sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O bordado azul


Ele:
Viu o azul? Quanto há de azul?
Ela:
azul azul azul azul
Lilás corpo meu
Sem cor...
Ele:
Estou sob o sol e a infinitude do azul.

Neste pequeno conto, paisagens azuis brotam  choradas em
fios e pontos tecidos por Ana.


Lavou as mãos com um sabonete líquido que, desde a infância, havia se acostumado a ver sobre a pia do banheiro. Esfregou as palmas, o dorso, os dedos com um cuidado quase ritual. O creme de rosmarinus na pele úmida, dizia, dava-se ao encontro das sedas: mão, fio, tecido. 

Depois caminhou lentamente para a varanda, antecipando o prazer que em breve viria. Parou, olhou o horizonte e sentou-se na cadeira que fora antes de sua avó e de sua mãe. A madeira escura, a palhinha gasta, tramada há muito pelas mãos habilidosas do avô. 

Todas as tardes, Ana sentava-se para bordar. Na mesinha, ao lado da cadeira, a cesta de vime deixava escapar cores. O bastidor, pousado sobre a almofada, mantinha tensionado o risco já traçado sobre o tecido.

Toda a vida dela era assim, como aqueles dois círculos que se encaixavam perfeitamente, mantendo a tensão do pano. Não. Não queria pensar nisso. 

Sentou-se, olhou a paisagem do  costume: telhados, antenas, fachadas. O sol da tarde ardia os olhos. Por um pequeno instante, parou de respirar. Estava ali. Chegara a hora.

Abriu a cesta pegou algumas meadas e a pequena tesoura dourada. Colocou o bastidor no colo. A vida...era assim... Com um suspiro, afastou novamente o pensamento que teimava invadir a tarde quente e se concentrou no risco. 

Por que havia escolhido aquele motivo? Não lembrava mais. Era bonito, porém triste. A vida... Voltou a olhar as cores: três tons de azul para o céu. Não. Deixaria o céu por último, ainda não estava preparada para ele. A...era... 

Permaneceria nas montanhas e no grande rochedo. Cinzas, ocres, marrons. Cores sólidas que traziam a terra para perto de si. Os azuis ainda não, pensou furtivamente. Não. 

Reuniu as sedas: mão, fio, tecido. Começou a trabalhar intensamente. Era a forma que encontrara de esquecer. Não. O azul ainda não. A vida dela era assim...

Por um breve instante, ergueu os olhos do bordado e deixou-se arder pela tarde. Onde estaria ele naquele momento? No azul? Sob o sol e a infinitude do azul?

Balançou a cabeça com energia suave. Havia amado. Sim. Havia. Espetou a agulha sobre o risco da rocha. O fio cinza dilacerou o tecido. As lágrimas encharcaram o  espaço onde um dia bordaria o azul. 

Redigida agora, a ser publicada em 19 de novembro...



quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Corpoescritatecido

A partir da instalação da urdidura no corpo ou da invenção do corpo como urdidura, os tecidos-escritos pelos participantes, em uma oficina da esquizodrama, são tramados. No corpo-urdidura, a tecelagem se faz coletivamente, fluxo de corpo tecendo corpo, tramando os vestígios da palavra na pele. Fundição de corpos inventando corpo outro. O esquizodrama é um dispositivo de afetar e ser afetado, um laboratório onde as sensações afloram e se deslocam.


Um...Vertigem. A sala pequena, a leitura intensa. Fragmentos. A fala contínua, abrupta. A atenção voltada para cada palavra dita, lida ou escapada. A experiência faz dizeres, falares, pensares. Feito laboratório, experiência, afeto, percepto. Leituras. Marcas. Provocações.

Vozes de papel. Vozes no papel. Vozes atravessadas pelo papel. Mastigação. Som. Música. Grito. Ruídos do corpo. Sentidos no tempo. Fora dele. No liso do acontecimento. Marcas. Solidão.

A tensão do oculto, do insabido, da leitura subcutânea. Subterrâneos. Superfícies. Extensões. Permanente exercício. Constante investigação inconclusa. 
Movimento repetido na arte do 
acaso. Laboratório-experimentação. Que inventa a 
leitura? Quem se inventa na leitura? O que se inventa com a leitura? 

Dois...Vertigem. A sala pequena, a escrita intensa. Fragmentos. A fala contida, suspensa. A atenção voltada para corpo do
outro em movimento. Suor. Cheiro. Pulso. A experiência faz lembrança. Troca. Gestos. 
Afecção. Dualidão.  

Os dizeres distribuídos em rabiscos pelo pano. Olhares, notas, rasuras no tecido, marcas, rabiscos incompreensíveis. Esforço para escrever. Esforço para pensar. Esforço sujeito ao fracasso.  Sujeito? Que sujeito se produz na escrita? Que sujeito produz a escrita? Que sujeita a escrita? Marcas. Panos. Fibras. A pele como tecido vivo. Inscrição.
Superfícies de papel e tecido.Registros de vozes, dizeres, pensares, sentires, fazeres. Relatórios de afetação. Descobertas. Recobertas.Encobertas. Revestidas. Vestidas. Múltiplos...

Vertigem. A sala pequena, o tecer intenso. Fragmentos. Os tecidos marcados. Rasgados. O
corpo-urdidura. Tramado. A escrita tecida no corpo. Cheiro. 
Pulso.Suor. Respiração.Movimento. Tecelagem-palavra. A urdidura tensiona. Põe em questão. Que escritos se tecem no corpo? Que tecidos se escrevem com o corpo? Que corpos se escrevem no tecido? Que é tecido?

A experiência acontece. Laboratório. Os corpos tecidos. Outros-mesmos. Outro. Inquietos. Atravessados, urdidos, tramados, lidos, escritos. Marcas do papel no pano do corpo. Multidão. Na experiência-laboratório, o acontecimento-leitura-escrita tecido no corpo. Tecido vivo no subterrâneo da pele. No profundo da pele, a escrita, o lido. Na superfície da pele. Na pele. Falas, dizeres, pensares, sentires tecidos: fazeres.

Impresso e publicado em 17 de setembro de 2011.


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Gente que virão sabão

A crônica de hoje é abduzida de um escrito outro. O texto de Leandro Barreto, um jovem mineiro,  de 20 e poucos anos, colega da UFJF, exercitando-se na arte da escrita intensiva. É uma brincadeira. Daquelas sérias, que faz a gente escorregar, ensaboados que somos pela sua prosa lírica. Ando tão batida no pilão dos pensares que  atravessam o processo de doutoramento, que qualquer dia entro no banho e faço espuma de mim.  Boa leitura.


Escrever é tarefa difícil. Palavra fluida que escapa de mim... Escorrega! É sabão nas mãos de criança... A criança que brinca com o sabão ou ele coloca a criança pra brincar? O corpo todo está implicado na dança com o sabão, quem olha de longe parece loucura... Braços e pernas descompensados vão se mexendo em movimentos estranhos e desregulados... Arrítmico... Arritmia? Também.

No ensaio de hoje tento fazer sabão dos textos, das coisas e acredite até de pessoas! É preciso de muitas coisas para transformar tudo em sabão... E a primeira talvez seja acreditar nessa possibilidade.

Dança corpo: olhares, membros, troncos e inclusive as ideias de palavras que por aí vão se expandindo até ocupar o espaço. Espaço de mim mesmo que nessa mistura toda já está poroso. Me perco no meio da massa... E no tempo da bateção - onde o corpo começa a dançar arritmicamente - começa-se a perceber uma muDança na coloração, no cheiro e na textura dessa massa que costuma dar até espuma quando está "no ponto".


