais saudável deixar a vida me levar de forma suave e superficial.


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O Cha da vida privada


Quer um Cha bem equilibrado? Então comece a estudar um pouco mais sobre comportamento humano. Descubra como as reações acontecem, como o inconsciente influencia nossa vida. Pratique arte terapêutica, um bom cenário para a percepção lúdica de si mesmo. Desta forma, você será capaz de preparar-se adequadamente para a vida pessoal e ser um gestor de si.

Boa parte daquilo que fazemos profissionalmente depende da qualidade de organização dos elementos do nosso Cha: conhecimento, habilidade, atitude. As duas primeiras competências são técnicas, já a última é comportamental.

Esse conceito é bastante usual na área de Recursos Humanos, porém fico pensando que há um Cha da vida privada. Um Cha necessário para o desempenho adequado de nossa vida pessoal.

A questão é que estamos acostumados a avaliar nosso Cha profissional, mas dificilmente observamos, com a devida objetividade, nosso Cha da vida privada. No entanto, sofremos quase que diariamente as consequências de termos um Cha pessoal mal equacionado.

Conhecimento, o cê do Cha, está relacionado ao domínio cognitivo, tem a ver com nosso saber, letramento, grau de informação e com nossa capacidade de processamento de idéias e fatos.

O agá, de habilidade, está ligado ao domínio psicomotor, à capacidade de agir e realizar, ao poder que temos de colocar em prática aquilo que aprendemos e conhecemos.

Já o "a" do Cha, tem relação com atitude e atitude é um misto de sentimento e emoção que influencia a escolha das nossas ações e as respostas que damos aos estímulos que recebemos. É uma forma de responder, positivamente ou negativamente, ao que está a nossa volta. A atitude está ligada à vontade, ao conjunto de valores, crenças, princípios e opiniões, ao nosso domínio afetivo.

Poderíamos até dizer que a atitude é a liga entre o conhecimento e a habilidade. É ela que permite fazermos uso das técnicas do saber e do saber fazer. Sem o comportamento, a atitude, não há o querer fazer.

Mas é justamente na atitude que moram os maiores desafios tanto profissionais quanto pessoais.

O profissional muitas vezes se ancora em seu conhecimento e habilidades para aprimorar seu comportamento. Em nossa vida pessoal também podemos usar do mesmo expediente para melhorar nossas atitudes.

Esse é o papel do estudo sobre si, das terapias, das leituras edificantes e das artes com enfoque terapêutico. Quanto mais estudamos sobre nós mesmos e adquirimos novas habilidades, mais poderemos aprender a controlar nossas atitudes. Desta forma, poderemos preparar o nosso Cha para a vida pessoal.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Empenha-te ao máximo


Estou cheinha de afazeres. Muitos, mesmo. Sempre organizo meu tempo de férias em relação às tarefas. Faço até cronograma de atividades. Quando chega o final do período, na volta às aulas, reclamo: "poxa, não deu tempo para nada". Já estava me preparando para repetir a ensaiada cena, quando um papel em cima da minha mesa colocou as coisas em seus devidos lugares. Falta tempo? Mas será que eu me empenho ao máximo? Ao "máximo" mesmo?



Estou querendo começar a escrever essa coluna, mas uma frase escrita em giz de cera vermelho num papel que está em cima da minha mesa não deixa.

Quero falar de outra coisa e meus olhos caem na frase: "Empenha-te ao máximo". Ela está se impondo, mas não quero escrever sobre isso, pois se tiver de escrever, vou ter que encarar. Encarar o teclado do computador, sob a supervisão da frase, perguntando para mim: você tem se empenhado ao máximo?

Aí, vou ser obrigada a responder: "quase sempre". E estarei mentinho para um teclado de plástico e um pedaço de papel com dizeres em giz. Por isso, quero evitar o assunto. Só assim não terei de encarar a coisa de frente. Que coisa? Ora leitor, aquilo de me empenhar ou não ao máximo.

Decidi, vamos falar então sobre outra coisa: os tempos. Tempo 1: que frio, né? Pois é, está bem frio. Será que amanhã vai estar frio assim? Tempo 2: Que correria, não estou tendo tempo para nada. As férias nem bem começaram já estão acabando. Minha lista de tarefas para as férias é enorme. O que será preciso fazer para que o tempo renda um pouquinho mais? Êpa! O teclado está querendo responder. Deixo não.

EMPENHA-TE AO MÁXIMO.

Desaforado. Escreveu sozinho e em caixa alta ainda por cima. Daqui a pouco vão inventar teclado cronista. Só faltava...

Tá bom, confesso, não me empenho ao máximo. Raras são as vezes que posso deitar a cabeça no travesseiro, lá pelas duas da manhã, e dizer: me empenhei ao máximo hoje.

Pronto. Assumi. Satisfeito?

Tá certo que é de madrugada, que estou um pouco sonolenta, mas parece que estou vendo um ligeiro sorriso no papel com a frase implicante. Papel ri?

O fato é esse mesmo. Reclamo, reclamo, mas o desperdício de tempo é forte. Fico enrolando, dando-me licenças poéticas, mas não escrevo a poesia.

De que adianta? Estou enganando quem? Depois, dá-lhe desculpas. Para os outros, culpo o tempo 2, nossa não dá tempo para nada. Para mim, justifico com o tempo 1: Tá frio, tá frio, deixa eu dormir mais cedo, deixa acordar mais tarde, são férias...

Férias? Pergunta-me o teclado. E a lista de afazeres para as férias? Insiste ele, se recusando a continuar a escrever enquanto eu não tomar vergonha e agir.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Maique o quê?


Nunca pensei que fosse escrever sobre Michael Jackson. Me cansa só de pensar, mas esse cansaço pode ter uma origem bem mais séria do que simples enjoamento de mídia. As fotos 1, 2, 3 e 6 são reais. As 4 e 5 são projeções de como Michael Jackson poderia estar aos 50 anos se não tivesse entrado em sua viagem de transformações corporais.


Meu filho de quatro anos perguntou: "maique o quê?". Me surpreendi um pouco com a pergunta e, a princípio, não entendi. Ele repetiu, paciente: "ma-i-que o quê?". Ah, pensei, e respondi: "Jackson". O pequeno confirmou: Maique Jequesom. Je-que-som. E foi embora. Fiquei num vazio. Apenas o som final de jequesom ressoando.

É surpreendente o poder da mídia. Mesmo em uma casa onde a morte do super astro é pouco relevante e onde se tenta evitar que crianças assistam algo mais do que programas de TV específicos para a idade, a comunicação midiática vaza.

