domingo, 16 de novembro de 2008

Todo mundo sabe que Débora sabe


Mitos, crenças, valores, preconceitos e, principalmente, violência doméstica, prestam-se, muitas vezes, para a formação de segredos familiares que podem ser transmitidos através de gerações. Muita ansiedade e culpa decorrem da manutenção desses segredos que parecem prejudicar seriamente o emocional do indivíduo. Na maioria dos casos, o que não é dito tornar-se muito mais grave do que o é na realidade. Se o depositário do segredo é uma criança, pode ocasionar desvio no comportamento que, em muitos casos, levam ao consumo precoce de drogas e álcool, como forma de aliviar o peso de carregar o segredo.


Débora sabia um segredo. Um segredo terrível. Acordava à noite, toda molhada de suor, o coração aos saltos, os olhos estatelados na escuridão do quarto. Ela sabia. E todo mundo sabia que ela sabia.

Porém, mulher direita que era, não podia contar. Vivia com isso, desde que tinha nove anos e fora depositária do segredo para que o guardasse.

Agora, passados muitos anos, não suportava mais. A cada dia, a cada hora, até mesmo nos poucos segundos entre uma respiração e outra, não podia mais agüentar.

Como fazer? Com viver com um peso desses? Não sabia. Sequer imaginava. Só sabia que sabia e que todos sabiam que ela sabia.

Pensava, no escuro, olho aberto, cabeça coberta com o cobertor, mesmo no calor abafado da noite: eu sei, eu sei e todo mundo sabe que eu sei.

Pela manhã, os afazeres domésticos lhe permitiam esquecer um pouco. Enquanto batia os tapetes, lavava as verduras, areava as panelas, não pensava naquilo, mas bastava uma pequena pausa e o olhar ia parar no horizonte, mirando qualquer coisa bem depois do infinito.

Ficava assim uns instantes, suspensa, em um lapso de tempo reconfortante, até que, de súbito, voltava-lhe a lembrança e o temor tomava conta dela. Ela sabia. Só ela. Todos sabiam disso.
Enquanto passava roupa, escutando rádio, traçava planos e criava estratégias para se livrar daquilo.

Imaginava-se em um palco escuro, um único holofote fixado nela, microfone em punho, coração aos saltos como nas noites insones. Lá, contava tudo para todos. Mostrava que sabia, que sempre soube, mas que, a partir daquele momento, não carregaria mais esse peso sozinha.

Ela não seria mais a portadora de um segredo. Todos saberiam, como ela. Todos a veriam e a escutariam contar. Todo mundo saberia, como ela. E o segredo não mais existiria.

As pilhas de roupa iam crescendo, o rádio cantava sozinho, dava a hora, falava do tempo, mas, para Débora, o tempo era o imaginado. Era o tempo da futura revelação.

Quase sempre nessa hora, a porta se abria e as crianças entravam alvoroçadas. Deixava a roupa e ia preparar o café.

Mais um dia, mais uma noite, previsão de sol e calor, mas não para ela, que sabe e não pode contar e que todo mundo sabe que ela sabe.

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