No começo é difícil acreditar que qualquer coisa pode dar sabão... Os materiais às vezes parecem ser grosseiros demais, sólidos demais... Mas quando chega "no ponto" não dá para não exclamar... Feito um bom mineiro que sou exclamo: "Noss num é qui deu?!"

Sua curiosidade é saber como faço pra transformar gente em sabão? Então, nesse caso preciso orientá-lo que não é possível produzir essa transformação... Ela acontece assim de repente... Feito barquinho na correnteza...

Afirmo que muita gente vira sabão! Fazendo memórias relembro casos... Às vezes é sofrível e às vezes não... Tem casos de gente que nem sabe, que nem mesmo dá conta que virou sabão... Sai andando pelas ruas como se fosse uma simples pessoa normal.

Toda vez que uma pessoa-sabão vai ao encontro de alguém, você pode esperar por tombos, escorregões e trapalhadas... Ficam tentando se equilibrar, mas o desequilíbrio é inevitável... Pode rir, é mesmo engraçado! Usei o verbo no plural "Ficam" porque a pessoa-sabão, mesmo que vá ao encontro de pessoas que ainda não são sabões, pode provocar o desequilíbrio assim mesmo - é por este motivo que criaram as botas de borracha, toda vez que você vê alguém com botas de borracha lembre-se: essas pessoas são precavidas contra escorregões provocados por pessoas-sabões.
Impresso e publicado originalmente em 3 de setembro de 2011.


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Amor em Times 12


Cara Nina, espero encontrá-la bem. A angústia faz parte do humano, a tensão da escrita devora o corpo, pois nasce dele, é ele. Será um prazer ler o seu texto. Quando se sentir segura pode me enviar. Também estou em processo de escrita, acabei por caminhar por Ecce Homo. Tomei a temática do corpo-escrita como investigação.  Se resistir à tensão, acabo a escrita na segunda.. Terei um enorme prazer em dividi-la com você, afinal, rumamos no mesmo barco, apesar de usarmos diferentes remos.. Até... Bjs... (MVL).

Algo acontece quando se ama em times 12. O mesmo em verdana 10 ou arial 9. Não importa o aplicativo, plataforma ou configuração, um relacionamento virtual, mediado pelo texto, seja no digital ou no analógico papel e tinta é um acontecimento que afeta o corpo.

Aqui, chamo de amor não apenas romance, namoro, paquera, como se dizia no ido tempo. O amor ao qual me refiro é um afeto trocado entre aqueles que se comunicam pela escrita. Pode ser entre colegas de escola ou trabalho, entre amigos distantes ou do apartamento de baixo, e mesmo entre pessoas da família. 

Quase sempre, quando se encontra aquele com quem se  manteve um contato intenso por carta ou internet, há uma vontade de cheiro, de toque, de mastigação canibal, uma fome antropófaga de corpo,  tato, contato. 

No entanto, existe um deslocamento, uma sombra atravessa esse encontro. Um algo não se dá. O corpo-presença não coincide com o corpo-escrita. 

Esse amor-escrita se dá sob o signo da falta, do desejo, da incompletude. Há um eros platônico, sublimado, inalcançável que não se satisfaz nem quando o outro se faz presença em calor e carne.

É assim, mesmo quando essa escrita não passou de um "oláa, tá boa?" ou um  "no mais, cuide-se bem". O corpo-escrita é um outro do outro, um  outro de si e do outro. Um it. Um amor-it. Um amor-it-da-escrita. Um impessoal misterioso, inexpugnável. O corpo afetado pela escrita epistolar não é de nenhum dos escreventes. É um corpo-escrita no entre. Entre-escrita. Entre-corpos. O corpo que escreve é it. Descolado do tu e do si. Além e aquém do nós.

Amor it da escrita. Diz o filósofo que toda escritura é uma carta de amor. Acrescento: de amor it. Em inglês, o it é usado para não humanos,  objetos, animais, plantas, e também nas orações sem sujeito. Amar it é amar o amor. Uma escrita de amor it é uma escrita por amor a própria escrita. Uma paixão que se dá entre o escrevente e o ser amado-escrita. 

Amar alguém caligraficamente ou em times 12 pode ser simplesmente amar a caligrafia ou a fonte tipográfica. Mas pode ser também amar a  potência singular da escrita. Ela própria corpo entre corpo. 

Amar em times 12 inventa um corpo outro e faz o corpo-escritor se carnar  de vida-viva em  papel ou bits.

Impresso e publicado originalmente em 20 de agosto de 2011


sábado, 20 de agosto de 2011

Abriga-me



[...] os homens não deixam de fabricar um guarda-sol que os abriga, por baixo do qual traçam um firmamento e escrevem suas convenções, suas opiniões; mas o poeta, o artista abre uma fenda no guarda-sol, rasga até o firmamento, para fazer passar um pouco do caos livre e tempestuoso e enquadrar numa luz brusca, uma visão que aparece através da fenda [...] (DELEUZE; GUATTARI, 1997). O abrigo é um receber. Avizinhar-se é abrigar pela simpatia o que está próximo. O que mais próximo de nós está é o próprio (MVL).  Pode não parecer, mas o abrigo é uma questão filosófica importante. Assim como a inocência. Fui ao dicionário e descobri que, de certa forma, essas duas coisas estão próximas.


§§§



Abrigo. S. m. 1. Lugar que abriga, abrigada, abrigadoiro, abrigadouro. 2. Local que oferece proteção contra os rigores do sol, da chuva, do mar ou do vento.


Abril. S. m. Cronol. 1. O quarto mês dos calendários juliano e gregoriano, com trinta dias. 2. Fig. Idade da inocência e da alegria.


No dicionário, logo após o abrigo vem abril. Verbetes que nos levam a um tempo e espaço...lugar outro. Fico pensando, seria abril um abrigo? Quando somos alegres e inocentes não estamos de todo modo abrigados?


Oferecer proteção não é o que fazemos diante da inocência? Quantos dias na vida senti-me abrigada? Trinta? Quanta chuva peguei, quanto mar afoguei, quanto vento soprei. No sol ardi, longe do abrigo, abriga, abrigada, abrigadoiro, abrigadouro.


No quarto, o abril. No quarto, o abrigo. Quantos dias passei no quarto, trancada, medrosa desejando o abrigo? Trinta? Quanta chuva fugi, quanto mar não entrei, quanto vento aparei. Do sol me escondi dentro do abrigo, abriga, abrigada, abrigadoiro, abrigadouro.


Há alegria de abrigo. Há alegria no fora do abrigo. Coração disparado, medo assustado, alegria no abrigo. Quando ar sufocado, espaço apertado, medo passado, alegria fora do abrigo.


Um abril em mim abriga-me. Alegria e inocência. Proteção. No quarto, quinto, sexto. Um cesto, um abrigo inocente, onde ficar-se abrigada, abrigadoiro, abrigadouro. Abriga-me?


Queria ter teu colo, queria ser um colo, um abrigo alegre fora e dentro. Com vento, com sol, com chuva, com os pés molhados no mar. Sem medo, coração disparado, inocente.


Abril, abrigo, abriga, abrigada. Quantos dias? Trinta?


Impresso e publicado originalmente em 11 de junho de 2011.




domingo, 10 de julho de 2011

Afeta-me

Aqui sobre a folha "um breve intervalo de espanto, dor e assombro, pois o que se passa quando não há palavras para dizer?" (Marcos Vinícius Leite).  Essa escrita potente de um colega de doutoramento afetou-me. Fez pensar nessa pulsão de escrita que me move. Que fazer quando a escrita não vem? Do que diz a escrita a não ser dela mesma? Musa egoísta. Não adianta mentir, são essas letras borradas em sangue sobre o papel jornal a minha erótica. Está aqui meu delírio, minha febre.
De que adianta mentir aqui sobre o papel? De que adianta enganar a ti, se é só por ti que vivo. Por ti, respiro sangue, ardo em febre, deliro.

