quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Amor em Times 12


Cara Nina, espero encontrá-la bem. A angústia faz parte do humano, a tensão da escrita devora o corpo, pois nasce dele, é ele. Será um prazer ler o seu texto. Quando se sentir segura pode me enviar. Também estou em processo de escrita, acabei por caminhar por Ecce Homo. Tomei a temática do corpo-escrita como investigação.  Se resistir à tensão, acabo a escrita na segunda.. Terei um enorme prazer em dividi-la com você, afinal, rumamos no mesmo barco, apesar de usarmos diferentes remos.. Até... Bjs... (MVL).

Algo acontece quando se ama em times 12. O mesmo em verdana 10 ou arial 9. Não importa o aplicativo, plataforma ou configuração, um relacionamento virtual, mediado pelo texto, seja no digital ou no analógico papel e tinta é um acontecimento que afeta o corpo.

Aqui, chamo de amor não apenas romance, namoro, paquera, como se dizia no ido tempo. O amor ao qual me refiro é um afeto trocado entre aqueles que se comunicam pela escrita. Pode ser entre colegas de escola ou trabalho, entre amigos distantes ou do apartamento de baixo, e mesmo entre pessoas da família. 

Quase sempre, quando se encontra aquele com quem se  manteve um contato intenso por carta ou internet, há uma vontade de cheiro, de toque, de mastigação canibal, uma fome antropófaga de corpo,  tato, contato. 

No entanto, existe um deslocamento, uma sombra atravessa esse encontro. Um algo não se dá. O corpo-presença não coincide com o corpo-escrita. 

Esse amor-escrita se dá sob o signo da falta, do desejo, da incompletude. Há um eros platônico, sublimado, inalcançável que não se satisfaz nem quando o outro se faz presença em calor e carne.

É assim, mesmo quando essa escrita não passou de um "oláa, tá boa?" ou um  "no mais, cuide-se bem". O corpo-escrita é um outro do outro, um  outro de si e do outro. Um it. Um amor-it. Um amor-it-da-escrita. Um impessoal misterioso, inexpugnável. O corpo afetado pela escrita epistolar não é de nenhum dos escreventes. É um corpo-escrita no entre. Entre-escrita. Entre-corpos. O corpo que escreve é it. Descolado do tu e do si. Além e aquém do nós.

Amor it da escrita. Diz o filósofo que toda escritura é uma carta de amor. Acrescento: de amor it. Em inglês, o it é usado para não humanos,  objetos, animais, plantas, e também nas orações sem sujeito. Amar it é amar o amor. Uma escrita de amor it é uma escrita por amor a própria escrita. Uma paixão que se dá entre o escrevente e o ser amado-escrita. 

Amar alguém caligraficamente ou em times 12 pode ser simplesmente amar a caligrafia ou a fonte tipográfica. Mas pode ser também amar a  potência singular da escrita. Ela própria corpo entre corpo. 

Amar em times 12 inventa um corpo outro e faz o corpo-escritor se carnar  de vida-viva em  papel ou bits.

Impresso e publicado originalmente em 20 de agosto de 2011


Um comentário:

  1. Nina, amei seu texto!!! Devorei-o e agora degustando, tentarei digerí-lo. Me identifiquei com o mistério contido na palavra. Sou sua fã.
    bjs

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