Diante do irremediável "maique o quê", fiquei pensando nessa mídia que atravessa e extravasa, refletindo e construindo nossa sociedade. Quando percebi, estava pensando sobre um outro menino que, desde que tinha pouco mais de quatro anos, foi atravessado por essa força de uma forma tão intensa que ela alterou não apenas sua personalidade, mas sua corporalidade.

Fiquei pensando na desagradável visão do rosto de Michael Jackson. Percebi o quanto me incomodava assistir ao clipe de sua metamorfose. Uma aberração transformada em show de horrores como nos antigos circos, onde se apresentavam as mulheres barbadas ou o homem elefante.

O que queriam me dizer aqueles pensamentos? Do ponto de vista de uma caucasiana, um negro metamorfoseado em branco era apenas mais uma curiosidade?

Não estaria na ânsia de embranquecimento desse menino uma expressão de minha própria hipocrisia? Esse moço não estaria revelando a todos nós, enquanto sociedade? Mostrando o quanto somos estigmatizadores e cruéis com aqueles que não pertencem ao cânone oficial? Com todos aqueles que não representam a cultura dominante e dominadora?

Sou branca e tenho um filho negro. Que valores devo exemplificar para que ele nunca venha a sentir o mesmo repúdio de si que abalou aquele outro menino? Como fortificar meu caráter a ponto de não permitir que minha própria fraqueza e indolência contribuam para a manutenção de valores e padrões culturais equivocados?

Sinto-me responsável e envergonhada. Sou autora e construtora da sociedade em que vivo, portanto, colaborei para que Maique morresse deformado.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Letras não voam


Em seu livro "Kingdom of Childhood", Rudolf Steiner diz "Devemos evitar uma aproximação direta às letras convencionais do alfabeto que são utilizadas na escrita e na imprensa do homem civilizado. Antes, devemos guiar a criança de uma forma vívida e imaginativa através dos vários estágios que o próprio Ser Humano percorreu na história da humanidade". Dá alegria aprender as letras do alfabeto através de contos e através da aquarela e do desenho que acompanham cada letra. O professor pode desenhar a figura de uma montanha em uma posição que lembre letra "M". Este processo tem sua base no passado da humanidade, na escrita pictórica usada pelo homem antigo, e empresta qualidades vivas e reais a nossos modernos símbolos - qualidades que a criança consegue compreender.

Acima, caderno de uma criança do terceiro ano da Escola Waldorf: sem pautas, escrito com lapis de cor e ricamente ilustrado.

Estava na padaria. Estava na padaria com meu filho de quatro anos. Estava na padaria com meu filho de quatro anos e comprava pão. Assinei a nota. Uma assinatura "de nota". Aquelas que a gente faz até mesmo sem olhar. O pequeno falou, repreensivo: "letras não voam!".

Fiquei tensa. O que significava aquilo, naquele tom? Letras não voam? Pensei que voassem. Voassem alto como a imaginação das crianças, que são capazes de fazer de cada pê, um pássaro azul. Que podem transformar os emes em montanhas, os esses em lindas e coloridas cobras. Crianças são capazes de fazer de um simples tê, um avião e voar, voar pelo céu. Cair no mar e se salvar.

Então por que aquele tom? Por que aquela repreensão? "Letras não voam"? Não? Então o que fazem as letras? Perguntei, impactada. A resposta veio didática e inflexível: "letras não voam, devem andar em cima da linha!". Foi assim e com a exclamação no final.

Em cima da linha. Só tem um lugar onde a letra anda em um lugar tão marcado: num caderno de pauta. E só tem um lugar onde cadernos de pauta são usados: na escola tradicional. Ah, também no contador e no cartório.

No resto do tempo, as letras voam. Aqui mesmo no jornal, não temos nenhuma linha. Olhe em volta. Quantas letras vê? Quantas andando "em cima da linha"? Andar em cima da linha não é da natureza da letra, é uma imposição arbitrária.

Nas escolas Waldorf, não usamos cadernos de pauta. Lá as letras voam até que a criança adquira a reta através do amadurecimento de sua própria força interior e, então, naturalmente, a escrita fica em linha reta.

Paciência, fantasia e amor são as ferramentas indispensáveis na passagem da imaginação infantil para a abstração intelectual da escrita moderna. Antes de escrever, movimentar.

Os primeiros cadernos estão cheios de cores, de formas, de linhas retas e curvas, onde se adivinham os gestos e os movimentos que se fizeram, bem antes, com o próprio corpo e com o mundo ao redor.

Surge a primeira letra, - o R, por exemplo. E com ela a história do Rei! A criança entra no mundo da escrita pela mão da fantasia que a nutriu nos primeiros anos de vida. Sente-se em casa, não se assusta, consegue avançar com confiança. Sim, as letras devem voar e encontrar o pouso no coração da criança.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mudai vossos sentidos


Gosto de aproveitar as épocas do ano para refletir um pouco sobre as qualidades que cada época nos traz. Estamos em São João e, para mim, a melhor quermesse é aquela que me ajuda ser uma pessoa mais atenta e consciente, como queria João.

Eram poucas as palavras com as quais João Batista alcançava e punha em movimento os homens do seu tempo: "Mudai vosso sentido; o Reino dos Céus está próximo"(Mt3, 2).

Essa mensagem continha tudo o que podia preparar a virada dos tempos.O Batista percebia um entrelaçamento entre os acontecimentos espirituais e humanos. "Os Reinos dos Céus estão em movimento", dizia.

Essas palavras do professor e teólogo Gerhart Palmer, escritas em 1976, por ocasião da Época de São João, me intrigam. O que queria dizer João com: "Mudai vosso sentido"?

O professor afirma que, com alguma atenção, é bem possível perceber que os "céus estão em movimento" e, por isso, devemos "mudar nossos sentidos", como advertia João Batista.

A começar pela nossa percepção temporal, o tempo linearmente estabelecido, como o conhecíamos, não existe mais. A aceleração e a multiplicidade de "agoras" é uma coisa que pode ser experienciada até mesmo por quem tem uma vida bucólica, no campo, longe da agitação das grandes cidades.

Palmer diz que, além da acelaração temporal, do movimento dos céus, temos muitos outros motivos para relacionar a fala de João no deserto conosco hoje.

Segundo ele, estamos vivendo em um tempo onde as almas humanas estão muito atarefadas e sempre ocupadas. Por isso faz parte da nossa mudança de sentido atual, criarmos espaços em nossas almas para o que está vindo e, com isso, manter-nos saudáveis.