De que adianta mentir aqui por sobre o papel? De que adianta enganar a ti, se é só por ti que respiro. Por ti, vivo em sangue, deliro em febre, ardo.

De que adianta? De nada, de nada. É por ti que estou aqui em delírio romântico, em ultrapassagem impossível. Ardo, sofro em febre, jorro sangue por ti. De que adianta? De nada? De nada?

De que adianta se não dizes?Se não consideras meu sangue  possível. Se não vês meu delírio, minha febre por ti? De que adianta escrever-te, ver-te, rascunhar-te? De quê? Ó musa da escrita impossível, anêmica e ingrata. De que adianta viver por ti? Viver essa vida escrita?

De que adianta se nada dizes? Musa ingrata, egoísta. Oculta, calada, afastada de mim. Exilada de mim. Ó escrita impossível, dizer maldito. 

De que adianta mentir para mim? De que adianta se não consigo viver sem ti? Ó escrita indizível, jorra teu sangue em mim, apodera-te de mim. Afeta-me.

De que adianta? De nada, de nada. Ó pedaço de mim, metade amputada de mim. Afeta-me inteira. Diz.

Diz do impossível, diz do silêncio, mas diz. Ó musa egoísta. Dá de ti a mim. Dá. Peço. Se  não todo, parte. Pois, do que adianta viver sem ti? Musa arrancada de mim. Apiedada de mim? Escreve.

Suplico-te. Vem tu, inteira, intensa, apodera-te. Afeta-me, faz jorrar meu sangue imenso.

De que adianta? Mentir? Escreve então em mim teu possível. Fragmento em delírio. Vem, traz a febre, o jorro. Faz esquecer-me de mim. Maldita, ingrata, impossível escrita. Leva os teus sinais. Leva o que há de ti. Deixa-me só.

A mim, resta a mortalha sobre o papel. Inerte, vazia. Silêncio posto, castigo. De que adianta pedir? Vem, afeta-me. De que adianta? De nada? Então, silencia-me. De que adianta? De nada? De nada sobre o papel.

Impresso e publicado originalmente em 4 de junho de 2011.



quarta-feira, 6 de julho de 2011

Escola fazida


Do Yahoo respostas:
Qual foi a primeira palavra inventada pelo ser humano?

Melhor resposta - Escolhida pelo autor da pergunta:
Deve ter sido ...
lápis - prá depois...
poder "escrever" ! ! !

Podia ter na escola uma coisa sem relato, quietinha. Sem palavra de fora, nem de dentro. Sem palavra mesmo, nem versinho. Podia ter na escola uma coisa só gesto, fazida. Uma coisa de tempo só dela, melhor ainda, sem tempo, vazia, um nadinha. Pensou?

Não sei se a professora ia gostar, já que na escola se gosta até de cartilhar o que errar. Mas podia ser um pouquinho assim lá na escola. A gente fazia uma coisa e depois nem falava dela. Seria uma coisa grátis. Uma coisa sem número, sem nota. Pensou?

A gente lá, assim, sem mais tributo. Fazendo à toa uma coisa qualquer, sem propósito. Deixado solto um pouquinho. Seria um fazer à toa na escola. 

Pode não. A diretora ia xingar. Para de fazer isso menino. Ela não gosta de ver ninguém à toa, sem fazer lição. Na escola tudo vira ocupação. Morro de pena. Tem uma coisa tão boa quando a gente desocupa. Uma  bondade sem nome. Bondade sem cara, rosto, difícil de dizer, mas tem. Podia ter na escola uma bondade assim. Pensou?

Não sei dizer, mas parece que bondade assim pensa. É que ela enche a cabeça da gente de uma coisa forte. Pra mim, já que é na cabeça, só pode ser pensamento também. 

Existe pensamento sem palavra? Não sei. Na escola tenho certeza que não. Mas se tivesse, eu ia gostar de ter um. Um pensamento que me deixasse assim, sem palavra, só fazido. Coisa outra. Pensamento pipa. Já empinou? Sabe aquela hora que a cabeça da gente vira pipa? Vazia de palavra, mas cheia de pipa? 

Quando eu tô fazendo uma coisa bem de perto, minha cabeça fica assim, sem palavra, fazida, vazia, mas cheia. 

Tem outra coisa na cabeça que não seja palavra? Deve ter. Quando eu fico olhando pro nada, cabeça de pipa, a professora pergunta: tá pensando que menino? Tenho de dizer se não ela fica brava. Mas na verdade não sei, invento.

É bom também. Não é mentira, sabe? É só uma maneira de fazer palavra. Eu sempre invento depois do nada. Acho que pra falar dessa coisa fazida só palavra inventada. Pena que na escola não tem.

Publicado originalmente em 28 de maio de 2011.

domingo, 3 de julho de 2011

A cardação


   Ao cardar, completa-se o destrinçamento das fibras e, posteriormente sua limpeza. Desfazendo-se nós e limpando ainda mais as fibras, ao retirar o restante das impurezas, a cardação permite que se forme uma fita ou pasta homogênea própria para ser fiada.
   O instante, no tempo cronológico dessa crônica se faz no momento mesmo da cardação, entre os gestos do limpar a lã e penteá-la com a carda, formando um pequeno floco, semelhante a uma nuvem, que desprendido da carda, aguarda o momento do tornar-se fio.
   Nietzsche não acredita em grandes acontecimentos ruidosos, mas na pluralidade silenciosa de sentidos de cada acontecimento.


Sentada na cadeira, fralda branca no colo, uma pá de  carda em cada mão, penteia e separa a lã em pequenos montes nuvados. Uma a uma, as pequenas núvens de lã vão se amontoando ao lado sobre outro tecido alvejado, prontas para serem torcidas, para girarem na roda viva do fuso.


escuta. Ela é mais que ouvir. O ouvido ativo promove o gesto. Gesto da mão, do braço, ações de superfície, visíveis, reguladas pelo invisível da escuta.Há uma escuta. Um ouvir a lã e a carda. A intensidade do gesto depende desse ouvir.  Ele regula a ação, ampliando o sentido do fazer. Há uma 


A fralda suja de ciscos. Pedaços de mato, carrapichos, espinhos, estrume. A fralda branca tingida de escuros, a lã compacta, se abrindo ao ar e à luz, ganha volume e leveza.


O corpo continua a gestuar, a ouvir, a regular a força da ação, sentidos abertos ao material, ao ruído da carda, à textura e densidade da lã.


A fibra bruta se solta da carda, voo leve de núvem até o  monte cardado. Há um silêncio. Uma calma na superfície do gesto. A continuidade desse gesto, sua repetição, invoca o silêncio. Ele regulariza a ação, ampliando o sentido do fazer repetido. Há um silêncio. Ele é mais do que não-barulho. 


A cardação continua. O monte de lã aumenta. Logo chegará o fio. Há uma voz. 

A voz do fio regula o gesto da carda.A voz inaudível e invisível. A voz imaterial, futural, amplia o sentido da núvem de lã. Há uma voz. Ela é mais do que fala.


No corpo, os gestos agenciados no fluxo da cardação, sentidos atentos e abertos ampliam o sentido do fazer. Há uma escuta. Há um silêncio. Há uma fala. Gestos na superfície invisível da fiação. 


Gestos que repetem no devir do fio. Fio futural. Fio não presente, feito da núvem de lã.  Feito no cisco do não-fio, no ruído da carda que move e penteia preenchendo de ar e luz a lã.



