quarta-feira, 11 de março de 2009

Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto


As férias do meu antigamente eram longas, muito longas. Dava tempo de não fazer nada por muito tempo. Hoje, as férias são apenas escolares, e para os alunos, professores continuam estudando, planejando, preparando. As atividades, compromissos e preocupações seguem firmes pelos míseros quarenta dias, que vão da semana do Natal até o final de janeiro. É uma pena. Resta-nos a nostalgia de tempos longos e idos.


...que eu tô voltando.

Férias. Sempre curtas. Curtíssimas. A volta muito antes do que poderia.

Férias. Quando eu era criança, há bem tempo, as férias duravam tanto. Íamos para a praia no começo de dezembro e só voltávamos na última semana de fevereiro.

No litoral, passávamos o Natal, o Ano Novo, Dia de Reis, Carnaval. Era um tempo de tardes esticadas, brisa boa, tempestades violentas.

Vez ou outra, uma onda matreira invadia a praia e chegava quase até às casas.

No Rio Grande do Sul, onde se come diariamente o feijão preto, como aqui em Minas e em São Paulo se consome o mulatinho, carioquinha ou vermelho, dependendo do nome que se dê à encorpada e macia leguminosa cotidiana.

Pois então, lá no Rio Grande do Sul, onde vivi a minha infância, o litoral é plano, uma linha reta, sem os recortes que formam enseadas. A reta litorânea vai do norte do estado, em Torres até o extremo sul, no Chuí.

Acho que isso ajudava na composição do tempo. Um tempo plano, contínuo, que parecia infinito. Um tempo de sol, de aventuras mirins, de banhos de chuva no fim das tardes, de arco-íris luminosos e cercados de fantasia.

Água da bomba com gosto de ferrugem, panela no fogo com pedra em cima da tampa, que tá fazendo vó? sopa de pedra, acreditávamos. Sapos coaxando, dunas imensas a serem exploradas, histórias de mistério contadas debaixo das estrelas, o roba-monte jogado à luz do lampiãozinho de querosene.

Férias. Tão diferentes das de hoje em dia. As férias de agora transformam qualquer um em nostálgico, dá saudades de tempos idos, da cabeça vazia, do corpo saudável. Saudade de um tempo - realmente - vivido.

Dá vontade de dizer, como na música Tô voltando, de Chico Buarque, que serve de título e mote para essa primeira crônica do ano: "Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar, telefone não deixa nem tocar"...

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