Esse espaço anímico pode ser entendido como consciência. Nesse caso, como uma consciência vigilante. Devemos estar despertos diante de nossas tarefas diárias e, igualmente, frente às nossas demandas internas, o que o teólogo chamou de "fatos que partem dos Reinos dos Céus".

Os céus estão em movimento. E os homens? Na cultura cristã, desde João Batista, há mais de dois mil anos, estamos sabendo que para encontrar aquilo que pode nos preencher com vida e plenitude devemos nos colocar em movimento.

Um movimento especial em direção interna. Um movimento que permita o desabrochar de qualidades fortalecedoras e higienizadoras. João Batista ensinava: que o tempo antigo está cumprido e que um novo tempo precisaria começar. Esse novo tempo está dentro de nós.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Metanóia


Estou constantemente dividida entre minha tendência em escapar da vida adulta, em negligenciar ou adiar meus compromissos e a sobrecarga do "querer abraçar o mundo" das responsabilidades excessivas. Baseado na Psicologia Analítica, estou tentando seguir algumas recomendações, entre elas:"Procurar manter uma equilibração dinâmica das atitudes que valorize o meio-termo, pois toda falta e excesso fazem mal ao nosso funcionamento, tanto corporal quanto psíquico. Ter cuidado em não assumir uma organização demasiadamente unilateral, e que não atente as influências reguladoras do inconscientes que podem ser conhecidas mediante: a auto-observação, a autocrítica e a análise das produções do inconsciente (como sonhos, fantasias e etc). Isso requer uma atitude de estar aberto às possibilidades de agir-existir, e também ao processo contínuo de adaptação às diversas situações e estágios que a vida nos apresenta, para tal, torna-se necessário romper com os condicionamentos, que ao mesmo tempo que facilitam nossa vida, nos aprisionam".


Ai que meda! A palavra do título me dá meda. Assim mesmo, cacofônico e feminino, como uma grande meta-nóia.

Pelo novo acordo ortográfico, metanóia nem teria mais acento, mas estou tão assustada que nem ousei retirá-lo. Que meda! Que meta - nóia.

Assustou? Não? Tem certeza? Vou de novo, soletrando: me-e-ta-a-nói-ia. Sustô agora? Inda não? Socorro! Eu sim.

Mas garanto que vai assustar quando eu disser o que é metanóia. Na origem, do grego, significa "arrependimento", mas pode ser interpretado de muitas outras maneiras como:

conversão, mudança de ideia, de direção, de atitudes. Em resumo, tudo aquilo que a gente não quer fazer, mesmo sabendo que precisa: a maior metanóia.

Segundo Jung, a metanóia é uma transformação radical que acontece, mais ou menos, no
meio da nossa vida. Para o psiquiatra suico, na infância e adolescência, o ser humano procura se adaptar à realidade por meio do desenvolvimento da consciência. Por volta dos quarenta anos, acontece a metanóia, um forte período de mudanças, revisões, questiona-mentos. Procura-se, desta forma, buscar o verdadeiro sentido da existência.

Isso tudo para que, na segunda metade da vida, abre aspas: "a consciência tenha possibilidade de travar esse 'acordo' psíquico em que o sujeito tende a se voltar para o seu interior, onde tem que voltar sua existência para a realização de seu Self".

É exatamente isso que me assusta: já estou passando bastantinho da "metade da vida" e ainda não sinto que entrei na metanóia.

Sinto-me, quase sempre, como uma criança, no máximo, um adolescente, ainda tentando me adaptar à realidade, com dificuldade de adequação à vida adulta. Isso me parece um sinal bem interessante, usando uma expressão de Jung, um "indincium". Ou seja um indicativo de que está passando da hora de uma re-visão.

sábado, 25 de abril de 2009

O naturalista amador


Possibilitar a relação saudável da criança com o meio ambiente é um dos caminhos mais seguros para o surgimento de adultos comprometidos com a sustentabilidade da vida no nosso pequeno planeta. Existem programas de TV interessantes sobre o assunto como Zoboomafoo, na Cultura e Selvagem ao Extremo, na Rede Record. Além disso, a literatura está repleta de bons títulos sobre plantas, bichos, solo, água e ar. Mas nada disso adianta se a criança não tiver um contato direto com os elementos da natureza e bons exemplos de adultos por perto, que deem uma visão da biosfera como uma parceira de vida e não como "fonte de recursos".

O menininho de quatro anos sai correndo em disparada perguntando: onde está meu milípede?

O milípede em questão é o colar de sementes negras da mãe que ora é sucuri ora é minhoca e, em outras vezes, é o milípede, aquele herbívoro que se enrola em forma de espiral e possui muitas muitas pernas.

Noutra ocasião, a mãe pergunta: que está fazendo, meu filho? O pequeno responde, enquanto esvazia a terra de uma porção de canos e os enche com cuspe, fazendo uma massinha: experiências, mãe, experiências, repete com uma expressão compenetrada.

Outro dia, o menino passa pela mãe, arrastando-se pelo chão e exclamando: o alligator está passando, cuidado. A mãe estranha o termo estrangeiro e sem querer aprofundar, mas já aprofundando, pergunta: qual a diferença entre o crocodilo e o alligator? Mãe, responde o pequeno, em tom professoral: o crocodilo e o jacaré são da família do alligator.

Enquanto almoça, a babá lê para o menino um livro sobre o solo, onde um tatu e um sapo comentam: "O solo é composto de partículas da rocha-mãe, água, ar e matéria orgânica produzida pela decomposição dos resíduos vegetais e animais. É formado pela ação de fatores ambientais como o clima, microorganismos, relevo, rocha-mãe e o tempo".

Mais tarde, coberto de lama, em um buraco no jardim, o menino-tatu grita: Pai, estou tomando banho de rocha-mãe.

E assim segue o mini-naturalista amador: vai pelo jardim atrás de rastros brilhantes de lesmas, pega a escada pela ver de perto a teia da aranha tecelã entre os troncos das bananeiras, faz um cobertor de folhas e diz, com prazer: estou coberto de matéria orgânica.

Essa mistura engraçada entre conhecimento científico, experiência sensória e fantasia pode fazer surgir nas crianças um interesse genuíno pela natureza como parceira de vida.

sábado, 11 de abril de 2009

O coelho, a borboleta e o ovo


É tarefa de toda pessoa que convive com crianças, independente de ser pai, mãe ou professor, permear com significado sagrado os pequenos e grandes momentos de suas vidas. Atualmente, para a maioria das famílias, a Páscoa é comemorada com a distribuição dos ovos de chocolate, muitas vezes comprados no supermercado junto com a própria criança. Desta forma, o espírito da Páscoa fica restrito ao ato de consumo e prazer imediato. Para as famílias religiosas, às vezes fica um pouco difícil fazer com que a criança perceba a relação entre os ovos de chocolate do supermercado e os sofrimentos do querido Jesus. É importante estarmos alertas a essas questões para evitar criarmos situações dicotômicas ou vazias de significado e, com isso, prejudicar a formação do corpo ético-moral das crianças.

Nossa história começa bem cedinho em um parque ensolarado.

Uma jovem coelhinha passeava despreocupada colhendo suas cenouras quando uma borboleta pousou perto dela e falou: "Olá! Você pode me ajudar?"

A coelha respondeu: "Claro, linda borboleta, o que você precisa?" A borboleta explicou: "É que hoje é o domingo de Páscoa e eu preciso avisar a todo mundo que hoje se comemora a Vida".

"A Vida? Como assim?" perguntou a coelha, espantada.
"Uma vez por ano, nós, as borboletas, lembramos as pessoas do Milagre da Vida. Saímos do escuro casulo e voamos pelos ares mostrando a beleza da luz e da cor que dá alegria à vida".

"Mas como eu posso ajudar, se eu não sei voar?", perguntou a coelha. "Entregando estes ovos de chocolate em todos os lares", respondeu a borboleta.

Surpresa, a coelhinha perguntou: "Ovos de chocolate? Como assim?"

"Sim, os ovos são portadores da vida. Deste modo, esses ovos de chocolate lembrarão a todos a vitória da vida sobre a morte", esclareceu a borboleta, batendo as asas alegremente e começando a voar ao redor da coelha.

"Então, deixe comigo, de hoje em diante eu e todos os coelhinhos vamos cumprir nossa nova missão e entregar os Ovos da Vida!".

Pequenas estórias, como essa, que reúne as imagens da ressurreição, dos ovos de chocolate e do coelhinho, podem ajudar a unificar, de forma lúdica e alegre, os diversos simbolismos da Páscoa, independente de coloração religiosa, colaborando para a formação do corpo ético-moral da criança. E, assim, tentar evitar dicotomias do sentir e ações vazias de significado, centradas apenas no prazer imediato.






A rezadeira equivocada


Sou rezadeira. Daquelas que pedem-pedem, explicam aos céus tim-tim por tim-tim o que querem, como se lá em cima não tivesse visão panorâmica. Uma boba. Quem já leu um pedacinho de um escrito antigo onde diz "olhai os lírios no campo", deve saber que atitudes como a minha é pura falta de fé. No entanto, tenho medo de não pedir. Tenho pressa de dar certo e não consigo perder tempo agradecendo o que recebo diariamente que, com certeza, é bem mais do que faço por merecer. Estou me esforçando para melhorar, mas ainda bem distante da meta desejada: um olhar mais agradecido ao que tenho e sou.

O poder da oração é um assunto bastante pertinente para se tratar na quaresma. Muitas pessoas intensificam suas preces nessa época do ano. Eu sou uma delas.

Na Quarta-feira de Cinzas, começo o que chamo de "Oração da Quaresma". Escolho um horário fixo e escrevo uma oração, onde procuro trazer os pontos de desafio: confiança, alegria, entusiasmo e agradecimento.

Esse ano, queria dar ênfase ao agradecimento. Minha intenção era agradecer mais, pedir menos. Não deu. Relendo minhas ladainhas, vejo que enfatizei - novamente - as questões sociais e financeiras. É um desafio. Quando vou aprender a agradecer? Fico me justificando, acusando a crise mundial pela minha falta de humildade e gratidão. Mas, agindo assim, não engano nem a mim mesmo, o que dirá os benfeitores espirituais?

Pois vejam só o que aconteceu: um dia, no começo de março, logo na primeira semana da quaresma, eu estava um pouco desgostosa, reclamando que "as coisas nunca dão certo", quando resolvi dar uma olhada no que estava anotado nos cadernões de outros anos, nessa mesma época. É aí que percebo a força do cadernão-diário-agenda como agente histórico-terapêutico.

Revi minha situação na quaresma de 2008, espantada e incrédula, fui verificar 2007 e 2006. A quantidade de desafios, doenças, crises que haviam sido superadas de lá para cá era tamanha que, imediatamente, comecei a chorar e agradecer.

Fiquei muito envergonhada da minha ladainha pedinte de 2009 e do equivocado sentimento de órfã dos protetores do céu.

Porém, acreditem, continuei com ela. Sem alterar em nada o teor de agradecimento nela contido: apenas duas linhas em três páginas.

Será por quê? Me pergunto, enquanto escrevo aqui. Sei bem, mas custo a admitir: pura falta de confiança e apego ao pedir-pedir. Quando vou perceber que tenho muito mais a agradecer do que a pedir?

The story of stuff


De onde vem aquilo que consumimos? Para onde vai? Estamos em um momento histórico no qual fazer perguntas como essas pode significar a vida ou a morte de nossa sociedade. Mudar pequenos hábitos de consumo foi importante até agora, mas, a partir desse momento, pode significar nossa única possibilidade de sobrevivência. Está achando exagero de ecochata? Tomara que seja.

Para quem tem internet, basta acessar Youtube . Para quem ainda não está na rede, vale a pena refletir sobre o assunto a partir de observação e leituras.

De onde vêm as coisas? Será que tudo o que você consome é realmente necessário? Aquela sacolinha minúscula que você exige na farmácia é realmente útil? O que você faz com ela depois? Por que você comprou seu novo celular? O antigo estava quebrado? Ou será que precisava de mais recursos? Acertei? Então você usa todos os recursos disponíveis, não é?

Você faz compras nas lojas de 1,99? Sabe como são compostos os preços das mercadorias? Você já ouviu falar em "exteriorização de custos"? Não? Então já passou da hora de se informar.

Pois bem, reparou que estamos em meio a uma crise mundial? Mais uma como tantas outras, você dirá. Porém, observe com cuidado e verá que tem uma pequena-grande diferença entre essa e as crises anteriores.

Essa é uma crise ideológica. Ideológica? Sim. Nossas idéias e crenças estão em crise. Nosso modus vivente está sendo questionado da forma mais direta e, talvez, a única que damos atenção: nossa ideologia está sofrendo um colapso financeiro.

Até agora, cuidar do meio ambiente, colaborar para que o planeta, e todos nós sobre ele, se tornassem autossustentável era um "papo cabeça", coisa de ecochato e cia.

