segunda-feira, 17 de maio de 2010

Só sei que nada sei

Edgar Morin  é um dos principais nomes da contemporaneidade. Entre os princípios que enumera para que possamos conquistar novos paradigmas na educação está o princípio da instabilidade do saber.  Esse princípio refere-se ao fato de que todo saber é também não saber. Todo saber é um sistema aberto, mutável e em constante evolução. Por isso, aqueles que acreditam no ensino conteudista, esse praticado em quase todas as escolas que conhecemos, se desesperam, estão no limiar de perder todas as suas verdades seguras. Terão que se adaptar a um mundo de poucas verdades, de muitas escolhas e de total responsabilidade por elas.


Impresso e publicado originalmente em 27 de fevereiro de 2010.





Só sei que nada sei. Começo citando Sócrates, o filósofo grego que muita gente acha que não existiu. Não sei, mas talvez só mesmo alguém que não existiu poderia ter um insight tão preciso e ousado como esse.

Nós, professores, somos todos um pouco sofistas, tão orgulhosos de nossas memórias e da bagagem de nosso pseudo-conhecimento. Por isso, quando alguém ousa falar que saber coisas não é tão importante assim, ficamos escandalizados.

Estou em um momento socrático. A sofista que vive em mim está em crise, completamente histérica. A sabichona não está aguentando encarar a realidade, assumir que não sabe nada e que NUNCA saberá.

E pior, descobrir que qualquer pendrive pode substituir sua memória, que qualquer programinha de computador pode fornecer respostas muito mais precisas que as suas.

 A sofista histérica que em mim habita não suporta pensar que a escola conteudista já era. Que as matérias escolares não valem mais  para nada. Que as tais provas não medem nada de relevante, que só atestam o quanto a escola tradicional é sofista e ultrapassada.

Os sofistas acreditavam em "o homem é a medida de todas as coisas". A escola acredita tanto nisso que produziu gerações e gerações de depredadores do planeta, de construtores de inumanidades.

A sofistinha desajustada aqui vai ter de aprender que o vazio é  constitutivo de sabedoria. Que não saber é bom, pois possibilita o devir, o vir a ser.

A sofistinha insuportável que mora dentro de mim vai precisar se ajustar aos novos tempos. Vai ter de aceitar que quanto mais atenta fica, quanto mais estuda, mais pesquisa, mais terá a  certeza de que não saberá nada.

Vai ter que se acostumar com um novo tipo de saber, o saber impermanente. Ela vai ter que encarar o "Princípio da instabilidade do saber", ou seja, vai ter de aceitar que o que ela sabe agora não é definitivo, que vai mudar e que não existem verdades duráveis, apenas escolhas e responsabilidade que vai ter de assumir por elas.


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