Quero abismo, frio na barriga, incerteza.
Quero estranhezas inquietante.
Quero não saber.
Quero desprontar.
Quero desassossegar.
Sentar, na beira do penhasco sem cordas ou capacete. Quero a possibilidade de cair.
Risco.
Arrisco.
Riso.
Sorriso.
Quero.
Ou talvez não.
Ter nascido acabou com a minha saúde. A matéria é invisível, o que vemos é a luz refletida sobre as coisas que nos rodeia. Sem luz, tudo fica invisível. As múmias são indigestas, em compensação os recém-nascidos não têm o mínimo teor alimentício.
Como poeta o poeta Manoel de Barros: "As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis: Elas desejam ser olhadas de azul - Que nem uma criança que você olha de ave".
Tenho pensado muito nisso de estranheza inquietante. Olhar as coisas de azul. Estranho? Inquietante? O que faço diariamente que promove em mim essa estranheza inquietante?
Quando Clarice Lispector escreve: "Ter nascido acabou com a minha saúde" promove um estranhamento. Nos faz pensar nisso que é vida, vida inquietante, que é cheia de incertezas, cheia de doenças, de acasos, de imprevistos.
Quando o Dr. Sérgio Felipe fala, baseado em ciência, que a matéria é invisível, promove um deslocamento, uma estranheza em nossa maneira de pensar. Será? Mas se é assim... Somos impregnados por uma estranheza.
Quando ao folhear as páginas do Caderno H, lemos as provocações de Mário Quintana comparando múmias a recém-nascidos de forma quase canibalesca, sorrimos, mas, ao mesmo tempo, podemos perceber a afirmação da vida implícita na estranheza dessas palavras.
Verbos como estranhar, inquietar, desprontar e tantos outros que nos tiram do sofá morno do pensamento seguro talvez devessem ser conjugados mais vezes durante nosso dia.
Aproximar-nos da inquietude pode ser o que de mais intenso e alegre possamos fazer. Eu quero. Quero muito virar caminhante sem trilha, melhor ainda desbravadora sem bandeira. Quero olhar tudo em azul, quero olhar de ave. Existe "desrazoabilizar"? Quero isso.
Impresso e publicado originalmente m 6 de novembro de 2010.

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