Quantas vezes já falei aqui que se todos tivéssemos o padrão norteamericano de consumo, a Terra duraria 19 dias. Pois essa estimativa já passou para 11 dias. Ou seja, precisaríamos de mais cinco planetas para viver apenas mais dois séculos consumindo desse jeito.

Infelizmente, parece que a única maneira que vislumbramos até agora de fazer com que a exaustão dos recursos desacelere é com uma crise mundial. Quem consumia sem parar, agora está sendo parado pelo desemprego, pelo desamparo da previdência, pela dor.

A partir dessa crise, teremos de nos questionar sobre a história das coisas, do contrário não mais precisaremos recusar a sacolinha da farmácia, pois não teremos o dinheiro nem para o remédio. Trágico? Exagerado? Pode ser, mas eu prefiro mudar e não pagar para ver.


quarta-feira, 11 de março de 2009

A resiliente


Há uns 20 anos, conheci uma senhora idosa que era focalizadora de um centro de vivências, em Nazaré Paulista, São Paulo, onde as pessoas podiam ir para, em contato consigo mesmas, aprofundar sua experiência e seu conhecimento interior. A senhora era a escritora americana, Sarah Marriot (foto), na época com quase 90 anos. Além de seu jeito sereno e olhar brilhante, uma outra coisa me chamou atenção ao conhecê-la: as rugas. Elas eram em forma de sorriso. Desde então, tenho me perguntado quantos sorrisos foram precisos para que a pele ficasse marcada com aquela expressão.

Sabe o que eu gostaria que escrevessem no meu epitáfio? "Aqui jaz a resiliente". Etimologicamente, o termo epitáfio originou-se do grego antigo (epitáphion), no latim, epitaphiu ("sobre a tumba"). Como tradição discursiva, é uma inscrição sobre lápides tumulares que apresenta enaltecimento, elogio breve a um morto. "A resiliente" seria meu maior elogio pos mortem.

Já falei de resiliência aqui na coluna. É aquela propriedade da engenharia que permite que os corpos mantenham suas propriedades mesmo após serem submetidos a grande estresse. A expressão migrou da área de exatas para humanas por derivação e constituiu um sentido figurado para designar a capacidade que algumas pessoas têm de transformar adversidades em oportunidade de crescimento. Pessoas que saem fortalecidas após os golpes que a vida dá.

Além do epitáfio, na lápide, um pouco acima da inscrição, colocariam minha foto, tirada quando tinha oitenta e três anos. No rosto, a disposição das rugas chama atenção. Elas são o registro de um sorriso permanente. Rugas de quem passou boa parte da vida sorrindo.

Nesse futuro imaginado, eu seria assim: resiliente e sorridente. Sorriria tanto que minha pele ficaria eternamente marcada pela expressão de sorriso. Eu teria rugas sorridentes.

Há muitos anos, conheci uma senhora assim, a escritora americana Sarah Marriot. Por muitos anos, ela foi focalizadora do Centro de Vivências Nazaré, hoje, Universidade da Luz.

Sarah era uma mulher especial. Seu trabalho consistia em escutar pessoas e partilhar com elas pequenas lições do cotidiano que, muitas vezes, proporcionava ao interlocutor o surgimento de insights, reflexões e esclarecimentos.

Desde então, diante das rugas de Sarah, tenho pensado: gostaria de ter rugas assim, marcas evidentes de uma vida de paz interior.

Estou com quase cinquenta, ainda tenho alguns anos pela frente para conquistar rugas de alegria e um título de resiliente.

E assim, daqui uns quarenta anos, alguém, na lápide à sombra de um jacarandá-de-jardim, lerá: "A resiliente", e verá a foto de uma senhora com rugas sorridentes e poderá pensar: "também quero ser assim".




Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto


As férias do meu antigamente eram longas, muito longas. Dava tempo de não fazer nada por muito tempo. Hoje, as férias são apenas escolares, e para os alunos, professores continuam estudando, planejando, preparando. As atividades, compromissos e preocupações seguem firmes pelos míseros quarenta dias, que vão da semana do Natal até o final de janeiro. É uma pena. Resta-nos a nostalgia de tempos longos e idos.


...que eu tô voltando.

Férias. Sempre curtas. Curtíssimas. A volta muito antes do que poderia.

Férias. Quando eu era criança, há bem tempo, as férias duravam tanto. Íamos para a praia no começo de dezembro e só voltávamos na última semana de fevereiro.

No litoral, passávamos o Natal, o Ano Novo, Dia de Reis, Carnaval. Era um tempo de tardes esticadas, brisa boa, tempestades violentas.

Vez ou outra, uma onda matreira invadia a praia e chegava quase até às casas.

No Rio Grande do Sul, onde se come diariamente o feijão preto, como aqui em Minas e em São Paulo se consome o mulatinho, carioquinha ou vermelho, dependendo do nome que se dê à encorpada e macia leguminosa cotidiana.

Pois então, lá no Rio Grande do Sul, onde vivi a minha infância, o litoral é plano, uma linha reta, sem os recortes que formam enseadas. A reta litorânea vai do norte do estado, em Torres até o extremo sul, no Chuí.

Acho que isso ajudava na composição do tempo. Um tempo plano, contínuo, que parecia infinito. Um tempo de sol, de aventuras mirins, de banhos de chuva no fim das tardes, de arco-íris luminosos e cercados de fantasia.

Água da bomba com gosto de ferrugem, panela no fogo com pedra em cima da tampa, que tá fazendo vó? sopa de pedra, acreditávamos. Sapos coaxando, dunas imensas a serem exploradas, histórias de mistério contadas debaixo das estrelas, o roba-monte jogado à luz do lampiãozinho de querosene.

Férias. Tão diferentes das de hoje em dia. As férias de agora transformam qualquer um em nostálgico, dá saudades de tempos idos, da cabeça vazia, do corpo saudável. Saudade de um tempo - realmente - vivido.

Dá vontade de dizer, como na música Tô voltando, de Chico Buarque, que serve de título e mote para essa primeira crônica do ano: "Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar, telefone não deixa nem tocar"...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A reforma obrigatória

Pela lei, eu ainda teria um tempinho para a adoção da nova reforma ortográfica, mas me incomoda o fato de não estar enfrentando o assunto de frente. Para mim, essa é uma reforma contraditória e desnecessária, mas não sou eu quem faz as leis. Além disso, nunca mais escrevi uma palavra com trema com a mesma tranquilidade. Nem tão pouco hifenizei com naturalidade. Por isso, já que o mal está feito, me comprometo a tentar escrever no novo padrão a partir de março. Peço desculpas antecipadas pelos possíveis deslizes.

