terça-feira, 8 de setembro de 2009

As horas


Quando Virgínia Woolf escrevia seu romance "Mrs. Dalloway", o fazia com o título provisório de "As Horas". A obra da escritora inglesa mostra, através de situações corriqueiras, a luta dos personagens para enfrentar seus fantasmas interiores, suas escolhas e decepções e o eventual sufocamento que pode gerar a rotina ou a acomodação a um modo de vida não desejado. Esse 'acomodar-se" é o aspecto que mais me impressiona em "Mrs. Dalloway" e na obra intitulada "As Horas", de Michael Cunningham, inspirado no livro de Woolf e levada ao cinema em 2002 por Stephen Daldry. Fico pensando nas habilidades especiais que temos de desenvolver para viver "as horas" indesejáveis que todos enfrentamos na difícil arte de viver.


Sabe aquela sensação que podemos denominar de "as horas"? Não? Explico. Você passa por um momento difícil, dificílimo mesmo. Aguenta firme. Supera. O momento crítico passa, afinal, tudo passa, mas é aí que: tcham tcham tcham tcham, começam "as horas". As horas depois do momento crítico.

Por exemplo: você vai ao médico, faz uma porção de exames, volta ao médico e fica sabendo: a coisa está instalada. Choque, choro, o drama de informar os familiares. Durante uma ou duas semanas a notícia corre e toma proporções inimagináveis. Você recebe telefonemas de solidariedade, demonstrações de estima e interesse. Enquanto o episódio
acontecia, você estava lá, firme, inteiro, mas tudo passa e aí chegam "as horas". As horas depois da grande crise, as horas em que seu drama vira notícia velha e você tem de encará-lo hora após hora sem o apoio daquela força que vem de não se sabe onde quando a coisa está no auge.

Outro exemplo: aquele ente querido, muito próximo, morre. Comoção, vigília, desolo. Você ali, envolvido, ocupado, consolando, sendo consolado, providenciando papéis ou infraestrutura para o velório.

Enquanto o episódio acontecia, você estava lá, firme, inteiro, mas - tudo passa - e aí chegam "as horas". As horas depois do acontecido. As horas que se constata que o quarto está vazio e que não voltará a ser ocupado pela mesma pessoa. Você percebe que é real e que as horas vão continuar a correr uma após a outra, independente da sua vontade.

As horas são implacáveis, elas não param por nada nesse mundo. Até mesmo nas coisas mais banais, as horas são inflexíveis.

Último exemplo: numa reunião de trabalho você recebe uma agressão velada, um erro que não cometeu lhe é atribuído por um colega que não lhe estima. O clima pesa, você se segura para manter a postura, pois não pode provar a calúnia. O fato passa, afinal, tudo passa, mas é aí que as horas chegam: você terá de conviver com os olhares críticos e/ou duvidosos dos colegas hora após hora.

O que fazer quando "as horas" chegam e mostram que até os momentos mais críticos passam e deixam atrás de si um rastro de monótono sofrimento? Afinal, no ápice da crise, quase sempre, somos fortes e corajosos, a questão difícil é manter o vigor nas horas que se seguem irremediavelmente indesejáveis.

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