sábado, 23 de abril de 2011

A águia e os cordeiros

"Que os cordeiros guardem rancor das grandes aves de rapina é algo que não se pode estranhar: só que não há nisso motivo algum para levar a mal que estas lhes arrebatemos cordeirinhos. E quando os cordeirinhos dizem entre si: 'essas aves de rapina são malvadas'; e quem é o menos possível uma ave de rapina, antes porém sua antítese, um cordeirinho, não deveria ser bom?; nada há aqui que objetar a esse modo de estabelecer um ideal, exceto que as aves de rapina olharão talvez para baixo com um pouco de zombaria e dirão talvez: 'não estamos zangadas, em absoluto, com esses bons cordeiros, inclusive os amamos: nada há de mais saboroso que um tenro cordeiro'". Nietzsche, em Genealogia da Moral, de 1887.

Estive pensando em escrever uma fábula, mas estou tão sem inspiração. Queria fazer uma fábula onde os personagens fossem uma águia e alguns cordeiros no campo.


Na fábula que ainda não escrevi, a águia estaria sobrevoando pastos e abismos, como em Nietzsche, e o rebanho de ovelhas balindo, reclamando, reagindo ao que a águia faz, certo de que ela é má e pode atacá-lo.


No entanto, para compor a fábula-crônica eu precisaria estar um pouco mais lúdica do que estou. Um certo lirismo infantil deveria tomar conta da escrita para que a fábula se tornasse o que ela é. A questão é que não sou muito chegada ao gênero, ele quase sempre implica um desfecho moralizante.


No entanto, ao planejar escrever sobre a águia, à la Nietzsche, uma personagem solitária, corajosa, com visão ampla e movimentos precisos; e sobre os cordeiros, grupais,  assustados, negativos, sempre à espera da ação do outro para reagir,  acabo correndo o risco de ser moralista e/ou prescritiva, coisa da qual estou querendo afastar-me cada vez mais.


O que eu queria mesmo abordar com essa fábula-crônica é a questão da negação e da afirmação. Por isso, recorrer ao filósofo do martelo, visto que ele nos apresenta, na figura da águia e do cordeiro, a atitude do forte e do fraco em relação à constituição do bem e do mal.


O forte, a águia, faz  o que quer fazer, o que considera bom,  ele simplesmente afirma o que faz. O fraco, no caso, o cordeiro, não age a partir de si, mas a partir da ação do outro, a águia. Ele reage à  atitude dela.


Em termos de valor, o bem, para o forte, é aquilo que ele faz. Já para o fraco, o bem é a negação da atitude do outro. Ou seja, o bem do cordeiro  surge a partir do ressentimento que nutre pela atitude afirmativa da águia.  Para dar um valor para si, ser representante do bem, o cordeiro precisa negar a atitude do outro,  caracterizando-a como má.


Muito do que se faz na escrita crítica é uma atitude reativa do tipo cordeirinho. Céus, quantas vezes não estou aqui negando o outro para afirmar minha própria bondade? Oxalá me livre disso logo. Não quero balir ou invés de escrever.


Combinemos assim, prezado leitor, toda vez que a cronista desavisada começar a reagir ao invés de agir, faça um aviãozinho dessa crônica e mande-a pelos ares. Quem sabe não aprendo logo a ser águia.




Impresso e publicado originalmente em 12 de fevereiro de 2011.

2 comentários:

  1. Eu tb quero aprender a ser águia e que se dane os carneirinhos...kkkk

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  2. Adorei! Acho que essa ideia de associar o fraco ao bom gera a vitimização da sociedade.

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