quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Estranheza inquietante


Quero abismo, frio na barriga, incerteza.
Quero estranhezas inquietante.
Quero não saber.
Quero desprontar.
Quero desassossegar.
Sentar, na beira do penhasco sem cordas ou capacete.  Quero a possibilidade de cair.  
Risco.
 Arrisco.
Riso.
Sorriso.
Quero. 
Ou talvez não. 



Ter nascido acabou com a minha saúde. A matéria é invisível, o que vemos é a luz refletida sobre as coisas que nos rodeia. Sem luz, tudo fica invisível. As múmias são indigestas, em compensação os recém-nascidos não têm o mínimo teor alimentício.

Como poeta o poeta Manoel de Barros:  "As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: Elas desejam ser olhadas de azul - Que nem uma criança que você olha de ave".

Tenho pensado muito nisso de estranheza inquietante. Olhar as coisas de azul. Estranho? Inquietante? O que faço diariamente que promove em mim essa estranheza inquietante?

Quando Clarice Lispector escreve: "Ter nascido acabou com a minha saúde" promove um estranhamento. Nos faz pensar nisso que é vida, vida inquietante, que é cheia de incertezas, cheia de doenças, de acasos, de imprevistos. 

Quando o Dr. Sérgio Felipe fala, baseado em ciência, que a matéria é invisível, promove um deslocamento, uma estranheza em nossa maneira de pensar. Será? Mas se é assim... Somos impregnados por uma estranheza.

Quando ao folhear as páginas do Caderno H, lemos as provocações de Mário Quintana comparando múmias a recém-nascidos de forma quase canibalesca, sorrimos, mas, ao mesmo tempo, podemos perceber a afirmação da vida implícita na estranheza dessas palavras.

Verbos como estranhar, inquietar, desprontar e tantos outros que nos tiram do sofá morno do pensamento seguro talvez devessem ser conjugados mais vezes durante nosso dia.

Aproximar-nos da inquietude pode ser o que de mais intenso e alegre possamos fazer. Eu quero. Quero muito virar caminhante sem trilha, melhor ainda desbravadora sem bandeira. Quero olhar tudo em azul, quero olhar de ave. Existe  "desrazoabilizar"? Quero isso.

Impresso e publicado originalmente m 6 de novembro de 2010. 

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