Publicado originalmente em 29 de abril de 2011.



sexta-feira, 29 de abril de 2011

Não falo


A coisa já virou notícia velha. Mesmo antes, quando ainda estava no cabeçalho e não no rodapé, eu não falava.

Não falo. Não me interessa falar da poça de sangue que não pisei. Minha vida não mudou. Se lágrimas houveram, foram superficiais e momentâneas. Não falo. Não quero falar do que não atravessa meu corpo, do que não me enluta a alma.

Uma notícia não tem cheiro. Não tem gosto. Uma notícia não é nada. Apenas ocupa. Transforma em curiosidade o ato mais vil.

Não falo. Não vou falar do que não me tirou o sono, não me fez perder o apetite. Não falo. Não vou fazer comentário, dar opinião, horrorizar-me na palavra apenas. Não. Não falo. O horror da palavra não é nada. Pior, melhor seria se fosse nada, mas é ato vil, é violência. 

Dar opinião, apontar culpados, sugerir ações de nada serviria para diminuir a dor de quem pisou no sangue coagulado do medo. Fazer comentário, posar de espanto, no conforto do meu telejornal é uma agressão a quem carregou corpos, a quem ouviu estampidos.

Não falo. Mas também não calo. Meu dito vil é para apontar a notícia velha na prensa da coleta seletiva.

Se falo é para colocar-me, mais uma vez como culpada, atiradora, incitadora. Se falo é para dar a cara a tapa. É para desejar o silício, o expurgo.

Mesmo assim, isso não é nada. Não tem gosto de sal de lágrima, não tem ar que falta, nem coração que para. Não tem nada, só letras.

Estou farta de opiniões e comentários. Preferia o sangue espirrado nos olhos. Preferia o choque vivo da pólvora ao assistir passivo da tela fria.

Não falo. Quero mesmo é gritar. Até quando mais vamos permitir que comentários e opiniões analisem o inalisável.  Digam o indizível. Explorem o inexplorável.

Não falo. Não grito. Lastimo-me. Sinto pena e dó de mim mesma: a calada. A impotente. A nada. Não falo, nem grito, nem nada. Preferiria mil vezes ter tido o sangue jorrando, ter sentido a dor, ter podido urrar ao invés de assistir e esquecer.

Impresso e publicado originalmente em 16 de abril de 2011.

sábado, 23 de abril de 2011

A águia e os cordeiros

"Que os cordeiros guardem rancor das grandes aves de rapina é algo que não se pode estranhar: só que não há nisso motivo algum para levar a mal que estas lhes arrebatemos cordeirinhos. E quando os cordeirinhos dizem entre si: 'essas aves de rapina são malvadas'; e quem é o menos possível uma ave de rapina, antes porém sua antítese, um cordeirinho, não deveria ser bom?; nada há aqui que objetar a esse modo de estabelecer um ideal, exceto que as aves de rapina olharão talvez para baixo com um pouco de zombaria e dirão talvez: 'não estamos zangadas, em absoluto, com esses bons cordeiros, inclusive os amamos: nada há de mais saboroso que um tenro cordeiro'". Nietzsche, em Genealogia da Moral, de 1887.

Estive pensando em escrever uma fábula, mas estou tão sem inspiração. Queria fazer uma fábula onde os personagens fossem uma águia e alguns cordeiros no campo.


Na fábula que ainda não escrevi, a águia estaria sobrevoando pastos e abismos, como em Nietzsche, e o rebanho de ovelhas balindo, reclamando, reagindo ao que a águia faz, certo de que ela é má e pode atacá-lo.


No entanto, para compor a fábula-crônica eu precisaria estar um pouco mais lúdica do que estou. Um certo lirismo infantil deveria tomar conta da escrita para que a fábula se tornasse o que ela é. A questão é que não sou muito chegada ao gênero, ele quase sempre implica um desfecho moralizante.


No entanto, ao planejar escrever sobre a águia, à la Nietzsche, uma personagem solitária, corajosa, com visão ampla e movimentos precisos; e sobre os cordeiros, grupais,  assustados, negativos, sempre à espera da ação do outro para reagir,  acabo correndo o risco de ser moralista e/ou prescritiva, coisa da qual estou querendo afastar-me cada vez mais.


O que eu queria mesmo abordar com essa fábula-crônica é a questão da negação e da afirmação. Por isso, recorrer ao filósofo do martelo, visto que ele nos apresenta, na figura da águia e do cordeiro, a atitude do forte e do fraco em relação à constituição do bem e do mal.


O forte, a águia, faz  o que quer fazer, o que considera bom,  ele simplesmente afirma o que faz. O fraco, no caso, o cordeiro, não age a partir de si, mas a partir da ação do outro, a águia. Ele reage à  atitude dela.


Em termos de valor, o bem, para o forte, é aquilo que ele faz. Já para o fraco, o bem é a negação da atitude do outro. Ou seja, o bem do cordeiro  surge a partir do ressentimento que nutre pela atitude afirmativa da águia.  Para dar um valor para si, ser representante do bem, o cordeiro precisa negar a atitude do outro,  caracterizando-a como má.


Muito do que se faz na escrita crítica é uma atitude reativa do tipo cordeirinho. Céus, quantas vezes não estou aqui negando o outro para afirmar minha própria bondade? Oxalá me livre disso logo. Não quero balir ou invés de escrever.


Combinemos assim, prezado leitor, toda vez que a cronista desavisada começar a reagir ao invés de agir, faça um aviãozinho dessa crônica e mande-a pelos ares. Quem sabe não aprendo logo a ser águia.




Impresso e publicado originalmente em 12 de fevereiro de 2011.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Viva em rede

Nossa existência em sociedade  depende cada vez mais da capacidade de estarmos conectados em uma rede. Existem inúmeras redes que resultam de uma rede intrincada de relações que podem ser de natureza biológica, social, política, econômica ou tecnológica. O exercício que temos que realizar é viver em rede sem querer conformá-la a  paradigmas de não-rede. Há quem queira retirar das relações em redes o caráter caótico, não hierárquico e fluido que as caracteriza. São pessoas que lutam por controlar a comunicação para que essa "dê certo", se esforçam em definir funções e regras para que as ações aconteçam "conforme o previsto". Aguardam um comando ou produzem um, forçando uma hierarquia ou unilateralidade na rede. Enfim, lidam no universo contemporâneo da rede como se estivessem numa grande fábrica do século dezenove e, com isso, promovem o ressecamento da vida em rede.
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A vida em rede é um desafio. E quando falo em desafio, não quero suavizar um problema, mas expô-lo. Desafio tanto como provocação quanto como estímulo. 


A rede é como um campo  repleto de capim, raízes em rizoma, mato crescendo por toda parte, efervescência.


Claro que tem gente que adora um randape. Joga mata-mato em tudo. Faz secar folhas e raízes. 


No entanto, se não tivermos medo do caos que se instala na época das águas e deixarmos o mato crescer em paz, como canta a música do Tom, a rede prolifera e consegue suportar os meses de estiagem. 


O velho Tom suplica para deixar o mato seco da estiagem crescer sem por fogo, deixar tatu-bola no lugar, a capivara atravessar, a anta cruzar o ribeirão e o índio vivo no sertão.


Ou seja, deixar que as manifestações se manifestem, que as conversas se atravessaem, que os encontros se deem, sem normas controladoras, sem regras muito rígidas, sem caminhos prestabelecidos, pois o prestabelecer engessa a vida e impede a rede de se tecer viva.


