terça-feira, 24 de novembro de 2009

Discurso do Método



Duvidando de tudo, Descartes queria conhecer a verdade.   Sua busca deu margem para a criação de métodos científicos bastante discutíveis para os tempos atuais. No entanto, podemos aprender com ele e, ainda assim, não desenvolvermos arrogância em nosso pensar. Uma boa maneira de flexibilizar nossa maneira de ser e viver, através de uma metodologia científica, é ter a humildade de reconhecer que o que vemos não é o todo, mas parte de um processo vivo e dinâmico e que nossas inferências são relativas a uma determinada visão desse processo que leva em consideração X, Y e Z, mas deixa de fora outras variáveis.  Esse conceito pode ser considerado por muitos como relativismo, mas difere dele por uma coisa: não afirma que a verdade não existe, apenas diz que, de onde me encontro - agora -, não consigo ver o que se passa por completo. E mais, mesmo não vendo tudo, tudinho, assumo responsabilidade por aquilo que vejo e pelo senso que desenvolvo a partir do que vejo. E mais um pouquinho: o que vejo também sou eu.


O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída, porquanto cada um acredita estar tão bem provido dele que, mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa, não costumam desejar tê-lo mais do que já o têm.


Descartes começa o Discurso do Método com essas palavras e continua, no segundo parágrafo, dizendo: "Não é provável que todos se enganem a esse respeito".


Não sou cartesiana, mas devo concordar com ele. Todos consideramos que temos "bom senso", não é mesmo? No entanto, como alerta nosso velho militar francês, apesar de todos nós termos em igual medida a capacidade do bom senso, não levamos em consideração as mesmas coisas, ou seja, falta a um ou outro as informações que poderiam influenciar no juízo que faz das coisas.


Se não conhecemos todos os lados de uma questão, pelo menos aqueles possíveis de ser conhecidos, como poderemos ajuizar corretamente? Como podemos afirmar que nossa opinião é baseada em bom senso?


Porém, diferentemente de Descartes que acreditava que um método correto poderia ajudar na compreensão da verdade e, assim, tornar possível o verdadeiro bom senso, acredito no pensamento processual, pois penso que nunca conheceremos tudo, tudinho, de uma coisa. 


No entanto, podemos nos ater àquilo que temos acesso e lembrar que isso é parte de um grande processo, vivo, dinâmico, imensurável.


Assim, ao invés da arrogância dos senhores da verdade, exercitamos a humildade do que podemos entender dentro de um  nível de desenvolvimento momentâneo. Faremos nossos juízos dentro do patamar de humildade daquilo que podemos enxergar e daquilo que somos capazes de compreender - por enquanto.


Pode parecer apenas metodologia, mas isso faz uma grande diferença para o nosso modo de ser e viver, principalmente no que se refere ao estar social, fazendo  de nós pessoas mais flexíveis e humanas.

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