terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Isso que escrevo


E se começássemos com Demócrito, o filósofo que ri? Ou Diógenes de Sínope. Depois podíamos seguir por Spinoza, Nietzsche.  Dar uma passadinha em Pascal, Montaigne e, se quisermos intensificar  quem sabe pinçar algo em Maquiavel, Rousseau?  Por fim, ou mesmo no começo, folhearemos os contemporâneos: Foucault, Deleuze, Certeau, Rosset. Muitos, oba. O que estamos querendo descobrir? Uma maneira de escrever, viver e dizer a vida viva, afirmá-la. Tentar escapar das armadilhas da linguagem e sua institucionalidade ressentida, comparativa, idealizada. Buscar uma escrita inventiva que nos potencialize ao ler, que seja um bom encontro, aumente nossa alegria. Abaixo, Sócrates no leito de morte (1787) de Jacques-Louis David.



Resolvi escrever, pois nesse momento esse exercício me ajuda a  pensar. Ainda não sei bem o que é, nem o que não é, nem se é  isso que escrevo, porém intuo algumas coisas. 


Isso que escrevo não é "minha opinião". Não é parte de minha "vivência interior". Também não chamaria de "sentimento", mas me afeta fortemente.


Isso que escrevo é estudado, pesquisado, afirmado em todas as suas perspectivas por muita gente. Esses estudos dizem respeito a uma forma de afirmar  a vida viva. 


Isso que escrevo fala de algo que inclui, sem ser  inclusão. Uma coisa que é múltipla, também única, também dupla.


Algumas questões perdem condição de dizibilidade diante disso que escrevo. Qualquer assunto que diga respeito a consertar a vida viva para que fique próxima a uma vida imaginada não consegue ser ancorado por isso que escrevo. 


Não que a vida viva não possa ou não deva ser melhorada, não é isso, não não. Mas essa melhoria, se vier, virá por uma 
afirmação da própria vida viva. Pois, para isso que escrevo, a vida deve ser afirmada em todos os seus aspectos. Todos. Sim sim.


Quando se consegue pensar da forma como pensa isso que escrevo não se olha o mundo para criticá-lo de fora, a partir de um gabarito exterior a ele.  Não há uma razão que julga o mundo a partir de um ideal de mundo perfeito. Não não.


Para isso que escrevo, só há implicações. E você, eu, tu, nós, os múltiplos que somos, para isso que escrevo, estão sempre implicados nisso que escrevo.


Ainda não sei falar sobre isso muito bem, mas vou aprender. Resolvi escrever para dizer isso que quero aprender a dizer isso que escrevo. Mas, mais do que isso, quero aprender a viver isso que escrevo. Sim sim.


Para o que escrevo a potência da vida não vem da crítica à vida, mas de sua afirmação incondicional. Mudanças? Podem ocorrer. Ética, sem dúvida. Conformismo com o que está aí? Jamais. Não é isso que escrevo. Não não.


A ética disso que escrevo não está no olhar de longe e apontá-lo, mas no viver perto - do que for -  e celebrá-lo, dançá-lo. Não há conformismo na dança. Há tão somente o dançar junto. 


É isso que me afeta. Ainda não sei escrever isso que escrevo, mas quero aprendê-lo.  Não para criar um mundo  perfeito, não há um mundo melhor fora desse que vivo. Quero aprender a escrevê-lo  porque é o meu respiro.   



Impresso e publicado originalmente em 27 de novembro de 2010.






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