domingo, 3 de outubro de 2010

A Ativista

À parte outras marcas possíveis, o que uma criança nessa fase [até três anos de idade]  vê fazerem diante dela, ouve fazerem perto dela e, sobretudo, sente fazerem a ela, tudo isso permanece inscrito em sua estrutura não como uma informação qualquer, e sim como modelo ou receita de como se deve agir em situações semelhantes [...]. É evidente, portanto, que os atos nocivos cometidos por um pai ou mãe no trato com seus filhos, sobretudo os de até cerca de três anos de idade, têm alta probabilidade de serem repetidos por esses filhos quando adultos, no trato com seus próprios filhos - e igualmente evidente que isso tende a se repetir em não só uma nova geração, e sim ao longo de muitas gerações, tornando-se forma-padrão de agir de vastas redes familiares, quiçá de todo um povo. ["Aos que podem salvar o mundo", Ralf  Rickli, 2009].  Para saber mais:   www.tropis.org/biblioteca/aosquepodemsalvaromundo.pdf



Acabo de me tornar uma ativista. Esse negócio de ativista lembra um pouco os anos sessenta, a guerra do Vietnã e também o Green Peace. No entanto, mesmo pouco difundido, hoje em dia há ativismo em diversos setores. Eu, por exemplo, me tornei uma ativista social pela infância saudável. Já venho trabalhando pela infância há dezenove anos e isso não é pouco, porém achei que faltava uma atuação mais direta no campo do ativismo de ideias.

O ativismo de ideias é um pouco mais do que faço aqui [jornal impresso] e na internet todas as semanas, escrevendo sobre coisas que considero, vez ou outra, possam inspirar alguém a modificar paradigmas. O ativismo tem ações mais diretas, com foco e objetivo claros, defende a divulgação de ideais que possibilitem - de fato - transformar algum aspecto da vida em sociedade. Tem a pretensão não só de inspirar, mas de ajudar a mobilizar pessoas em torno de questões que necessitam ser transformadas para que nosso mundo possa ser resgatado da situação de emergência na qual se encontra. 

O ativismo pela infância tem várias frentes de trabalho: violência contra a criança, transtornos alimentares e obesidade infantil, abuso sexual, a importância do brincar, alcoolismo infantil, consumo e publicidade para a criança e muitos outros.

Escolhi reforçar um tema que tem me inquietado bastante: os efeitos estruturantes das experiências vividas pelas crianças nos três primeiros anos de vida, incluindo aí a gestação.

Essa fase importantíssima da vida da criança é conhecida também como o período da amnésia infantil. Desses anos iniciais de nossa vida terrena trazemos pouca ou quase nenhuma lembrança. No entanto, segundo o professor e pesquisador Ralf Rickli, o ser humano adulto deve enorme parte de seu modo usual de ser e agir à forma como foi estruturado pelas experiências vivenciadas nessa época.

Conscientizar um número cada vez maior de pessoas da urgente necessidade de transformar nossas ações em relação à criança pequenina é meu foco de ativismo. Só assim, poderemos cogitar mudanças na forma-padrão de toda uma sociedade, alterando, desde já, as estruturas profundas das gerações futuras.

Impresso e publicado em  7 de agosto de 2010.

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