Estava tentando adiar, mas não tem como, é uma reforma definitiva e obrigatória. Vou precisar aderir. Que fazer? Melhor enfrentar logo. Estou em fase de enfrentamentos.

Escuto na Rádio Boa Nova, o psicólogo e comunicador Mario Mas, que tem um programa chamado "Desafios e soluções", onde trata de temas relacionados ao comportamento na nova era.

Acesso à rádio pela internet, pois o conteúdo dos programas fica arquivado e posso escutá-lo quantas vezes quero, no horário em que acho mais adequado. É uma maneira de aprender, enquanto trabalho.

Um dos programas que já escutei várias vezes é sobre enfrentamento, baseado no livro de "Triunfo Pessoal" de Joana de Ângelis, psicografado por Divaldo Pereira Franco.

O psicólogo fala da dificuldade de assumirmos nossos próprios desafios na lida com as questões do mundo. Disserta sobre nossa tendência em adiar ou ignorar compromissos e assuntos desagradáveis e ressalta nossa insegurança em relação às negações e contrariedades que a vida poder vir a oferecer em resposta aos nossos anseios e vontades.

Nesse janeiro, recorri ao programa algumas vezes para desfazer minha tendência em adiar compromissos difíceis. Fiquei feliz ao perceber que fui superando um por um dos desagradáveis assuntos. Só faltou esse, que queria ter começado a enfrentar logo na volta das férias, na primeira coluna do ano, mas adiei.

No entanto, nesse tópico que me proponho a enfrentar a partir de agora, vou precisar de bem mais do que lições sobre comportamento pessoal na nova era. Precisarei de uma boa dose de tolerância e de boa vontade para fazer o que não concordo. Explico: vou adotar a reforma ortográfica.

Estou relutante, pois não achei uma reforma adequada. Há falhas, em especial no tratamento dado aos hífens. Além disso, adoro tremas. Não me vejo tranquila, como um argentino, prefiro ficar tranqüila nos meus quase cinqüenta anos.

Não suporto a ideia da idéia perder o acento. Parece que, juntamente com ele, perderá o brilho que um pensamento do tipo idéia deve ter.

Bom, mas como não tem outra maneira, vou enfrentar: comprometo-me a, a partir de março, adotar a nova ortografia aqui na coluna. Haja revisão!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Abayomi e a consciência negra




Aluna do curso Extensão em Pedagogia da Arte, do Unis-TP/MG, confecciona boneca da tradição afro-brasileira.
A Cooperativa ABAYOMI nasceu a partir do trabalho de Lena Martins, artesã nascida em São Luiz, estado do Maranhão, educadora popular, militante do movimento de mulheres negras, que na busca de um artesanato que utilizasse um mínimo de ferramentas associado a preocupação com o excesso de lixo cria uma técnica de fazer bonecas com sobras de pano sem utilizar na sua feitura cola ou costura. Em suas oficinas, cursos e vivências, promove a formação de trabalho em grupo, incentiva as relações de cooperação e generosidade, buscando fortalecer a auto-estima de negros e descentes e superar as desigualdades de gênero. (www.abayomi.com.br)

Nesse mês de novembro, um momento especial aconteceu em Três Pontas, reunindo o fazer artístico e a necessidade de estarmos atentos à diversidade étnica.

Durante uma oficina de confecção de bonecos para teatro, uma turma confeccionou bonecos na técnica africana Abayomi, com retalhos de tecido reciclados, sem cola ou costura.

Quando a primeira personagem ficou pronta, a emoção tomou conta dos participantes do curso de Extensão em Pedagogia da Arte, realizado no Unis-TP. Podia-se perceber a força da tradição na simplicidade das formas da boneca negra.

A boneca representará um dos papéis na peça de teatro que também faz parte da tradição oral afro-descentente: é a lenda de Iansã, o búfalo que era uma mulher, Oyá, a rápida. Ela vivia na floresta onde moram os caçadores.

Um dia, Ogum, que é caçador e deus da guerra, passava pela floresta e viu o búfalo virar uma linda mulher. Ele ficou apaixonado por ela. Ela era uma mulher bonita, que se vestia com muito gosto, usava uma espada e fazia raios caírem do céu. Ogum foi atrás dela e a pediu em casamento.

Esse tipo de atividade, ressalta a importância de professores entrarem em contato com tradições étnicas para que possam valorizar a diversidade cultural em suas salas de aula.

A boneca, como objeto afetivo e artístico, sempre presente no cotidiano de crianças e adultos, contribui fortemente para a formação pessoal e coletiva da sociedade. Quando associada ao teatro, transforma-se em uma categoria expressiva na formação e transformação social.

Expressões culturais e artísticas como essas abrem um canal de contato e fortalecimento das relações interpessoais, vitais meios de emancipação da coletividade.

Agradeço a oportunidade de poder colaborar na capacitação desses professores para que se tornem agentes artísticos, fortalecedores culturais e constituidores de espaços capazes de contribuir para a neutralização da segregação e da discriminação.

Tenho certeza que a vivência com a boneca Abayomi ajudará os professores a promover ações emancipatórias no campo da arte, da educação e do afeto que farão dessa, uma sociedade mais igualitária.

domingo, 16 de novembro de 2008

Todo mundo sabe que Débora sabe


Mitos, crenças, valores, preconceitos e, principalmente, violência doméstica, prestam-se, muitas vezes, para a formação de segredos familiares que podem ser transmitidos através de gerações. Muita ansiedade e culpa decorrem da manutenção desses segredos que parecem prejudicar seriamente o emocional do indivíduo. Na maioria dos casos, o que não é dito tornar-se muito mais grave do que o é na realidade. Se o depositário do segredo é uma criança, pode ocasionar desvio no comportamento que, em muitos casos, levam ao consumo precoce de drogas e álcool, como forma de aliviar o peso de carregar o segredo.


Débora sabia um segredo. Um segredo terrível. Acordava à noite, toda molhada de suor, o coração aos saltos, os olhos estatelados na escuridão do quarto. Ela sabia. E todo mundo sabia que ela sabia.

Porém, mulher direita que era, não podia contar. Vivia com isso, desde que tinha nove anos e fora depositária do segredo para que o guardasse.

Agora, passados muitos anos, não suportava mais. A cada dia, a cada hora, até mesmo nos poucos segundos entre uma respiração e outra, não podia mais agüentar.

Como fazer? Com viver com um peso desses? Não sabia. Sequer imaginava. Só sabia que sabia e que todos sabiam que ela sabia.

