sábado, 26 de maio de 2012

Pensamento burro

Esta semana, passei boa parte do meu tempo de escrita, dedicando-me a configurar provisoriamente uma expressão que usei em uma sala de aula: pensamento burro. A provocação causa certo desconforto no meio acadêmico, onde só entram os inteligentes e onde toda a burrice deve ser abominada, combatida, tornada inteligência.  Mas não estará na em uma certa burrice uma possibilidade de revigoração dos pensares intelectuais? Ao lado, uma foto não tão antiga de um menino deixado de castigo, com um chapéu de burro sobre a cabeça, depois de ter escrito várias vezes no quadro: "Eu serei bom".
Estou pensando o pensamento burro. O pensamento burro não tem nada a ver com negação do conhecimento, pelo contrário, acho que para conseguir praticar um pensamento burro, temos que estudar ainda mais, exercitar muito, a ponto do pensamento conseguir operar com os conceitos da diferença e não apenas reproduzi-los, citá-los.

Talvez seja um pensamento que se dê na imanência, no intempestivo, nas circuns-tâncias. Um pensamento que não se prende à essência dos conceitos, às imagens prévias. Não conhece as regras do que combina com o que, regras da consistência, da coerência. Talvez por isso, este pensamento seja capaz de produzir um novo, pelo menos um novo estranhamento no mesmo...

Assim, produzir um pensamento burro talvez fosse produzir um pensamento que movesse  o instituído, dilatando o conhecido, aumentando a espessura das coisas. Um pensamento que promovesse um tremor no pensar e que, ao voltarmos a um pensamento operacional,  "inteligente", este estaria vigorado, como o ar depois da tempestade.

Chamo este pensamento de burro, um pouco para provocar essa forma instituída que só valoriza o pensamento da reprodução, que se vangloria por ser inteligente, que exclui os que não sabem, classifica, avalia, arroga. Mas, e principalmente, inspirada pela lembrança daqueles persona-gens meio cômicos, meio trágicos, que não entendem nada, mas que, em meio a um assunto sério, fazem um comentário burro que dispara os pensares, desloca os olhares, afrouxa as certezas, dá a pensar.

Um pensamento burro seria muito permeado de percepções e afetações. Seria  circuns-tancial. Formularia conceitos não pela igualação do não igual ou pela desconsideração do individual,  mas criaria conceitos que desses conta dos diferentes modos de ser do acontecimento, dos diferentes modos de ser do conhecimento. 

Um pensamento que vem um pouco antes da inteligência, do entendimento, que inaugura o pensar com um estranhamento. Como o poetar desacostuma as palavras, o pensamento burro desacostumaria o pensar.

Sua produção se daria a partir de uma habilidade adquirida, exercitada no deixar-se afetar  sem reservas, com atenção e escuta plena, e segurando um pouco a "inteligência", a interpretação,  colocando-as em suspensão.

Vejo  a importância deste tipo de pensar na possibilidade que ele abre de não repetirmos sempre os mesmos padrões de "inteligência", de ampliarmos nossa capacidade de perceber o real e produzir uma língua não tão apegada à representação.

Impresso e publicado originalmente em  28 de abril de 2012.


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