quinta-feira, 11 de março de 2010

O eterno retorno

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?" (NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, 1882).


Ouvi de repente: "Oi poerinha da poeira! Tudo bem? Aqui quem fala é a voz do teu sono e o sonho da tua consciência. Pergunto: se tua vida fosse repetida tim-tim por tim-tim infinitamente, você rangeria os dentes ou abriria um sorrisão?"


Perguntinha assustadora. Ela é baseada na hipótese artística composta por Nietzsche em Gaia Ciência de "o eterno retorno". Acho genial e revolucionário do nosso pensar e fazer.


Pensa bem: se tudo o que nos acontece - a cada instante - fosse nos acontecer para sempre e sempre, é claro que íamos querer fazer o melhor possível agora para que sempre e sempre fosse o melhor possível e pudéssemos rir às gargalhadas de tudo o que nos acontece.


É como diz (mais ou menos) o mesmo Nietzsche, no final de Zaratrusta: "É isso a vida? De novo". Sempre que penso nisso, nesse "de novo", escuto a voz do Baby, aquele filhote de dinossauro que vive gritando: "de-novo-de-novo", como, sabe o quê? Toda criança.


Lá estamos nós "de-novo" como em "vinde a mim as criancinhas". A criança vive intensamente o eterno presente. A criança em seu de-novo-de-novo pergunta-ria ao anjo da vida: "É assim? Oba!" E continuaria em seu eterno presente.


Mas o que nós educadores fazemos? Acordamos a criança para o mundo do intelecto de forma dura e rangedora de dentes. Quem já não viu uma criança de cinco anos diante de uma tarefa ressequida?


Quando falo tarefa ressequida, refiro-me às pequenas ações corriqueiras que toda criança pode e deve fazer, mas que é determinada de fora, a partir de um imperativo adulto intelectual, sem levar em consideração o estado indesperto da criança.


Já estou até vendo as bocas retorcidas das educadoras tradicionais de plantão dizendo que é obrigação do adulto despertar a criança. Não é não.


A criança vai despertar quando se tornar adulta e, se seu sono do eterno presente for interrompido precocemente ela se tornará, com toda certeza, um adulto rangedor de dentes e precisará de muito estimulante e muito som alto para disfarçar o incrível vazio existencial no qual vive e viverá - de novo.

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