domingo, 5 de outubro de 2008

A criança terceirizada


O médico pediatra e professor, José Martins Filho, é autor de "A criança terceirizada: os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo". Recebi a síntese de seu livro pelo e-mail e não gostei do tom. Tinha um quê de acusatório. Em certo momento, o autor questionava: "Será que todos os seres humanos precisam ser pais?" ou afirmava: "Sejamos sinceros, nem todo mundo está disposto a arcar com esse ônus. Talvez seja melhor adiar um projeto de maternidade, e mesmo abrir mão dessa possibilidade, do que ter um filho ao qual não se pode dar atenção, carinho e, principalmente, presença constante". Entendo e concordo com a preocupação do professor, mas discordo da abordagem do tema. O interessado e competente diretor da Escola João de Abreu Salgado, Prof. Camilo Tavares, também tocou no assunto da criança e do jovem da atualidade, mas em tom bem mais conciliatório. Acredito que o caminho é por aí. Se levarmos em consideração o surgimento recente da infância, veremos que estamos gatinhando, mas já aprendemos bastante. Tenho fé de que logo logo estaremos sabendo lidar com nossos pimpolhos e jovens tão bem quanto desejamos.


Li o bom artigo do Prof. Camilo na edição passada do nosso Correio. No mesmo dia, se não me falha a memória, recebi, pelo correio eletrônico, um texto de uma colega de Belo Horizonte, intitulado "A criança terceirizada: os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo", de autoria do médico pediatra e professor, José Martins Filho. Fico pensando que o momento pede que falemos sobre as questões atuais da infância.

Todos os dias, os noticiários trazem casos de crianças que sofreram perturbações. Não quero e nem vou relatar aqui qualquer um deles, todos estamos suficientemente saturados e horrorizados. Além desses casos policiais envolvendo crianças, os noticiários trazem também, em especial nessa época de férias escolares, diversas dicas de "o que fazer com seus filhos".

Juntando todas essas abordagens de assuntos relacionados às crianças, o que podemos inferir? Vejamos: de um lado, educadores e médicos preocupados, do outro, pais, parentes e cuidadores que extrapolaram de forma vil a relação com a criança e, ainda, famílias consideradas normais que não sabem o que fazer com seus rebentos quando não estão em mão de terceiros.

A infância é algo novo, muito novo, talvez por isso tenhamos tanto despreparo para lidar com ela. Foi apenas depois da era moderna que surgiu nossa concepção de infância como um período de desenvolvimento intenso do ser humano que requer atenção especial.

Até a idade média, a infância não existia. Não se levava em consideração as diferenças entre crianças e adultos. Nessa época, a mortalidade infantil era muito alta, as crianças só eram consideradas gente quando vingavam e começavam a realizar tarefas de adultos. Por volta do século XVII e XVIII, grande parte das crianças era educada fora da família e da sociedade em escolas de regime integral, que tinham por objetivo corrigir crianças “gulosas, preguiçosas, indóceis, desobedientes, briguentas, faladoras...” como consta em um registro da época.

Como podemos perceber, o assunto é complexo e pertinente. As raízes do abandono e da terceirização da criança parecem vir de muito tempo. Porém, cada vez mais pessoas estão atentas, buscando a melhoria na qualidade de vida dos pequenos e a conscientização necessária para que isso se dê o mais brevemente possível.


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