Uma rede implica em ações. Não há rede parada. Se parar, não é rede, é nada. Os nós da rede são encontros e bifurcações, por eles passam uns e outros não. Na rede não há necessidade de sincronicidade global. Não há necessidade de ação conjunta. Todos fazendo tudo ao mesmo tempo. Não, na rede o movimento de uns já basta para toda rede. 


Em um grupo em rede, alguns se destacam, outros assistem, outros se calam, outros só falam. Tem quem nem liga até um dia se sentir tocado e inspirado e aí participa entusiasmado.


Quando parte da rede se encontra em uma mesma ação, celebra. Todo encontro em rede é celebração. Todo movimento da rede é invenção. Nada é prévio, os caminhos da rede são trilhados ao caminhar.


Viva em rede. A experiência é assustadora, sem sentido a priori, sem garantia de objetivos alcançados. Redar: eis um verbo que vou querer inventar.


Impresso e publicado originalmente em 26 de fevereiro de 2011.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pequeno parágrafo


"...lê ao menos este livro para após destruí-lo, com vossa ação, e esquecê-lo". Isso que Nietzsche escreve, ser capaz de esquecer o que leu, tem a ver "com o tempo do metabolismo", como diz Larrosa, é uma linguagem fisiológica, é ter uma barriga jovial. Pensar o conhecimento para além de sua abordagem intelectual, embasada essencialmente na leitura, era minha intenção ao começar a escrever essa que seria uma crônica-bomba, que a exemplo dos homens-bomba terroristas se auto-detonasse e inspirasse o leitor a deixar o jornal e ir viver a vida viva.  Abaixo, Jackson Pollock,  estabelecendo a base, na arte, do que ficou conhecido como  corpo-ação. Seria possível fazer isso na educação?   



Começo citando:

Escrevi o começo da frase acima no início da semana, minha intenção era começar citando Espinosa quando diz que algumas coisas compõem conosco outras não.

Ia começar falando assim, pois queria, logo em seguida, com Nietzsche, por Larrosa, pensar um pouco sobre a questão da leitura. Minha vontade principal era alegar que alguns livros, aqueles que não aumentam nossa potência de viver, que não compõem conosco, que não nos dão alegria, não precisam ser lidos.

Também queria recorrer às reflexões de Certeau acerca da ideologia da "informação" pelo livro. Com isso, diria que não é porque algo está escrito que deve ser lido, muito menos que possa ser considerado relevante, revelador ou simplesmente informador.

Claro que abordando o tema assim, corre-se o risco, sendo-se escrita, de perder o querido leitor em meio mesmo a esse pequeno parágrafo. 

No entanto, queria arriscar, pois em última instância meu propósito era a desmistificação do saber embasado prioritariamente pela leitura de livros, como acontece na academia. Questiono a aplicação de metodologias, e queria ter podido dizê-lo aqui, que procuram ampliar a educação para além da sua tônica excessiva no intelecto, mas que, para fazê-lo, usam exclusivamente o intelecto, através de leitura e debate de livros. 

Se uma outra forma de educar é pretendida, incluindo principalmente o corpo e seus afetos, seria preciso que essa outra forma também fosse concebida por outras instâncias do conhecimento, como o fazer e o sentir.

Uma prática de produção de conhecimento que incluísse a sabedoria não-escrita, que acreditasse no que perpassa também os afetos, durante práticas não verbais, ao mesmo tempo em que nosso fazer está atuando. Conhecimento que viria não apenas da razão, do intelecto, mas do corpalma como um todo.

Queria ter escrito essa crônica terrorista, um texto-bomba que explodisse a si mesmo em favor de um corpo que sabe sem ler.


Impresso e publicado originalmente em 4 de dezembro de 2011.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Isso que escrevo


E se começássemos com Demócrito, o filósofo que ri? Ou Diógenes de Sínope. Depois podíamos seguir por Spinoza, Nietzsche.  Dar uma passadinha em Pascal, Montaigne e, se quisermos intensificar  quem sabe pinçar algo em Maquiavel, Rousseau?  Por fim, ou mesmo no começo, folhearemos os contemporâneos: Foucault, Deleuze, Certeau, Rosset. Muitos, oba. O que estamos querendo descobrir? Uma maneira de escrever, viver e dizer a vida viva, afirmá-la. Tentar escapar das armadilhas da linguagem e sua institucionalidade ressentida, comparativa, idealizada. Buscar uma escrita inventiva que nos potencialize ao ler, que seja um bom encontro, aumente nossa alegria. Abaixo, Sócrates no leito de morte (1787) de Jacques-Louis David.



Resolvi escrever, pois nesse momento esse exercício me ajuda a  pensar. Ainda não sei bem o que é, nem o que não é, nem se é  isso que escrevo, porém intuo algumas coisas. 


Isso que escrevo não é "minha opinião". Não é parte de minha "vivência interior". Também não chamaria de "sentimento", mas me afeta fortemente.


Isso que escrevo é estudado, pesquisado, afirmado em todas as suas perspectivas por muita gente. Esses estudos dizem respeito a uma forma de afirmar  a vida viva. 


Isso que escrevo fala de algo que inclui, sem ser  inclusão. Uma coisa que é múltipla, também única, também dupla.


Algumas questões perdem condição de dizibilidade diante disso que escrevo. Qualquer assunto que diga respeito a consertar a vida viva para que fique próxima a uma vida imaginada não consegue ser ancorado por isso que escrevo. 


Não que a vida viva não possa ou não deva ser melhorada, não é isso, não não. Mas essa melhoria, se vier, virá por uma 
afirmação da própria vida viva. Pois, para isso que escrevo, a vida deve ser afirmada em todos os seus aspectos. Todos. Sim sim.


Quando se consegue pensar da forma como pensa isso que escrevo não se olha o mundo para criticá-lo de fora, a partir de um gabarito exterior a ele.  Não há uma razão que julga o mundo a partir de um ideal de mundo perfeito. Não não.


Para isso que escrevo, só há implicações. E você, eu, tu, nós, os múltiplos que somos, para isso que escrevo, estão sempre implicados nisso que escrevo.


Ainda não sei falar sobre isso muito bem, mas vou aprender. Resolvi escrever para dizer isso que quero aprender a dizer isso que escrevo. Mas, mais do que isso, quero aprender a viver isso que escrevo. Sim sim.


Para o que escrevo a potência da vida não vem da crítica à vida, mas de sua afirmação incondicional. Mudanças? Podem ocorrer. Ética, sem dúvida. Conformismo com o que está aí? Jamais. Não é isso que escrevo. Não não.


A ética disso que escrevo não está no olhar de longe e apontá-lo, mas no viver perto - do que for -  e celebrá-lo, dançá-lo. Não há conformismo na dança. Há tão somente o dançar junto. 


É isso que me afeta. Ainda não sei escrever isso que escrevo, mas quero aprendê-lo.  Não para criar um mundo  perfeito, não há um mundo melhor fora desse que vivo. Quero aprender a escrevê-lo  porque é o meu respiro.   



Impresso e publicado originalmente em 27 de novembro de 2010.






quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Estranheza inquietante


Quero abismo, frio na barriga, incerteza.
Quero estranhezas inquietante.
Quero não saber.
Quero desprontar.
Quero desassossegar.
Sentar, na beira do penhasco sem cordas ou capacete.  Quero a possibilidade de cair.  
Risco.
 Arrisco.
Riso.
Sorriso.
Quero. 
Ou talvez não. 



Ter nascido acabou com a minha saúde. A matéria é invisível, o que vemos é a luz refletida sobre as coisas que nos rodeia. Sem luz, tudo fica invisível. As múmias são indigestas, em compensação os recém-nascidos não têm o mínimo teor alimentício.

