quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Receita de bolo


Bolo de chocolate
pedagógico-artístico-terapêutico
ingredientes:

3 ovos
3 colheres de sopa de manteiga
1 xícara de açucar cristal
3 colheres de sopa de açúcar mascavo
1 1/2 xícara de leite
3 colheres de sopa de maisena
1 1/2 xícaras de farinha branca
1/2 xícará de farinha integral
1 xícara de chocolate dos padres
3 colheres de sopa de linhaça
3 colheres de sopa de gergelim
1 colher de sopa de fermento

Modo de preparo:

Chame as crianças.
Distribua as tarefas - todas - até as mais complexas.
Não se preocupe com a sujeira, nem com a exatidão das medidas.
Incentive a improvisação, a experimentação, a lambida.
Deixe que os ingredientes sejam sentidos não apenas pelo paladar e olfato, mas pelo tato.
Faça tudo com seriedade, mas permita a diversão.


O leitor pode estranhar o título dessa crônica, mas o fato é que sou prendada. Isso mesmo. Lembra do termo: prendada.

Sei fazer bolos, tortas, quitandas naturebas em geral. Natureba? Sabe o que é? Comida integral, saudável, essas coisas.

A questão é que escrevo essa coluna para me redimir de um esquecimento. Uma pessoa me pediu a receita do bolo de chocolate que faço com meu filho pequeno, mas não tem jeito de eu lembrar de passar para o papel.

O bolo é simples, o feitio é que faz a diferença. Primeiro são as medidas que, digamos, são "intuitivas". O responsável pela intuição é um molequinho de três anos. Eu peço: três colheres de maisena. Porém, as três colheres dele são bem flexíveis, se é que me entendem.

As boleiras de plantão, com suas receitas milimétricas pesadas devem estar horrorizadas com essa culinária pouco ortodoxa, mas o fato é que dá certo. Dá certo do ponto de vista culinário e do pedagógico.

Criar oportunidade para que as crianças façam coisas verdadeiras, não só de "brincadeirinha" é essencial para o desenvolvimento da vontade.

As crianças, apesar de sua incrível capacidade de imaginação, são bem pragmáticas. Precisam estar sempre cercadas de ações - visivelmente - significativas, concretas.

A criança, especialmente a do primeiro setênio, vive na ação. Seu mundo interior é um espelho daquilo que a cerca. Os gestos que estão ao redor da criança, plasmarão seus órgãos e definirão sua percepção.

Além disso, atitudes significativas, coerentes, como consertar coisas, fazer bolo, arrumar o jardim, são a base do organismo moral da criança.

Nas escolas Waldorf, as salas de maternal e jardim de infância são como lares. Nelas, a professora é a mãe que faz com as crianças atividades simples, domésticas, como cozinhar e limpar.

Crianças que vivem servidas por babás, impedidas de "trabalhar" de verdade, de se sujarem e mexerem nos objetos da casa crescem com um vazio existencial que precisará ser preenchido de qualquer forma, muitas vezes, infelizmente, de forma negativa.

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