segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pequeno parágrafo


"...lê ao menos este livro para após destruí-lo, com vossa ação, e esquecê-lo". Isso que Nietzsche escreve, ser capaz de esquecer o que leu, tem a ver "com o tempo do metabolismo", como diz Larrosa, é uma linguagem fisiológica, é ter uma barriga jovial. Pensar o conhecimento para além de sua abordagem intelectual, embasada essencialmente na leitura, era minha intenção ao começar a escrever essa que seria uma crônica-bomba, que a exemplo dos homens-bomba terroristas se auto-detonasse e inspirasse o leitor a deixar o jornal e ir viver a vida viva.  Abaixo, Jackson Pollock,  estabelecendo a base, na arte, do que ficou conhecido como  corpo-ação. Seria possível fazer isso na educação?   



Começo citando:

Escrevi o começo da frase acima no início da semana, minha intenção era começar citando Espinosa quando diz que algumas coisas compõem conosco outras não.

Ia começar falando assim, pois queria, logo em seguida, com Nietzsche, por Larrosa, pensar um pouco sobre a questão da leitura. Minha vontade principal era alegar que alguns livros, aqueles que não aumentam nossa potência de viver, que não compõem conosco, que não nos dão alegria, não precisam ser lidos.

Também queria recorrer às reflexões de Certeau acerca da ideologia da "informação" pelo livro. Com isso, diria que não é porque algo está escrito que deve ser lido, muito menos que possa ser considerado relevante, revelador ou simplesmente informador.

Claro que abordando o tema assim, corre-se o risco, sendo-se escrita, de perder o querido leitor em meio mesmo a esse pequeno parágrafo. 

No entanto, queria arriscar, pois em última instância meu propósito era a desmistificação do saber embasado prioritariamente pela leitura de livros, como acontece na academia. Questiono a aplicação de metodologias, e queria ter podido dizê-lo aqui, que procuram ampliar a educação para além da sua tônica excessiva no intelecto, mas que, para fazê-lo, usam exclusivamente o intelecto, através de leitura e debate de livros. 

Se uma outra forma de educar é pretendida, incluindo principalmente o corpo e seus afetos, seria preciso que essa outra forma também fosse concebida por outras instâncias do conhecimento, como o fazer e o sentir.

Uma prática de produção de conhecimento que incluísse a sabedoria não-escrita, que acreditasse no que perpassa também os afetos, durante práticas não verbais, ao mesmo tempo em que nosso fazer está atuando. Conhecimento que viria não apenas da razão, do intelecto, mas do corpalma como um todo.

Queria ter escrito essa crônica terrorista, um texto-bomba que explodisse a si mesmo em favor de um corpo que sabe sem ler.


Impresso e publicado originalmente em 4 de dezembro de 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário