sexta-feira, 29 de abril de 2011

Não falo


A coisa já virou notícia velha. Mesmo antes, quando ainda estava no cabeçalho e não no rodapé, eu não falava.

Não falo. Não me interessa falar da poça de sangue que não pisei. Minha vida não mudou. Se lágrimas houveram, foram superficiais e momentâneas. Não falo. Não quero falar do que não atravessa meu corpo, do que não me enluta a alma.

Uma notícia não tem cheiro. Não tem gosto. Uma notícia não é nada. Apenas ocupa. Transforma em curiosidade o ato mais vil.

Não falo. Não vou falar do que não me tirou o sono, não me fez perder o apetite. Não falo. Não vou fazer comentário, dar opinião, horrorizar-me na palavra apenas. Não. Não falo. O horror da palavra não é nada. Pior, melhor seria se fosse nada, mas é ato vil, é violência. 

Dar opinião, apontar culpados, sugerir ações de nada serviria para diminuir a dor de quem pisou no sangue coagulado do medo. Fazer comentário, posar de espanto, no conforto do meu telejornal é uma agressão a quem carregou corpos, a quem ouviu estampidos.

Não falo. Mas também não calo. Meu dito vil é para apontar a notícia velha na prensa da coleta seletiva.

Se falo é para colocar-me, mais uma vez como culpada, atiradora, incitadora. Se falo é para dar a cara a tapa. É para desejar o silício, o expurgo.

Mesmo assim, isso não é nada. Não tem gosto de sal de lágrima, não tem ar que falta, nem coração que para. Não tem nada, só letras.

Estou farta de opiniões e comentários. Preferia o sangue espirrado nos olhos. Preferia o choque vivo da pólvora ao assistir passivo da tela fria.

Não falo. Quero mesmo é gritar. Até quando mais vamos permitir que comentários e opiniões analisem o inalisável.  Digam o indizível. Explorem o inexplorável.

Não falo. Não grito. Lastimo-me. Sinto pena e dó de mim mesma: a calada. A impotente. A nada. Não falo, nem grito, nem nada. Preferiria mil vezes ter tido o sangue jorrando, ter sentido a dor, ter podido urrar ao invés de assistir e esquecer.

Impresso e publicado originalmente em 16 de abril de 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário