terça-feira, 1 de maio de 2012

Contratando angústias

Para Heidegger, a angústia  é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humanas, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como SER e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana. A angústia faria o homem elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas mesquinharias do dia-a-dia, até o autoconhecimento em sua dimensão mais profunda.  O filósofo pode até ter razão, mas acho que estou levando sua teoria a sério demais, estou até parecendo a mocinha aí em cima, no detalhe que recortei do quadro "Angst", do holandês Edvard Munch, pintado em 1894.


Imagine uma pessoa tranquila, com uma vida bem estruturada, regular. Tá certo que é uma vidinha bem chatinha, normal, não passa nem perto do  que se poderia considerar "uma vida angustiada". 


Pois bem, digamos que,  hipoteticamente, essa pessoa vá a uma loja, melhor, a um supermercado, passeie pelos corredores, percorra as gôndolas com os olhos e - pimba,  escolha o produto: angústia.


Depois, como quem compra macarrão integral, dá uma conferida na embalagem, coloca o código de barras sob a luzinha do escaner para descobrir o preço, força a vista investigando as minúsculas letras dos ingredientes. 



Então, lê superficialmente o modo de usar e segue em direção ao caixa, cartão de débito na mão, prontinha para pagar - à vista -, por transferência eletrônica automática a angústia embalada em celofane brilhante.


Você acreditaria em uma história dessas? Claro que não, muito menos eu. Ninguém em sã consciência, nem mesmo uma cronista de variedades, sairia por aí, colocando na sacolinha do supermercado o pacote de angústia da semana.


Será? Revejamos o parágrafo anterior: "nem mesmo uma cronista de variedades". Matou a charada? 


Pois é, ando como uma consumidora  atenta, fazendo lista de compras e pesquisando as calorias de produtos tão improváveis quanto a angústia. Quando chego em casa, desembrulho a coisa e ofereço com delicadeza solícita: vai uma angustiazinha ai? 


Tem base? Você já se sentiu assim contratando angústias? Porque uma coisa é ter ou sofrer de angústia, outra é contraí-la por questões independentes da nossa vontade. Porém, comprá-la, ir até um departamento e, por livre e espontânea vontade contratá-la,  isso é, no mínimo, para ser eufêmica, coisa de cronista de variedades.


Fico me perguntando o que me leva a querer sempre aquilo que ainda não tenho, mesmo sabendo que eu poderia viver muito muito bem com o que já estou acostumadinha.


Fico me perguntando que caminhos faz o desejo quando me conduz à angústia voluntária. Levando-me a escolher sempre trajetos árduos e difíceis.


Fico me perguntando, se viver angustiada não é, ao contrário do que pensa o filósofo,apenas mais uma das travessuras narradas pelo tio Masoch em parceria com um tal marquês.


Impresso e publicado em 10 de abril de 2010.






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