terça-feira, 1 de maio de 2012

Depois da Banca

Olha eu aí do lado fazendo a Prova de Defesa do Projeto do Doutorado. Foi assim: sentada quase agachada, curvada diante de uma tela de computador, olhando para a minha própria imagem envelhecida, muito envelhecidam, online com  um professor na Espanha e outros quatro ao vivo que, para meu espanto, não estavam na minha frente, mas ao meu lado.  Simplesmente, amarrada assim, não consegui pensar, não consegui falar, não consegui nada apenas me lembrar da santa inquisição e encomendar minha alma aos céus. 



Não vou mentir, estou começando a escrever essa crônica antes da banca (a do doutorado), mas é que estou com receio de como eu posso estar depois dela.


Uma banca é uma coisa assim: você ali, sozinha, com sua mente, de preferência sem corpo, devia ter um cartaz na porta dizendo: "corpo não entra" ou "não são permitidos corpos". Pois então, você lá, só mente, melhor, só o lado esquerdo da mente, aquele responsável pelo pensar lógico, careta, divididinho. Devia ter um cartaz na porta dizendo: "Mentes: só lado esquerdo". 


Bem, vamos em frente: uma banca é algo que remete à inquisição. Pelo menos na inquisição o corpo estava presente e, claro, logo depois era queimado... HAHAHAHAHA! 


Estou rindo de nervoso, só pode. Sem divagações. Vou parar por aqui. Depois da banca eu volto. Essas visualizações estão me dando calafrio. Depois, chego na banca e fico pensando nessas coisas, dá que o corpo, que não deveria estar lá, começa a tremer e a gaguejar. Nem pensar, é capaz de eu ir direto para a fogueira.  Vou parar, parágrafo que vem, daqui há dois dias, eu volto. Aceito Rezas.


Voltei... acabo de chegar...


Agradeço as rezas, mas não deu não. O pior aconteceu. Eu fui tão ruim, mas tão ruim, que deu vontade de sair correndo de perto de mim. Vou contar.


O querido leitor sabe que eu imagino, visualizo, crio, tá bom,confesso, fantasio. Sei que não é bom, mas fazer o quê? Não fantasiar, diria o leitor. Pois bem, fantasiei, tim-tim por tim-tim. Considerei como certo que, não tendo a placa na porta "proibido corpos", meu corpo entraria, mesmo que fosse para ser queimado no final. 


Negativo. O pior aconteceu. Meu corpo entrou, mas foi logo amarrado. Uma doutora gentil falou: "sente-se aqui". Sente-se aqui? Sente-se aqui?  Eu estava realizando uma prova de defesa do projeto de doutorado. Como uma DEFESA pode acontecer sentada? Como?


E pior: sentada de frente para um laptop aberto com a minha própria imagem aparecendo (velha muito velha) e tendo que falar quase agachada para um professor online na Espanha por um microfoninho mínimo que me deixava curvada.


Torturada, queimada viva, morri. Como defender algo agachada? Alguém quer provar que a mente é autosuficiente, não precisa do corpo. Não a minha.  Agora é aguardar dia 5 de novembro. Quando forem jogar as cinzas de mim, aviso. 


Impresso e publicado em 23 de outubro de 2010.


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