sexta-feira, 28 de maio de 2010

A mãe

...Um dia após o jantar, a mãe pergunta o que o filho lê e surge o primeiro vínculo entre os dois no segredo compartilhado: "Leio livros proibidos. Os livros são proibidos porque dizem a verdade sobre a nossa vida de operários... São impressos às escondidas e, se os encontram aqui, metem-me na prisão, porque eu quero saber a verdade". 

Quando comecei a escrever a crônica para o Dia das Mães, lembrei-me de uma personagem que marcou profundamente minha geração: Peláguea Nilovna, do romance "A mãe" de Máximo Gorki. O livro conta a história de uma mulher que rompe com o modelo de submissão de sua época e se torna revolucionária. A radicalidade da personagem é invejável. Hoje, somos todas mamães acomodadas ao modelo vigente, esquecidas que  temos sim o poder de revolucionar.

Impresso e publicado originalmente em 8 de maio de 2010.
Fui procurar na estante, lá estava ele, bem em baixo, ao lado de outros "dinossauros", desmantelado, capa colada com um durex de mais de trinta anos, páginas amarelas.

A mãe. O livro. Nos idos anos setenta do século passado, um hit passado de mão em mão como uma preciosidade por jovens crescidos e educados no regime militar brasileiro.

Eu era um desses jovens e o livro é minha herança - A mãe. A herança. O livro. Sua leitura era nossa forma ingênua de "atuar" para a transformação de uma realidade indesejável. 

Escrito há mais de cem anos por Máximo Gorki, A mãe é semificcional, romanceia as experiências do autor durante o movimento revolucionário russo  dos primeiros anos do Século XX. 

Registro de uma era, foi considerado por Lenin "um livro necessário". Além disso, tornou-se uma manifestação feminista precoce na expressão da personagem central, Peláguea Nilovna, a mãe, uma mulher medrosa que rompe com seu destino passivo e assume seu papel na história: "Outrora a vida havia-lhe parecido externa, longínqua, feita não se sabe por quem, nem por quê; e eis que agora muita coisa nasce perante os seus olhos com a sua contribuição".

A mudança na atitude da mãe começa a acontecer quando seu filho revolucionário é preso. Sozinha, decide continuar a entregar os folhetos clandestinos no lugar dele, pois está amadurecida e transformada com as leituras que faz às escondidas de livros proibidos pelo regime dos czares.

A mulher se transforma, passa a ocupar um espaço de funções e percepções. É genial a forma como Gorki descreve sua transformação, de camponesa submissa, escrava dos seus medos e da brutalidade, a uma mulher que assume o domínio de suas novas crenças e se engaja na disseminação de idéias renovadoras. 

Queria que a radicalidade da personagem nos inspirasse nesse Dia das Mães. Nossos filhos estão presos a um mundo de violência e consumo. Submetidos por uma mídia mediocrizante e uma educação para a conformidade. Oxalá nos transformássemos também em revolucionárias, militantes por uma humanidade melhor.




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