quarta-feira, 2 de março de 2011

Viva em rede

Nossa existência em sociedade  depende cada vez mais da capacidade de estarmos conectados em uma rede. Existem inúmeras redes que resultam de uma rede intrincada de relações que podem ser de natureza biológica, social, política, econômica ou tecnológica. O exercício que temos que realizar é viver em rede sem querer conformá-la a  paradigmas de não-rede. Há quem queira retirar das relações em redes o caráter caótico, não hierárquico e fluido que as caracteriza. São pessoas que lutam por controlar a comunicação para que essa "dê certo", se esforçam em definir funções e regras para que as ações aconteçam "conforme o previsto". Aguardam um comando ou produzem um, forçando uma hierarquia ou unilateralidade na rede. Enfim, lidam no universo contemporâneo da rede como se estivessem numa grande fábrica do século dezenove e, com isso, promovem o ressecamento da vida em rede.
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A vida em rede é um desafio. E quando falo em desafio, não quero suavizar um problema, mas expô-lo. Desafio tanto como provocação quanto como estímulo. 


A rede é como um campo  repleto de capim, raízes em rizoma, mato crescendo por toda parte, efervescência.


Claro que tem gente que adora um randape. Joga mata-mato em tudo. Faz secar folhas e raízes. 


No entanto, se não tivermos medo do caos que se instala na época das águas e deixarmos o mato crescer em paz, como canta a música do Tom, a rede prolifera e consegue suportar os meses de estiagem. 


O velho Tom suplica para deixar o mato seco da estiagem crescer sem por fogo, deixar tatu-bola no lugar, a capivara atravessar, a anta cruzar o ribeirão e o índio vivo no sertão.


Ou seja, deixar que as manifestações se manifestem, que as conversas se atravessaem, que os encontros se deem, sem normas controladoras, sem regras muito rígidas, sem caminhos prestabelecidos, pois o prestabelecer engessa a vida e impede a rede de se tecer viva.


Uma rede implica em ações. Não há rede parada. Se parar, não é rede, é nada. Os nós da rede são encontros e bifurcações, por eles passam uns e outros não. Na rede não há necessidade de sincronicidade global. Não há necessidade de ação conjunta. Todos fazendo tudo ao mesmo tempo. Não, na rede o movimento de uns já basta para toda rede. 


Em um grupo em rede, alguns se destacam, outros assistem, outros se calam, outros só falam. Tem quem nem liga até um dia se sentir tocado e inspirado e aí participa entusiasmado.


Quando parte da rede se encontra em uma mesma ação, celebra. Todo encontro em rede é celebração. Todo movimento da rede é invenção. Nada é prévio, os caminhos da rede são trilhados ao caminhar.


Viva em rede. A experiência é assustadora, sem sentido a priori, sem garantia de objetivos alcançados. Redar: eis um verbo que vou querer inventar.


Impresso e publicado originalmente em 26 de fevereiro de 2011.

Um comentário:

  1. Nossa!
    Gostei do modo que ver o mundo, bastante objetivo.
    Isso te faz uma mulher interessante,
    Uma cabeça pensante dentre muitas condicionadas que já vi.
    Parabéns, pelo visto vou ter muita coisa para ler.

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