quarta-feira, 11 de março de 2009

A resiliente


Há uns 20 anos, conheci uma senhora idosa que era focalizadora de um centro de vivências, em Nazaré Paulista, São Paulo, onde as pessoas podiam ir para, em contato consigo mesmas, aprofundar sua experiência e seu conhecimento interior. A senhora era a escritora americana, Sarah Marriot (foto), na época com quase 90 anos. Além de seu jeito sereno e olhar brilhante, uma outra coisa me chamou atenção ao conhecê-la: as rugas. Elas eram em forma de sorriso. Desde então, tenho me perguntado quantos sorrisos foram precisos para que a pele ficasse marcada com aquela expressão.

Sabe o que eu gostaria que escrevessem no meu epitáfio? "Aqui jaz a resiliente". Etimologicamente, o termo epitáfio originou-se do grego antigo (epitáphion), no latim, epitaphiu ("sobre a tumba"). Como tradição discursiva, é uma inscrição sobre lápides tumulares que apresenta enaltecimento, elogio breve a um morto. "A resiliente" seria meu maior elogio pos mortem.

Já falei de resiliência aqui na coluna. É aquela propriedade da engenharia que permite que os corpos mantenham suas propriedades mesmo após serem submetidos a grande estresse. A expressão migrou da área de exatas para humanas por derivação e constituiu um sentido figurado para designar a capacidade que algumas pessoas têm de transformar adversidades em oportunidade de crescimento. Pessoas que saem fortalecidas após os golpes que a vida dá.

Além do epitáfio, na lápide, um pouco acima da inscrição, colocariam minha foto, tirada quando tinha oitenta e três anos. No rosto, a disposição das rugas chama atenção. Elas são o registro de um sorriso permanente. Rugas de quem passou boa parte da vida sorrindo.

Nesse futuro imaginado, eu seria assim: resiliente e sorridente. Sorriria tanto que minha pele ficaria eternamente marcada pela expressão de sorriso. Eu teria rugas sorridentes.

Há muitos anos, conheci uma senhora assim, a escritora americana Sarah Marriot. Por muitos anos, ela foi focalizadora do Centro de Vivências Nazaré, hoje, Universidade da Luz.

Sarah era uma mulher especial. Seu trabalho consistia em escutar pessoas e partilhar com elas pequenas lições do cotidiano que, muitas vezes, proporcionava ao interlocutor o surgimento de insights, reflexões e esclarecimentos.

Desde então, diante das rugas de Sarah, tenho pensado: gostaria de ter rugas assim, marcas evidentes de uma vida de paz interior.

Estou com quase cinquenta, ainda tenho alguns anos pela frente para conquistar rugas de alegria e um título de resiliente.

E assim, daqui uns quarenta anos, alguém, na lápide à sombra de um jacarandá-de-jardim, lerá: "A resiliente", e verá a foto de uma senhora com rugas sorridentes e poderá pensar: "também quero ser assim".




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