segunda-feira, 13 de julho de 2009

Maique o quê?


Nunca pensei que fosse escrever sobre Michael Jackson. Me cansa só de pensar, mas esse cansaço pode ter uma origem bem mais séria do que simples enjoamento de mídia. As fotos 1, 2, 3 e 6 são reais. As 4 e 5 são projeções de como Michael Jackson poderia estar aos 50 anos se não tivesse entrado em sua viagem de transformações corporais.


Meu filho de quatro anos perguntou: "maique o quê?". Me surpreendi um pouco com a pergunta e, a princípio, não entendi. Ele repetiu, paciente: "ma-i-que o quê?". Ah, pensei, e respondi: "Jackson". O pequeno confirmou: Maique Jequesom. Je-que-som. E foi embora. Fiquei num vazio. Apenas o som final de jequesom ressoando.

É surpreendente o poder da mídia. Mesmo em uma casa onde a morte do super astro é pouco relevante e onde se tenta evitar que crianças assistam algo mais do que programas de TV específicos para a idade, a comunicação midiática vaza.

Diante do irremediável "maique o quê", fiquei pensando nessa mídia que atravessa e extravasa, refletindo e construindo nossa sociedade. Quando percebi, estava pensando sobre um outro menino que, desde que tinha pouco mais de quatro anos, foi atravessado por essa força de uma forma tão intensa que ela alterou não apenas sua personalidade, mas sua corporalidade.

Fiquei pensando na desagradável visão do rosto de Michael Jackson. Percebi o quanto me incomodava assistir ao clipe de sua metamorfose. Uma aberração transformada em show de horrores como nos antigos circos, onde se apresentavam as mulheres barbadas ou o homem elefante.

O que queriam me dizer aqueles pensamentos? Do ponto de vista de uma caucasiana, um negro metamorfoseado em branco era apenas mais uma curiosidade?

Não estaria na ânsia de embranquecimento desse menino uma expressão de minha própria hipocrisia? Esse moço não estaria revelando a todos nós, enquanto sociedade? Mostrando o quanto somos estigmatizadores e cruéis com aqueles que não pertencem ao cânone oficial? Com todos aqueles que não representam a cultura dominante e dominadora?

Sou branca e tenho um filho negro. Que valores devo exemplificar para que ele nunca venha a sentir o mesmo repúdio de si que abalou aquele outro menino? Como fortificar meu caráter a ponto de não permitir que minha própria fraqueza e indolência contribuam para a manutenção de valores e padrões culturais equivocados?

Sinto-me responsável e envergonhada. Sou autora e construtora da sociedade em que vivo, portanto, colaborei para que Maique morresse deformado.

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