sábado, 5 de dezembro de 2009

O aniversário do Médici


Responsável pela Transamazônica, pela massacrante campanha "Brasil, ame-o ou deixe-o", por centenas de desaparecidos políticos, pelo ufanismo da Copa do Mundo de Futebol de 1970,  pelo suspeito "Milagre brasileiro", e por tantos outros desmandos e atrocidades, o ditador militar, Emílio Garrastazu Médici, governou o país nos terríveis anos de chumbo, entre 1969 e  1974. Você sabia que o general faz aniversário em 4 de dezembro? Não? Pois eu sim, e lembro disso todo ano, há quatro décadas.    



A ditadura brasileira foi uma coisa séria. Muitas pessoas negam seu caráter nocivo, a exemplo do ditador iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao negar o holocausto. Não que eu queira comparar a tragédia provocada pelo nazismo com nossa ditadura militar, mas para quem foi torturado, para as famílias que perderam seus entes queridos, para as mães dos desaparecidos não tem grande diferença entre um episódio e outro.


Na Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial, assim como na ditadura militar brasileira, as crianças iam para a escola. A instituição escolar, como grande ferramenta de perpetuação das ideologias dominantes, fazia o que queria com as crianças que lá estavam e que ainda não tinham capacidade crítica nem maturidade intelectual para saber o que era bom para elas ou não.


Como cinquentenária, vivi a ditadura na escola e trago comigo, entre muitas outras,  uma sequela que serve como um símbolo desse massacre intelectual ideológico que sofri, juntamente com meus colegas  e que, provavelmente, está tão arraigado ao meu ser que nem consigo perceber suas marcas, a não ser por essa pequena e inusitada lembrança.


Todo ano, no dia 4 de dezembro, lembro do aniversário do general gaúcho, Emílio Garrastazu Médici. Alguém consegue acreditar em uma coisa dessas? Acontece todo ano, desde 1969, quando o ditador assumiu o poder e passamos a comemorar em minha gaúcha escola alemã seu aniversário. Como pode uma coisa assim?


Não pode, mas aconteceu comigo e com muitas outras crianças das escolas desse país. Imaginem a força da propaganda para que essa informação permanecesse comigo ao longo de exatos quarenta anos. Tá certo que é apenas uma data, mas dá para intuir o que não está em mim, esquecido em forma de ideologia. E, a gente sabe, a ideologia age subliminarmente, estofa nossas crenças, ocupa nossos vazios, se estabelece naqueles lugares  de esquecimento e desatenção e quando menos esperamos, se manifestam negativamente.


Tenho muito medo da pequena menina criada na ditadura que mora em mim. Será que ela só aparece no dia 4 de dezembro? Ou será que atitudes como "ame-o ou deixe-o" pululam em minhas crenças disfarçadas de verdades e conceitos? Nossas sequelas podem ser invisíveis e leves, mas certamente estão aí.

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