Pensava, no escuro, olho aberto, cabeça coberta com o cobertor, mesmo no calor abafado da noite: eu sei, eu sei e todo mundo sabe que eu sei.

Pela manhã, os afazeres domésticos lhe permitiam esquecer um pouco. Enquanto batia os tapetes, lavava as verduras, areava as panelas, não pensava naquilo, mas bastava uma pequena pausa e o olhar ia parar no horizonte, mirando qualquer coisa bem depois do infinito.

Ficava assim uns instantes, suspensa, em um lapso de tempo reconfortante, até que, de súbito, voltava-lhe a lembrança e o temor tomava conta dela. Ela sabia. Só ela. Todos sabiam disso.
Enquanto passava roupa, escutando rádio, traçava planos e criava estratégias para se livrar daquilo.

Imaginava-se em um palco escuro, um único holofote fixado nela, microfone em punho, coração aos saltos como nas noites insones. Lá, contava tudo para todos. Mostrava que sabia, que sempre soube, mas que, a partir daquele momento, não carregaria mais esse peso sozinha.

Ela não seria mais a portadora de um segredo. Todos saberiam, como ela. Todos a veriam e a escutariam contar. Todo mundo saberia, como ela. E o segredo não mais existiria.

As pilhas de roupa iam crescendo, o rádio cantava sozinho, dava a hora, falava do tempo, mas, para Débora, o tempo era o imaginado. Era o tempo da futura revelação.

Quase sempre nessa hora, a porta se abria e as crianças entravam alvoroçadas. Deixava a roupa e ia preparar o café.

Mais um dia, mais uma noite, previsão de sol e calor, mas não para ela, que sabe e não pode contar e que todo mundo sabe que ela sabe.

domingo, 9 de novembro de 2008

Obama: o planeta sonho será Terra


Diz o Jabor: "Obama é preto. Liberal. Culto. Com nome de muçulmano". E continua, em seu discurso afetado: "Neste mundo do 'conto-do-vigário', das finanças alavancadas, Obama é uma síntese de idéias, é a tomada do poder das conquistas cientificas, culturais e éticas da modernidade. Arnaldo exagera - sempre - mas, nesse caso, todos nós queremos exagerar. Todos queremos acreditar. Jabor arrisca prever: "Voltarão a razão e a inteligência". E completa: "Obama não é o novo. Ele é o velho. O bom e velho humanismo, a velha grandeza esquecida do mundo ocidental". Será? Preciso responder que sim.

Minha caixa de entrada do e-mail lotou com mensagens de esperança. As pessoas mais surpreendentes se manifestaram a respeito da eleição do novo presidente americano.

Artistas, intelectuais, cientistas, gente que não se deixa levar pelas aparências midiáticas dos fatos. Gente que sabe ler nas entrelinhas. Gente que ensina. Gente que forma opinião.

Pois, na minha caixa de entrada, essa gente estava respirando credulidade. Entusiasmadas, contagiadas. Querendo, torcendo. Um deles, finalizando com exclamação, disse: "Que não haja, portanto, ‘realismo histórico’ que nos impeça de sentir a emoção!" E acrescentou: "Haja o que houver, este será, ainda assim, um dos dias historicamente mais significativos no período de vida de cada um de nós que está vivo no momento. Outro, mais cauteloso, falou: "Se isso é bom eu ainda não sei, mas eu prefiro assim".

Também os blogs dos amigos estavam repletos de textos de otimismo. Mesmo os mais críticos se renderam ao fenômeno Obama. Num deles, o título da postagem do dia era: "Obama nas alturas" e trazia a ilustração que está acima. Outro, escreveu simplesmente: "Agora sim!", também com exclamação. E mais exclamação: "Oxalá seja verdade!".

No blog do Caetano, o Veloso, ele escreve que "depois de ver Jesse Jackson chorando. Chorei junto com ele". A emoção de todos com o fenômeno chega a tecer inferências inusitadas: "Quando eu vi Barack Obama pela primeira vez foi simpatia à primeira vista. É que eu achei o seu estilo muito parecido com o de Paulinho da Viola quando jovem. Aquela mesma postura elegante e serena do nosso sambista maior, aquele mesmo jeito maneiro de sorrir e de quem carrega consigo um fair-play de berço sempre pronto para ser usado quando o adversário cair em campo, enfim, a elegância em pessoa".

E eu? Eu? Estou como um amigo: "consciente, mas ainda assim emocionado". Além disso, sou negra, completamente negra e sorrio.

Não que eu queira racializar o fato, como o republicano derrotado fez em seu último discurso. Mas não posso deixar de achar bom que o país da Ku-Klux-Kla tenha um presidente negro.

Se ele vai ser bom? Não sei. Se ele vai ser justo? Não sei. Se o mundo vai ficar melhor com ele? Também não tenho idéia.

Mas nossa Terra estava precisando demais ser novamente o planeta sonho. Em nome de nossa capacidade de sonhar, exclamo: "Yes, we can", pelo menos dreams.

domingo, 2 de novembro de 2008

Todos os Santos


Os santos, sejam religiosos ou não, são entidades lúdicas que podem nos ajudar a resignificar nosso sistema de crenças.


Pelo calendário Cristão, hoje é Dia de Todos os Santos. O calendário é cristão, mas, para mim, a data é ecumênica.

Todos os santos, podem incluir também aqueles que não pertencem a uma crença religiosa específica. São os entes divinos da crença de cada um.

Todos nós possuímos entidades que divinizamos. Todos nós precisamos dessa instância da fé para segurar o peso do cotidiano.

Se não somos religiosos, divinizamos instituições ou até mesmo nosso próprio sistema de crenças não religiosas.

Já notaram o quanto uma pessoa cética é crente? Ela acredita, com todas as suas forças, que não acredita em nada. É até bonito de ver tamanha força e convicção. Crer é da natureza humana.

A fé comporta uma dimensão lúdica. Por isso, os santos são ótimas entidades para se crer. Sem eles, caímos na tentação de acreditar em nossas próprias crenças. E, cá entre nós, temos uma tendência a crer no que há de mais negativo na vida.

Os santos, todos os santos, sejam eles de que religião forem, podem nos permitir abandonar crenças pessoais negativas.

Por exemplo, acredito que minha vida social mineira é muito difícil. Por mais que eu tente pensar diferente, no fundo, tenho a crença do estrangeiro nas irremediáveis diferenças culturais do exílio.

Mas aí, graças à força da fé nos santos, rezo constantemente ao nosso querido Padre Victor para que me ajude a viver feliz debaixo do céu e sobre o solo de Minas.

Dessa forma, tento reverter minha crença pessoal através da crença em um poder externo. No entanto, é minha própria fé que atua, revestida ludicamente pela imagem santa.

Por isso, hoje, agradeço a todos os santos. Em especial, aos santos cristãos que conheci aqui e que muito me acolheram.

Meu Santo Padre Victor, anjo local e amigo do cotidiano. Santo Expedito, que me ajuda a combater meus equivocados paradigmas econômicos.

São Micael, recordador de que vivemos na época da alma da consciência e, por isso, tudo precisa ser permeado por nossa reflexão.

São Francisco que me ajuda a esperar o melhor de mim e a ver o melhor dos outros.

São Rafael, que segura minha mão, como fez com Tobias, e me ensina o segredo da autocura.

domingo, 26 de outubro de 2008

O lócus do controle


É CONTRA MIM QUE LUTO

Miguel Torga

"É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso, o que sinto, o que digo, e o que faço,
é que pede castigo e desespera à lança no meu braço".


NÃO DISCUTO

Paulo Leminski

”não discuto com o destino o que pintar eu assino”.


Os poemas exemplificam duas formas distintas de locus de controle. O locus do controle interno e o locus de controle externo. Refletir sobre isso pode nos ajudar a compreender um pouco mais nossas próprias crenças.

O locus de controle explica, de duas maneiras distintas, uma qualidade de percepção do indivíduo. Na primeira, estão aqueles que consideram que os acontecimentos de sua vida ocorrem por conta de fontes externas, ou seja, que existem outras entidades, como seres divinos, o destino e outros indivíduos que controlam as circunstâncias.

Na segunda maneira de explicar o locus de controle, estão aqueles indivíduos considerados como possuidores de crença no controle interno, os que acreditam que os fatos são oriundos do próprio sujeito, de sua própria capacidade de realização ou esforço.

Essas duas maneiras de ver o mundo parecem nascer nas crenças individuais sobre a origem das recompensas e castigos no mundo.

A pessoa, ao adotar, inconscientemente, um dos tipos de crença, leva em conta a existência de um controle, que pode ser interno ou externo, responsável por avaliar sua conduta.

No controle interno, o sujeito percebe o reforço, a avaliação de seus atos, como contingente à sua conduta ou às suas características. Assim, o resultado de suas ações, positivas ou negativas, depende exclusivamente dele.

Ao contrário, quando se percebe um reforço como não relacionado a alguma ação, mas como questão de sorte, destino, controle dos outros, de poderosos ou como não-previsível pelas forças que o rodeiam, interpreta-se como crença de controle externo.

Cada um de nós, muitas vezes influenciados pela cultura, pela religião ou pela educação, tendemos mais para um lado do que para o outro.

O que importa, o que pode fazer a diferença, em se tratando de identificar nosso tipo dominante de crença de controle, é nossa capacidade de questionar nossos valores e hábitos e reavaliá-los.

Quem tende ao locus de controle do tipo interno, pode, talvez, ter desenvolvido uma maior dose de autoconfiança. No entanto, pode ter dificuldade em aceitar situações que fogem ao seu controle.
Aquele com uma tendência de explicar o mundo por intermédio do governo, dos deuses ou da sorte, talvez devesse tomar um pouco mais a vida nas próprias mãos e, digamos, "vencer" o destino.

domingo, 5 de outubro de 2008

A criança terceirizada


O médico pediatra e professor, José Martins Filho, é autor de "A criança terceirizada: os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo". Recebi a síntese de seu livro pelo e-mail e não gostei do tom. Tinha um quê de acusatório. Em certo momento, o autor questionava: "Será que todos os seres humanos precisam ser pais?" ou afirmava: "Sejamos sinceros, nem todo mundo está disposto a arcar com esse ônus. Talvez seja melhor adiar um projeto de maternidade, e mesmo abrir mão dessa possibilidade, do que ter um filho ao qual não se pode dar atenção, carinho e, principalmente, presença constante". Entendo e concordo com a preocupação do professor, mas discordo da abordagem do tema. O interessado e competente diretor da Escola João de Abreu Salgado, Prof. Camilo Tavares, também tocou no assunto da criança e do jovem da atualidade, mas em tom bem mais conciliatório. Acredito que o caminho é por aí. Se levarmos em consideração o surgimento recente da infância, veremos que estamos gatinhando, mas já aprendemos bastante. Tenho fé de que logo logo estaremos sabendo lidar com nossos pimpolhos e jovens tão bem quanto desejamos.


Li o bom artigo do Prof. Camilo na edição passada do nosso Correio. No mesmo dia, se não me falha a memória, recebi, pelo correio eletrônico, um texto de uma colega de Belo Horizonte, intitulado "A criança terceirizada: os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo", de autoria do médico pediatra e professor, José Martins Filho. Fico pensando que o momento pede que falemos sobre as questões atuais da infância.

Todos os dias, os noticiários trazem casos de crianças que sofreram perturbações. Não quero e nem vou relatar aqui qualquer um deles, todos estamos suficientemente saturados e horrorizados. Além desses casos policiais envolvendo crianças, os noticiários trazem também, em especial nessa época de férias escolares, diversas dicas de "o que fazer com seus filhos".

Juntando todas essas abordagens de assuntos relacionados às crianças, o que podemos inferir? Vejamos: de um lado, educadores e médicos preocupados, do outro, pais, parentes e cuidadores que extrapolaram de forma vil a relação com a criança e, ainda, famílias consideradas normais que não sabem o que fazer com seus rebentos quando não estão em mão de terceiros.

A infância é algo novo, muito novo, talvez por isso tenhamos tanto despreparo para lidar com ela. Foi apenas depois da era moderna que surgiu nossa concepção de infância como um período de desenvolvimento intenso do ser humano que requer atenção especial.

Até a idade média, a infância não existia. Não se levava em consideração as diferenças entre crianças e adultos. Nessa época, a mortalidade infantil era muito alta, as crianças só eram consideradas gente quando vingavam e começavam a realizar tarefas de adultos. Por volta do século XVII e XVIII, grande parte das crianças era educada fora da família e da sociedade em escolas de regime integral, que tinham por objetivo corrigir crianças “gulosas, preguiçosas, indóceis, desobedientes, briguentas, faladoras...” como consta em um registro da época.

Como podemos perceber, o assunto é complexo e pertinente. As raízes do abandono e da terceirização da criança parecem vir de muito tempo. Porém, cada vez mais pessoas estão atentas, buscando a melhoria na qualidade de vida dos pequenos e a conscientização necessária para que isso se dê o mais brevemente possível.