sábado, 26 de maio de 2012

Outonar

O dia passa, a semana passa, o mês passa, as estações do ano passam, o ano passa. Tudo passa. E se ao invés de tudo, fosse o nada? Nada de dia, nada de mês, nada de estações. Ou melhor, só uma estação: outono. Tudo seria um recolher, amarelecer, encolher. Tudo seria um pré-inverno. Nada a renovar, nada a esperar, nada a melhorar. Que seria? Poderíamos nós, coisificadores de tudo, viver num nada? 



São as águas de março fechando o verão. Março acabou! O verão acabou. Agora é pensar em outonar. Outonar: deixar as folhas amarelarem, os frutos amadurecerem, o ar esfriar.

Outonar. Pensar em criar intervalos de indeterminação de tempo. Criar espaços vazios nos dias. Lacunas duráveis. Condições impossíveis de produção. Investir no impossível de fazer, no impossível de conseguir, no impossível de pensar.

Outonar. Um verbo que remete a uma dimensão impensada no ano: a dimensão dos lugares inexistentes, a dimensão dos espaços impossíveis. Outonar. Apropriar-se do dizer de uma época para dizer outra coisa, dizer nada. Ultrapassar a mera representação das estações e outonar o mundo em um esplêndido vir-a-ser de um nada. Nada de ser. Nada ser.

Aguardar um nada e comê-lo como a uma fruta. Desejar o nada e sorvê-lo como a um suco. Amoras-nada, goiabas-nada, uvas-nada, pêssegos-nada, tangerinas-nada, pitangas-nada. Nada de fruta, nada de suco. Sumo de nada.

Por que será que em nossos movimentos de configuração do
mundo há tão pouco espaço para os nadas outonais? Para se outonar os nadas? Esperar o nada é mais difícil do que utopizar um tudo? Se se espera nada, o que virá? Para quem nada espera, qualquer coisinha é tudo? Que vem com nada?


Outonear. Outonizar. Quem outona nada, vem-a-ser tudo: grito, morte, susto, sussurro, choro, riso, suspiro, bocejo. Quando março acaba e o outono chega, por que não nos preparamos para invernar outonando? Por que sempre essa torcida pela atividade initerrupta de um tudo?

Pensamos o mundo como coisa, pensamos nós mesmos, nossos corpos, como coisas e como coisas queremos sempre ser outras coisas, outros tudos. Evitar o nada, evitar o inverno, evitar outonar. Queremos sempre a primavera, sempre o tenro, o novo, a renovação do tudo.

Aguardar o nada, saber do nada, certar o nada. Se cada coisa no mundo é dupla, tem um movimento de vir-a-ser, qual é o duplo do nada? Nada vezes nada é igual a nada? Uma crônica sobre o nada outonal, difere de uma crônica sobre o nada invernal? O que muda? Trocamos suco por chá? Hortelã-nada? Menta-nada? Camomila-nada? Dizer do nada ainda é dizer? Aguardar o nada ainda é aguardar? Outonar o nada ainda é outonar?
Impresso e publicado originalmente em 31 de março de 2012.


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