sábado, 26 de maio de 2012

Punzinho perguntado

Desconfie das perguntas. Desconfie das perguntas que levam a respostas do tipo isso ou aquilo. Desconfie das perguntas que querem descobrir qual é, quem é, quando é, onde é, o que é? Desconfie do qual.  Do quem. Do quando. Desconfie do é. Quando escutar uma pergunta assim, desconfie. Desconfie de qualquer pergunta. Diante de qualquer pergunta, pergunte: Será que  esta pergunta não é apenas uma forma de aprisionar uma resposta?   



Minha tarefa esta semana é pensar sobre corpo e pensar. A provocação gira em torno de uma questão parecida com quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. Assim: é o pensamento que produz o corpo ou o corpo que produz o pensamento?

Minha pergunta é: que importa? Não um "que importa" do tipo: "tô nem aí", mas um "que importa?" feito "que implica?". Que implica pensar que a galinha nasceu primeiro que o ovo? Que implica? Por acaso, quem vem antes é melhor do que quem vem depois? É uma questão de origem? Que importa perguntar pela origem do corpo e do pensamento? Que implica perguntar se é o corpo que produz o pensamento ou o pensamento que produz o corpo? Por acaso, se é o corpo que produz o pensamento, isso vai significar que o corpo é o mais importante? Ou se é o pensamento que produz o corpo, isto quer dizer que o pensamento é melhor e a origem do corpo, por isto é superior a ele? Isto tudo não tá cheirando um pouquinho ruim, não? Que te parece?

Fiquei sentindo este punzinho e imaginando perguntas fedidas. Quantas e quantas perguntas aprisionam suas respostas em seus odores. Ficamos um tempão tentando responder a questões que foram formuladas de um jeito que exige uma maneira específica de responder.

Por exemplo, quando perguntamos quem vem antes, o corpo ou o pensamento, parece que já estamos dizendo que um tem mais valor, que é o principal.  Pior ainda, quando perguntamos quem vem antes, estamos pressupondo que corpo e pensamento são coisas distintas uma da outra. A própria pergunta já indica que existe um pensamento separado do corpo e um corpo separado do pensamento e aí, claro, um poderia ser a origem do outro, um poderia ser melhor do que o outro. Seria só questão de des-cobrir qual. Saber a verdade.

Quando, de forma tão natural, fazemos uma pergunta dessas estamos construindo toda uma forma de pensar amarrada aos pressupostos contidos na questão.Se a pergunta já apresenta o corpo separado do pensamento, se busca uma origem e um valor, as respostas começam a agir no mundo a partir daí. Por exemplo, na educação, quando a resposta indica que o pensamento é superior ao corpo,visto que é sua origem, inventa-se uma educação que valoriza mais o pensamento do que o corpo e vice-versa.

Mas e se desnaturalizássemos a pergunta e pensássemos que corpo e pensamento são uma coisa só: corpo-pensamento. O que isto implicaria? Que mundo inventaríamos a partir daí? Que perguntas isto moveria? Mudaria alguma coisa no vivido-fazido-pensado de hoje?
Impresso e publicado originalmente em  21 de abril de 2012.


Nenhum comentário:

Postar um comentário