domingo, 10 de julho de 2011

Afeta-me

Aqui sobre a folha "um breve intervalo de espanto, dor e assombro, pois o que se passa quando não há palavras para dizer?" (Marcos Vinícius Leite).  Essa escrita potente de um colega de doutoramento afetou-me. Fez pensar nessa pulsão de escrita que me move. Que fazer quando a escrita não vem? Do que diz a escrita a não ser dela mesma? Musa egoísta. Não adianta mentir, são essas letras borradas em sangue sobre o papel jornal a minha erótica. Está aqui meu delírio, minha febre.
De que adianta mentir aqui sobre o papel? De que adianta enganar a ti, se é só por ti que vivo. Por ti, respiro sangue, ardo em febre, deliro.

De que adianta mentir aqui por sobre o papel? De que adianta enganar a ti, se é só por ti que respiro. Por ti, vivo em sangue, deliro em febre, ardo.

De que adianta? De nada, de nada. É por ti que estou aqui em delírio romântico, em ultrapassagem impossível. Ardo, sofro em febre, jorro sangue por ti. De que adianta? De nada? De nada?

De que adianta se não dizes?Se não consideras meu sangue  possível. Se não vês meu delírio, minha febre por ti? De que adianta escrever-te, ver-te, rascunhar-te? De quê? Ó musa da escrita impossível, anêmica e ingrata. De que adianta viver por ti? Viver essa vida escrita?

De que adianta se nada dizes? Musa ingrata, egoísta. Oculta, calada, afastada de mim. Exilada de mim. Ó escrita impossível, dizer maldito. 

De que adianta mentir para mim? De que adianta se não consigo viver sem ti? Ó escrita indizível, jorra teu sangue em mim, apodera-te de mim. Afeta-me.

De que adianta? De nada, de nada. Ó pedaço de mim, metade amputada de mim. Afeta-me inteira. Diz.

Diz do impossível, diz do silêncio, mas diz. Ó musa egoísta. Dá de ti a mim. Dá. Peço. Se  não todo, parte. Pois, do que adianta viver sem ti? Musa arrancada de mim. Apiedada de mim? Escreve.

Suplico-te. Vem tu, inteira, intensa, apodera-te. Afeta-me, faz jorrar meu sangue imenso.

De que adianta? Mentir? Escreve então em mim teu possível. Fragmento em delírio. Vem, traz a febre, o jorro. Faz esquecer-me de mim. Maldita, ingrata, impossível escrita. Leva os teus sinais. Leva o que há de ti. Deixa-me só.

A mim, resta a mortalha sobre o papel. Inerte, vazia. Silêncio posto, castigo. De que adianta pedir? Vem, afeta-me. De que adianta? De nada? Então, silencia-me. De que adianta? De nada? De nada sobre o papel.

Impresso e publicado originalmente em 4 de junho de 2011.



Um comentário:

  1. quando o vazio é demasiado
    grande é a espera pela nota
    nada que se diga é bastante
    basta que não desdize e ame

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