Como poeta o poeta Manoel de Barros:  "As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: Elas desejam ser olhadas de azul - Que nem uma criança que você olha de ave".

Tenho pensado muito nisso de estranheza inquietante. Olhar as coisas de azul. Estranho? Inquietante? O que faço diariamente que promove em mim essa estranheza inquietante?

Quando Clarice Lispector escreve: "Ter nascido acabou com a minha saúde" promove um estranhamento. Nos faz pensar nisso que é vida, vida inquietante, que é cheia de incertezas, cheia de doenças, de acasos, de imprevistos. 

Quando o Dr. Sérgio Felipe fala, baseado em ciência, que a matéria é invisível, promove um deslocamento, uma estranheza em nossa maneira de pensar. Será? Mas se é assim... Somos impregnados por uma estranheza.

Quando ao folhear as páginas do Caderno H, lemos as provocações de Mário Quintana comparando múmias a recém-nascidos de forma quase canibalesca, sorrimos, mas, ao mesmo tempo, podemos perceber a afirmação da vida implícita na estranheza dessas palavras.

Verbos como estranhar, inquietar, desprontar e tantos outros que nos tiram do sofá morno do pensamento seguro talvez devessem ser conjugados mais vezes durante nosso dia.

Aproximar-nos da inquietude pode ser o que de mais intenso e alegre possamos fazer. Eu quero. Quero muito virar caminhante sem trilha, melhor ainda desbravadora sem bandeira. Quero olhar tudo em azul, quero olhar de ave. Existe  "desrazoabilizar"? Quero isso.

Impresso e publicado originalmente m 6 de novembro de 2010. 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A potência do bom encontro

Hoje, um senhor muito antigo chegou perto de mim e disse: Vou lhe dar um presente, acabo de lê-lo, "Eu vejo, eu ouço, eu faço, e fazendo aprendo". Peço licença para parodiá-lo: Eu vejo, eu ouço, eu faço, e fazendo vivo. Ao lado,  a arte-manual potencializadora de vida da família Dumont.


Acabo de chegar. Tá bom, eu sei, estou atrasada. São quase onze horas da noite de quinta-feira e agora é que começo a escrever a crônica da semana.

No entanto, justifico, foi daquelas semaninhas iradas como, não sei se ainda falam, os jovens. 

Teve: reunião de boas-vindas aos novos alunos  na universidade (sim sim, passei, prezado leitor, agora sou oficialmente doutoranda em Educação pela  Universidade Federal de Juiz de Fora, uma beleza). Documentação de matrícula. Empregada não veio.  Ministrando oficina para arte-educadores no belo e bagunçado e ativo Espaço Mascarenhas. Essas coisas confundem um pouco a pobre e cinquentenária cronista. Quando vi, já eram vinte e três horas de quinta e a crônica não havia acontecido.

Aqui estou, egressa de um bom encontro, ainda sentindo sua potência. Acredito fortemente que o que vale na vida viva são os bons encontros. Um bom encontro tem a capacidade de nos potencializar. De um bom encontro, saímos adrenados, como, acho, ainda dizem alguns jovens.

Vou descrever meu bom encontro, mesmo sabendo que descrevê-lo não é a mesma coisa que vivê-lo, mas dá para o querido leitor ter uma noção do porque estou usando "irado" e "adrenado", mesmo não sendo tão jovem ou chegada a umas gírias do tipo.

Hoje, conversando com os alunos enquanto ministrava a oficina, comentei que estava dividida, pois ao mesmo tempo em que nosso trabalho acontecia, um outro evento estava programado no Café Filosófico da cidade: Demóstenes Vargas, o bordadeiro do rio São Francisco, da família Dumont, estaria apresentando seu processo artístico.

Foi quando o primeiro aluno falou: então vamos. Outro perguntou: agora? Emendei:  costuramos lá. Em minutos pegamos nossas coisas, e desembarcamos com agulhas, linhas e panos no café do Espaço Mezcla em Juiz de Fora.

Uma festa começou. Enquanto se falava da importância das artes manuais, as fazíamos. A riqueza e a intensidade do encontro estava tecida. Quando os demais arte-educadores ficaram sabendo que havíamos saído do Centro Cultural para participar do Café Filosófico, resolveram se juntar a nós. Ao final, junto da arte-manual falada, pensada e "fazida" estavam a música e a performance teatral num imbricamento artístico potencializante.

Impresso e publicado originalmente em 20 de novembro de 2010.




sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Honrar crianças


             Organizado pelo músico e ativista dos direitos das crianças, Raffi Cavoukian,  o livro "Honrar a Criança: como transformar este mundo" reúne artigos de alguns dos principais pensadores internacionais nas áreas da psicologia, educação, economia, administração, liderança e religião.
             Raffi forneceu o tema chave para o livro, a partir da sua principal preocupação atual: a busca da resposta para a pergunta "como podemos transformar este mundo tão atormentado e trabalhar para a criação de um mundo adequado para as crianças?" Cavoukian, Raffi. Honrar a Criança: Como Transformar este Mundo. São Paulo: Instituto Alana,  2009.



Descobrimos que estas alegrias são autoevidentes: Que todas as crianças são criadas plenas, dotadas de inteligência inata, com dignidade e admiração, e são dignas de respeito.

A incorporação da vida, da liberdade e da felicidade, as crianças são bênçãos originais, estão aqui para aprender a própria canção. 

Todo menino e toda menina têm direito de amar, sonhar e pertencer a uma "aldeia" afetuosa. E buscar uma vida de propósitos.

Afirmamos nossa responsa-bilidade de nutrir e cultivar os jovens, honrar seus ternos ideais como o coração do ser humano. Reconhecer os primeiros anos como a base da vida e apreciar a contribuição das crianças para a evolução humana.

Nós nos comprometemos a modos pacíficos e juramos proteger do mal e da negligência esses cidadãos mais vulneráveis. Como guardiões de sua prosperidade, honramos a abundante Terra cuja diversidade nos sustenta.

Assim prometemos nosso amor às gerações futuras.

Essa é uma declaração para honrar a criança. Está na página trinta e um do livro de Raffi Cavoukian, Honrar a Criança, editado no Brasil pela Instituto Alana, do qual, como comentei aqui na semana passada, sou ativista.



O livro que tem como subtítulo: "Como transformar esse mundo" é um importante apoio para aqueles que acreditam que somente com o tratamento humano adequado às crianças poderemos conquistar uma sociedade mais saudável e sustentável.

Na apresentação, Dalai Lama afirma: "Ao cuidar bem delas [as crianças], proporcionar-lhes uma educação sólida e incutir nelas valores positivos, estamos garantindo um futuro mais harmonioso, pacífico e produtivo para todos nós".

Honrar as crianças "Significa vê-las como as pessoas criativamente inteligentes que são, respeitar sua individua-lidade, reconhecê-las como membros essenciais da comunidade e oferecer a formação fundamental de que precisam para florescer". Simples. Vamos fazer?





domingo, 3 de outubro de 2010

A Ativista

À parte outras marcas possíveis, o que uma criança nessa fase [até três anos de idade]  vê fazerem diante dela, ouve fazerem perto dela e, sobretudo, sente fazerem a ela, tudo isso permanece inscrito em sua estrutura não como uma informação qualquer, e sim como modelo ou receita de como se deve agir em situações semelhantes [...]. É evidente, portanto, que os atos nocivos cometidos por um pai ou mãe no trato com seus filhos, sobretudo os de até cerca de três anos de idade, têm alta probabilidade de serem repetidos por esses filhos quando adultos, no trato com seus próprios filhos - e igualmente evidente que isso tende a se repetir em não só uma nova geração, e sim ao longo de muitas gerações, tornando-se forma-padrão de agir de vastas redes familiares, quiçá de todo um povo. ["Aos que podem salvar o mundo", Ralf  Rickli, 2009].  Para saber mais:   www.tropis.org/biblioteca/aosquepodemsalvaromundo.pdf



Acabo de me tornar uma ativista. Esse negócio de ativista lembra um pouco os anos sessenta, a guerra do Vietnã e também o Green Peace. No entanto, mesmo pouco difundido, hoje em dia há ativismo em diversos setores. Eu, por exemplo, me tornei uma ativista social pela infância saudável. Já venho trabalhando pela infância há dezenove anos e isso não é pouco, porém achei que faltava uma atuação mais direta no campo do ativismo de ideias.

O ativismo de ideias é um pouco mais do que faço aqui [jornal impresso] e na internet todas as semanas, escrevendo sobre coisas que considero, vez ou outra, possam inspirar alguém a modificar paradigmas. O ativismo tem ações mais diretas, com foco e objetivo claros, defende a divulgação de ideais que possibilitem - de fato - transformar algum aspecto da vida em sociedade. Tem a pretensão não só de inspirar, mas de ajudar a mobilizar pessoas em torno de questões que necessitam ser transformadas para que nosso mundo possa ser resgatado da situação de emergência na qual se encontra. 

O ativismo pela infância tem várias frentes de trabalho: violência contra a criança, transtornos alimentares e obesidade infantil, abuso sexual, a importância do brincar, alcoolismo infantil, consumo e publicidade para a criança e muitos outros.

Escolhi reforçar um tema que tem me inquietado bastante: os efeitos estruturantes das experiências vividas pelas crianças nos três primeiros anos de vida, incluindo aí a gestação.

Essa fase importantíssima da vida da criança é conhecida também como o período da amnésia infantil. Desses anos iniciais de nossa vida terrena trazemos pouca ou quase nenhuma lembrança. No entanto, segundo o professor e pesquisador Ralf Rickli, o ser humano adulto deve enorme parte de seu modo usual de ser e agir à forma como foi estruturado pelas experiências vivenciadas nessa época.

Conscientizar um número cada vez maior de pessoas da urgente necessidade de transformar nossas ações em relação à criança pequenina é meu foco de ativismo. Só assim, poderemos cogitar mudanças na forma-padrão de toda uma sociedade, alterando, desde já, as estruturas profundas das gerações futuras.

Impresso e publicado em  7 de agosto de 2010.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Os vestidos de Maria Amália

Longe de querer um enfoque nostálgico, essa crônica pretende uma reflexão sobre o tempo feminino engendrado pelas artes-manuais. O que se sente, pensa, lembra e se movimenta enquanto sentamos calmamente para tecer artes feitas pelas mãos? Atividade promotora de um tempo feminino de origem remota, ancorado no movimento sutil do corpo que parece ser o mesmo tempo do aninhar, do zelar, do aquecer o outro, o mundo e a si mesmo. Tempo outro, diferente daquele que move as demandas sociais modernas.  Tempo elástico,  suspenso entre o coração e o ventre. Tempo movido por mãos que sabem sem saber, que fazem fazendo pela sabedoria do corpo. Tempo feminino que afirma e constitui. 



Tomando café da manhã em um hotel do Triângulo Mineiro, escutei um depoimento interessante de uma educadora. Na época dos preparativos para o casamento de minha filha, disse ela, resolvemos fazer uma lembrancinha diferente para as madrinhas e convidadas mais íntimas, como avós e tias: um pequeno vestido de noiva, costurado e bordado à mão.

A mãe zelosa se emocionou ao partilhar o que sentiu durante os meses que antecederam ao casamento da filha única enquanto costurava, noite após noite, os pequenos vestidos de renda, seda, pedrarias e brocados. Para ela, mais do que a festa, mais do que a sensação de  "passarinho deixando o ninho", mais do que todas as outras emoções que  a atravessavam nessa época, o costurar dos pequenos vestidinhos possibilitou uma vivência muito forte e profunda em relação às sensações que o casamento da filha promovia.

Fiquei pensando nesse poder das manualidades. As mulheres, desde o começo do mundo, se dedicam de algum modo às artes-manuais. Até o pós-guerra, quando a industrialização terminou de tirá-las de casa, afastando-as ainda mais das lidas domésticas, dos filhos,  das agulhas e linhas, todas as mulheres tinham íntima relação com atividades feitas com suas próprias mãos envolvendo panos, fios e lãs.

Sentar-se serenamente para costurar é uma atitude que permite a reflexão, cria um tempo sem tempo, um espaço de sutil meditação. As mãos hábeis executam a tarefa e o pensamento viaja, se organiza, lembra, elabora.

Enquanto no colo, o trabalho descansa, os olhos se perdem no horizonte da mente em total suspensão. Instante parado no tempo oculto da vida. Vida suspensa no tempo do corpo. A retomada da costura parece trazer de volta o equilíbrio do mundo. As ideias se organizando ponto a ponto promovem força e ampliam a capacidade feminina de lidar com os fatos do cotidiano de forma serena.

Costurar, bordar, fiar, tecer, até mesmo cozinhar são atividades culturalmente vinculadas às mulheres desde o início dos tempos e que hoje estão cada vez mais distantes de nós. No lugar desses afazeres, outros que passam longe dos colos, passam rápido por mãos ansiosas e deixam pouco o que pegar e admirar. 

Impresso e publicado originalmente em 21 de agosto de 2010.



domingo, 18 de julho de 2010

Lacunas

Muitas vezes, nossos relacionamentos, nosso trabalho, nossas escolhas de vida são como um papel quadriculado, onde apenas alguns quadrados são preenchidos e outros permanecem em branco. Essas lacunas podem ser propulsoras de mudanças. Os quadriculados preenchidos dão a sensação de que está tudo bem, mas o que ainda falta ser preenchido nos impulsiona. A questão é saber qual o peso as lacunas têm em nossa história e o quanto elas são suficientemente fortes para nos mover de nossa zona de conforto preenchida e estável.
Participei de um trabalho biográfico recentemente. Já falei algumas vezes sobre Biografia Humana aqui na coluna.  O objetivo da Biografia é promover um contado panorâmico com nossa própria história de vida, colocando em perspectiva fatos e questões para que possamos, olhando um pouco mais de longe, reconhecer os sutis fios que nos conduzem pelo caminho.


Hoje quero comentar uma pequena experiência que tive recentemente em Nova Friburgo, através do trabalho do médico homeopata e terapeuta biográfico, Marcelo Guerra, durante o V Encontro de Artes Waldorf.


A vivência, chamada de Observação e sentido, usava a arte para sensibilizar o participante e deslocar sua maneira costumeira de ver a si e ao mundo.


Em dado momento, o terapeuta pediu para que cada um de nós desenhasse uma cena de nossa vida que fosse significativa para estar ali naquele momento. O trabalho era realizado em grupos de três pessoas que depois deveriam partilhar seus desenhos e suas experiências.


No grupo em que eu estava, um desenho me chamou particularmente a atenção. Nele, seu autor desenhou um plano quadriculado à direita, uma gravata ao centro e a esquerda  estava preenchida com raios de sol e flores. Do lado direito, uma fisionomia triste, do lado esquerdo, uma alegre. Ao explicar o desenho para o resto do grupo, o jovem falou que era um executivo em Nova York, estava muito bem financeira e profissionalmente, mas que a vida dele era cheia de lacunas. Quando começou a perceber o  peso que essas lacunas não preenchidas tinham em sua  vida, resolveu largar a gravata, mudar de emprego e com isso acabou se sentindo mais inteiro, apesar de ter uma vida muito simples e com poucos recursos financeiros.


