domingo, 3 de julho de 2011

A cardação


   Ao cardar, completa-se o destrinçamento das fibras e, posteriormente sua limpeza. Desfazendo-se nós e limpando ainda mais as fibras, ao retirar o restante das impurezas, a cardação permite que se forme uma fita ou pasta homogênea própria para ser fiada.
   O instante, no tempo cronológico dessa crônica se faz no momento mesmo da cardação, entre os gestos do limpar a lã e penteá-la com a carda, formando um pequeno floco, semelhante a uma nuvem, que desprendido da carda, aguarda o momento do tornar-se fio.
   Nietzsche não acredita em grandes acontecimentos ruidosos, mas na pluralidade silenciosa de sentidos de cada acontecimento.


Sentada na cadeira, fralda branca no colo, uma pá de  carda em cada mão, penteia e separa a lã em pequenos montes nuvados. Uma a uma, as pequenas núvens de lã vão se amontoando ao lado sobre outro tecido alvejado, prontas para serem torcidas, para girarem na roda viva do fuso.


escuta. Ela é mais que ouvir. O ouvido ativo promove o gesto. Gesto da mão, do braço, ações de superfície, visíveis, reguladas pelo invisível da escuta.Há uma escuta. Um ouvir a lã e a carda. A intensidade do gesto depende desse ouvir.  Ele regula a ação, ampliando o sentido do fazer. Há uma 


A fralda suja de ciscos. Pedaços de mato, carrapichos, espinhos, estrume. A fralda branca tingida de escuros, a lã compacta, se abrindo ao ar e à luz, ganha volume e leveza.


O corpo continua a gestuar, a ouvir, a regular a força da ação, sentidos abertos ao material, ao ruído da carda, à textura e densidade da lã.


A fibra bruta se solta da carda, voo leve de núvem até o  monte cardado. Há um silêncio. Uma calma na superfície do gesto. A continuidade desse gesto, sua repetição, invoca o silêncio. Ele regulariza a ação, ampliando o sentido do fazer repetido. Há um silêncio. Ele é mais do que não-barulho. 


A cardação continua. O monte de lã aumenta. Logo chegará o fio. Há uma voz. 

A voz do fio regula o gesto da carda.A voz inaudível e invisível. A voz imaterial, futural, amplia o sentido da núvem de lã. Há uma voz. Ela é mais do que fala.


No corpo, os gestos agenciados no fluxo da cardação, sentidos atentos e abertos ampliam o sentido do fazer. Há uma escuta. Há um silêncio. Há uma fala. Gestos na superfície invisível da fiação. 


Gestos que repetem no devir do fio. Fio futural. Fio não presente, feito da núvem de lã.  Feito no cisco do não-fio, no ruído da carda que move e penteia preenchendo de ar e luz a lã.



Publicado originalmente em 29 de abril de 2011.



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