segunda-feira, 6 de julho de 2009

Letras não voam


Em seu livro "Kingdom of Childhood", Rudolf Steiner diz "Devemos evitar uma aproximação direta às letras convencionais do alfabeto que são utilizadas na escrita e na imprensa do homem civilizado. Antes, devemos guiar a criança de uma forma vívida e imaginativa através dos vários estágios que o próprio Ser Humano percorreu na história da humanidade". Dá alegria aprender as letras do alfabeto através de contos e através da aquarela e do desenho que acompanham cada letra. O professor pode desenhar a figura de uma montanha em uma posição que lembre letra "M". Este processo tem sua base no passado da humanidade, na escrita pictórica usada pelo homem antigo, e empresta qualidades vivas e reais a nossos modernos símbolos - qualidades que a criança consegue compreender.

Acima, caderno de uma criança do terceiro ano da Escola Waldorf: sem pautas, escrito com lapis de cor e ricamente ilustrado.

Estava na padaria. Estava na padaria com meu filho de quatro anos. Estava na padaria com meu filho de quatro anos e comprava pão. Assinei a nota. Uma assinatura "de nota". Aquelas que a gente faz até mesmo sem olhar. O pequeno falou, repreensivo: "letras não voam!".

Fiquei tensa. O que significava aquilo, naquele tom? Letras não voam? Pensei que voassem. Voassem alto como a imaginação das crianças, que são capazes de fazer de cada pê, um pássaro azul. Que podem transformar os emes em montanhas, os esses em lindas e coloridas cobras. Crianças são capazes de fazer de um simples tê, um avião e voar, voar pelo céu. Cair no mar e se salvar.

Então por que aquele tom? Por que aquela repreensão? "Letras não voam"? Não? Então o que fazem as letras? Perguntei, impactada. A resposta veio didática e inflexível: "letras não voam, devem andar em cima da linha!". Foi assim e com a exclamação no final.

Em cima da linha. Só tem um lugar onde a letra anda em um lugar tão marcado: num caderno de pauta. E só tem um lugar onde cadernos de pauta são usados: na escola tradicional. Ah, também no contador e no cartório.

No resto do tempo, as letras voam. Aqui mesmo no jornal, não temos nenhuma linha. Olhe em volta. Quantas letras vê? Quantas andando "em cima da linha"? Andar em cima da linha não é da natureza da letra, é uma imposição arbitrária.

Nas escolas Waldorf, não usamos cadernos de pauta. Lá as letras voam até que a criança adquira a reta através do amadurecimento de sua própria força interior e, então, naturalmente, a escrita fica em linha reta.

Paciência, fantasia e amor são as ferramentas indispensáveis na passagem da imaginação infantil para a abstração intelectual da escrita moderna. Antes de escrever, movimentar.

Os primeiros cadernos estão cheios de cores, de formas, de linhas retas e curvas, onde se adivinham os gestos e os movimentos que se fizeram, bem antes, com o próprio corpo e com o mundo ao redor.

Surge a primeira letra, - o R, por exemplo. E com ela a história do Rei! A criança entra no mundo da escrita pela mão da fantasia que a nutriu nos primeiros anos de vida. Sente-se em casa, não se assusta, consegue avançar com confiança. Sim, as letras devem voar e encontrar o pouso no coração da criança.

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