Desde então, tenho pensado no peso das minhas próprias lacunas. A vida que levo não é ruim, tenho muitos quadradinhos preenchidos, mas existem também lacunas. Seriam essas lacunas suficientemente fortes para promover mudanças tão qualitativas e intensivas como as de meu colega de exercício? Seria eu corajosa o bastante para olhar para essas lacunas e reconhecê-las como fator de transformação?


Impresso e publicado originalmente em 17 de julho de 2010.

domingo, 11 de julho de 2010

Cidades em Transição

A cidade de Três Pontas, Sul de Minas Gerais, completou 153 anos nesse último dia 3 de julho. A escritora deu seu presente através da crônica: "Meu presente para a cidade".

O movimento Transition Towns defende uma mudança sustentável nas cidades, baseada no fortalecimento das ações locais. Para saber como aderir, acesse:
 http://transitionbrasil.ning.com .  Se quiser começar o trabalho estou a disponsição.


Já imaginou a cidade de Três Pontas virando notícia positiva no mundo todo? Já imaginou a cidade de Três Pontas sendo considerada um modelo de sustentabilidade e resiliência? Já imaginou a cidade de Três Pontas recebendo caravanas de várias partes do Brasil e do mundo em busca de aprender com o exemplo dos trespontanos a transformarem suas cidades em ambientes saudáveis para o nosso planeta?  Já imaginou? Se você quer para de imaginar e fazer disso uma realidade, minha sugestão-presente é: reúna os parentes e amigos e forme um grupo de ação para a transição.


Presentes a gente não escolhe, recebe. Claro que, depois de receber, é possível fazer qualquer coisa com ele: guardar no fundo do armário, doar para os desabrigados, mas também é possível gostar, e gostar muito.


O que mais vale no presente é a intenção de quem presenteia, a lembrança, o carinho, o cuidado amoroso com o presenteado. Tem presente que dá tão certo que vira amuleto, vira a "camiseta da sorte", o "batom do sucesso". 


Tem presente que é tão estimado  que nunca desaparece. Os anos se passam e você, sempre que vê o bibelô na estante, lembra: foi presente. Ou então, na limpeza anual do guarda-roupa, vê a blusa surrada e pensa: ainda dá para usar em casa, foi presente.


Presentearei a cidade aniversariante consciente de todas essas variáveis, ciente de todos os riscos, sim, porque presentear é sempre um risco, um atrevimento, uma exposição. Denuncia, no mínimo, nosso próprio  gosto, no máximo, o que você pensa do presenteado. 


Meu presente vem em forma de informação, como não poderia deixar de ser já que vem embrulhado e impresso nas páginas de um jornal. Uma informação que pode ir para o fundo do armário, pode ir para o caminhão de doações, mas que, espero de coração, vire a camiseta favorita por muitas e muitas gerações.


A informação presenteada chama-se: Transition Towns. Calma, antes de se decepcionar, deixa eu traduzir e explicar. Cidades em  Transição é um movimento internacional que no Brasil já tem diversas adesões. É uma metodologia que ajuda a transformar as cidades em ambientes sustentáveis, independentes de crises externas, mobilizando seus cidadãos a encontrarem soluções para diversos níveis de questões comuns.


O conceito é bastante flexível e simples, mas é preciso vontade e dedicação.A comunidade envolvida, que pode ser uma rua, um bairro ou a cidade inteira, se organiza em torno de passos iniciais sugeridos pela metodologia e adaptados à realidade de cada grupo. Os passos funcionam como  guias que ajudam a rever  modelos de energia, economia, alimentação e habitação . 


A metodologia do Transition Towns é facilitadora da vida de qualidade. Pode transformar a cidade que a adota em um lugar melhor para se viver e uma escola viva, um exemplo a ser aprendido e seguido. 


A sugestão adotar Cidades em Transição é o meu presente para a Três Pontas. Oxalá, alguns cidadãos se inspirem e comecem a se mobilizar para fazer da cidade um modelo de resiliência.

Impresso e publicado originalmente em 3 de julho de 2010.

sábado, 12 de junho de 2010

O espetáculo

"Um palhaço e uma criança se encontram .O cenário que os envolve é pintado de branco e azul. Nele há aparelhos computadorizados e luzes que piscam, ligadas a um incontável número de fios que dão ritmo ao andar das pessoas que ali trabalham. O espaço da cama da criança delimita esse encontro. Envolta pelos lençóis arrumados dentro das grades que a protegem, a criança tem um desafio: viver. Ele está sendo cumprido no ritmo dos aparelhos, na velocidade dos homens e dentro do mistério da vida que habita seu pequeno corpo. O palhaço acredita na força dessa união. Acredita que brincar é a melhor forma de encontro e que este não tem tempo definido para acontecer: depende da intensidade dos olhares e da permissão para o jogo. E aqui o jogo já começou e nele é difícil dizer quem brinca com quem. É tão intenso que brincar, nesse cenário, é sinônimo de viver". Trecho de descrição de um espetáculo dos Doutores da Alegria. 







Respeitável público...Vai vai vai começar a brincadeira...Tem charanga tocando a noite inteira...Vem vem vem ver o circo de verdade... Tem tem tem brincadeira e qualidade.

Impressionante como o circo é uma coisa distante de mim. Meu pai sempre adorou, eu nunca gostei, mesmo quando criança e ia a todos os grandes e pequenos espetáculos que o papai descobria.

No entanto, nesse último final de semana me surpreendi. Ri tanto com uma apresentação de palhaços que chorei de cair lágrimas aos roldões. Tenho certeza que, sempre muito blasé e intelectual, nunca havia rido tanto assim. Foi uma delícia que me levou a comentar o fato aqui.








Palhaços da Trupe Família Clou, de 
Nova Friburgo, RJ.  
Jovens professores 
que se dedicam à arte de fazer rir.



Pesquisei um pouquinho e descobri que o circo está em alta. Não aquele circo cheio de animais do tempo em que eu era criança, mas um circo jovem, com artistas  e palhaços letrados, vindos das mais diversas áreas de formação. Gente que pinta o rosto com alegria depois de dar aulas, de atender em consultórios, de trabalhar no 
mercado financeiro. Ser palhaço virou estilo de vida, mais do que profissão. 

Essa minha redescoberta dos palhaços começou de forma bem discreta ao receber a notícia de que meu professor de escultura, que havia voltado para a Alemanha, seu país de origem, tinha se tornado um palhaço.


Ele estava trabalhando com idosos em uma clínica, mas não tinha muito sucesso. Um dia, ele tropeçou e caiu de forma engraçada no chão. Foi então que muitos dos velhinhos começaram a rir. Tinha sido a primeira vez que eles haviam se mobilizado diante das atividades que ele como professor de artes propunha.



A partir daí, ele começou a exagerar alguns gestos, a deixar cair algumas coisas, a bancar o atrapalhado. Deu certo. A tal ponto de despertar nele a vontade de cursar uma escola de palhaços. Hoje, ele é um palhaço e faz seu trabalho artístico mobilizar crianças, adultos e idosos em várias partes da Alemanha.



Nunca tinha pensado na arte circense, especialmente no fazer do palhaço, com mais profundidade até quase cair da cadeira de tanto rir nesse último sábado. Eu sabia que a mobilização da risada era uma coisa incrivelmente forte e terapêutica, que faz bem à corpalma que somos, mas agora eu não apenas sei, eu sinto. 



Impresso e publicado originalmente em 12 de junho de 2010.