sábado, 12 de junho de 2010

O espetáculo

"Um palhaço e uma criança se encontram .O cenário que os envolve é pintado de branco e azul. Nele há aparelhos computadorizados e luzes que piscam, ligadas a um incontável número de fios que dão ritmo ao andar das pessoas que ali trabalham. O espaço da cama da criança delimita esse encontro. Envolta pelos lençóis arrumados dentro das grades que a protegem, a criança tem um desafio: viver. Ele está sendo cumprido no ritmo dos aparelhos, na velocidade dos homens e dentro do mistério da vida que habita seu pequeno corpo. O palhaço acredita na força dessa união. Acredita que brincar é a melhor forma de encontro e que este não tem tempo definido para acontecer: depende da intensidade dos olhares e da permissão para o jogo. E aqui o jogo já começou e nele é difícil dizer quem brinca com quem. É tão intenso que brincar, nesse cenário, é sinônimo de viver". Trecho de descrição de um espetáculo dos Doutores da Alegria. 







Respeitável público...Vai vai vai começar a brincadeira...Tem charanga tocando a noite inteira...Vem vem vem ver o circo de verdade... Tem tem tem brincadeira e qualidade.

Impressionante como o circo é uma coisa distante de mim. Meu pai sempre adorou, eu nunca gostei, mesmo quando criança e ia a todos os grandes e pequenos espetáculos que o papai descobria.

No entanto, nesse último final de semana me surpreendi. Ri tanto com uma apresentação de palhaços que chorei de cair lágrimas aos roldões. Tenho certeza que, sempre muito blasé e intelectual, nunca havia rido tanto assim. Foi uma delícia que me levou a comentar o fato aqui.








Palhaços da Trupe Família Clou, de 
Nova Friburgo, RJ.  
Jovens professores 
que se dedicam à arte de fazer rir.



Pesquisei um pouquinho e descobri que o circo está em alta. Não aquele circo cheio de animais do tempo em que eu era criança, mas um circo jovem, com artistas  e palhaços letrados, vindos das mais diversas áreas de formação. Gente que pinta o rosto com alegria depois de dar aulas, de atender em consultórios, de trabalhar no 
mercado financeiro. Ser palhaço virou estilo de vida, mais do que profissão. 

Essa minha redescoberta dos palhaços começou de forma bem discreta ao receber a notícia de que meu professor de escultura, que havia voltado para a Alemanha, seu país de origem, tinha se tornado um palhaço.


Ele estava trabalhando com idosos em uma clínica, mas não tinha muito sucesso. Um dia, ele tropeçou e caiu de forma engraçada no chão. Foi então que muitos dos velhinhos começaram a rir. Tinha sido a primeira vez que eles haviam se mobilizado diante das atividades que ele como professor de artes propunha.



A partir daí, ele começou a exagerar alguns gestos, a deixar cair algumas coisas, a bancar o atrapalhado. Deu certo. A tal ponto de despertar nele a vontade de cursar uma escola de palhaços. Hoje, ele é um palhaço e faz seu trabalho artístico mobilizar crianças, adultos e idosos em várias partes da Alemanha.



Nunca tinha pensado na arte circense, especialmente no fazer do palhaço, com mais profundidade até quase cair da cadeira de tanto rir nesse último sábado. Eu sabia que a mobilização da risada era uma coisa incrivelmente forte e terapêutica, que faz bem à corpalma que somos, mas agora eu não apenas sei, eu sinto. 



Impresso e publicado originalmente em 12 de junho de 2010.




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