Tomando café da manhã em um hotel do Triângulo Mineiro, escutei um depoimento interessante de uma educadora. Na época dos preparativos para o casamento de minha filha, disse ela, resolvemos fazer uma lembrancinha diferente para as madrinhas e convidadas mais íntimas, como avós e tias: um pequeno vestido de noiva, costurado e bordado à mão.
A mãe zelosa se emocionou ao partilhar o que sentiu durante os meses que antecederam ao casamento da filha única enquanto costurava, noite após noite, os pequenos vestidos de renda, seda, pedrarias e brocados. Para ela, mais do que a festa, mais do que a sensação de "passarinho deixando o ninho", mais do que todas as outras emoções que a atravessavam nessa época, o costurar dos pequenos vestidinhos possibilitou uma vivência muito forte e profunda em relação às sensações que o casamento da filha promovia.
Fiquei pensando nesse poder das manualidades. As mulheres, desde o começo do mundo, se dedicam de algum modo às artes-manuais. Até o pós-guerra, quando a industrialização terminou de tirá-las de casa, afastando-as ainda mais das lidas domésticas, dos filhos, das agulhas e linhas, todas as mulheres tinham íntima relação com atividades feitas com suas próprias mãos envolvendo panos, fios e lãs.
Sentar-se serenamente para costurar é uma atitude que permite a reflexão, cria um tempo sem tempo, um espaço de sutil meditação. As mãos hábeis executam a tarefa e o pensamento viaja, se organiza, lembra, elabora.
Enquanto no colo, o trabalho descansa, os olhos se perdem no horizonte da mente em total suspensão. Instante parado no tempo oculto da vida. Vida suspensa no tempo do corpo. A retomada da costura parece trazer de volta o equilíbrio do mundo. As ideias se organizando ponto a ponto promovem força e ampliam a capacidade feminina de lidar com os fatos do cotidiano de forma serena.
Costurar, bordar, fiar, tecer, até mesmo cozinhar são atividades culturalmente vinculadas às mulheres desde o início dos tempos e que hoje estão cada vez mais distantes de nós. No lugar desses afazeres, outros que passam longe dos colos, passam rápido por mãos ansiosas e deixam pouco o que pegar e admirar.
Impresso e publicado originalmente em 21 de agosto de 2010.
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