sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O bordado azul


Ele:
Viu o azul? Quanto há de azul?
Ela:
azul azul azul azul
Lilás corpo meu
Sem cor...
Ele:
Estou sob o sol e a infinitude do azul.

Neste pequeno conto, paisagens azuis brotam  choradas em
fios e pontos tecidos por Ana.


Lavou as mãos com um sabonete líquido que, desde a infância, havia se acostumado a ver sobre a pia do banheiro. Esfregou as palmas, o dorso, os dedos com um cuidado quase ritual. O creme de rosmarinus na pele úmida, dizia, dava-se ao encontro das sedas: mão, fio, tecido. 

Depois caminhou lentamente para a varanda, antecipando o prazer que em breve viria. Parou, olhou o horizonte e sentou-se na cadeira que fora antes de sua avó e de sua mãe. A madeira escura, a palhinha gasta, tramada há muito pelas mãos habilidosas do avô. 

Todas as tardes, Ana sentava-se para bordar. Na mesinha, ao lado da cadeira, a cesta de vime deixava escapar cores. O bastidor, pousado sobre a almofada, mantinha tensionado o risco já traçado sobre o tecido.

Toda a vida dela era assim, como aqueles dois círculos que se encaixavam perfeitamente, mantendo a tensão do pano. Não. Não queria pensar nisso. 

Sentou-se, olhou a paisagem do  costume: telhados, antenas, fachadas. O sol da tarde ardia os olhos. Por um pequeno instante, parou de respirar. Estava ali. Chegara a hora.

Abriu a cesta pegou algumas meadas e a pequena tesoura dourada. Colocou o bastidor no colo. A vida...era assim... Com um suspiro, afastou novamente o pensamento que teimava invadir a tarde quente e se concentrou no risco. 

Por que havia escolhido aquele motivo? Não lembrava mais. Era bonito, porém triste. A vida... Voltou a olhar as cores: três tons de azul para o céu. Não. Deixaria o céu por último, ainda não estava preparada para ele. A...era... 

Permaneceria nas montanhas e no grande rochedo. Cinzas, ocres, marrons. Cores sólidas que traziam a terra para perto de si. Os azuis ainda não, pensou furtivamente. Não. 

Reuniu as sedas: mão, fio, tecido. Começou a trabalhar intensamente. Era a forma que encontrara de esquecer. Não. O azul ainda não. A vida dela era assim...

Por um breve instante, ergueu os olhos do bordado e deixou-se arder pela tarde. Onde estaria ele naquele momento? No azul? Sob o sol e a infinitude do azul?

Balançou a cabeça com energia suave. Havia amado. Sim. Havia. Espetou a agulha sobre o risco da rocha. O fio cinza dilacerou o tecido. As lágrimas encharcaram o  espaço onde um dia bordaria o azul. 

Redigida agora, a ser publicada em 19 de novembro...



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