segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Gente que virão sabão

A crônica de hoje é abduzida de um escrito outro. O texto de Leandro Barreto, um jovem mineiro,  de 20 e poucos anos, colega da UFJF, exercitando-se na arte da escrita intensiva. É uma brincadeira. Daquelas sérias, que faz a gente escorregar, ensaboados que somos pela sua prosa lírica. Ando tão batida no pilão dos pensares que  atravessam o processo de doutoramento, que qualquer dia entro no banho e faço espuma de mim.  Boa leitura.


Escrever é tarefa difícil. Palavra fluida que escapa de mim... Escorrega! É sabão nas mãos de criança... A criança que brinca com o sabão ou ele coloca a criança pra brincar? O corpo todo está implicado na dança com o sabão, quem olha de longe parece loucura... Braços e pernas descompensados vão se mexendo em movimentos estranhos e desregulados... Arrítmico... Arritmia? Também.

No ensaio de hoje tento fazer sabão dos textos, das coisas e acredite até de pessoas! É preciso de muitas coisas para transformar tudo em sabão... E a primeira talvez seja acreditar nessa possibilidade.

Dança corpo: olhares, membros, troncos e inclusive as ideias de palavras que por aí vão se expandindo até ocupar o espaço. Espaço de mim mesmo que nessa mistura toda já está poroso. Me perco no meio da massa... E no tempo da bateção - onde o corpo começa a dançar arritmicamente - começa-se a perceber uma muDança na coloração, no cheiro e na textura dessa massa que costuma dar até espuma quando está "no ponto".


No começo é difícil acreditar que qualquer coisa pode dar sabão... Os materiais às vezes parecem ser grosseiros demais, sólidos demais... Mas quando chega "no ponto" não dá para não exclamar... Feito um bom mineiro que sou exclamo: "Noss num é qui deu?!"

Sua curiosidade é saber como faço pra transformar gente em sabão? Então, nesse caso preciso orientá-lo que não é possível produzir essa transformação... Ela acontece assim de repente... Feito barquinho na correnteza...

Afirmo que muita gente vira sabão! Fazendo memórias relembro casos... Às vezes é sofrível e às vezes não... Tem casos de gente que nem sabe, que nem mesmo dá conta que virou sabão... Sai andando pelas ruas como se fosse uma simples pessoa normal.

Toda vez que uma pessoa-sabão vai ao encontro de alguém, você pode esperar por tombos, escorregões e trapalhadas... Ficam tentando se equilibrar, mas o desequilíbrio é inevitável... Pode rir, é mesmo engraçado! Usei o verbo no plural "Ficam" porque a pessoa-sabão, mesmo que vá ao encontro de pessoas que ainda não são sabões, pode provocar o desequilíbrio assim mesmo - é por este motivo que criaram as botas de borracha, toda vez que você vê alguém com botas de borracha lembre-se: essas pessoas são precavidas contra escorregões provocados por pessoas-sabões.
Impresso e publicado originalmente em 3 de setembro de 2011.


Nenhum comentário:

Postar um comentário