sábado, 26 de maio de 2012

Quarar a alma

Ano passado, o prezado leitor teve a oportunidade, nem sempre fácil, de acompanhar os escritos produzidos para uma disciplina, cursada como requisito do doutoramento. Com a permissão dos leitores, volto à prática movida pela urgência das tarefas, as afetações da semana e o tempo que, vez em outra, teima em faltar. Nesta semana, as vozes que se apresentam na crônica trazem ecos de três textos: Proust e os signos, de Gilles Deleuze; Quarar a alma e Pensamento, corpo e devir, de Suely Rolnik, ambos pensadores ligados às filosofias da diferença, em discussão na disciplina que agora curso: Corpo-pensamento e educação. Além dos textos, compõem a escrita, fragmentos da ementa da disciplina e o registro das vozes dos colegas na roda de apresentação promovida no primeiro dia de aula.


Uma paisagem nascida de gestos. A provocação de uma memória involuntária por um objeto, por uma palavra: "quarar". A mão da avó mergulhada no balde. A mão da avó gestuando água sobre os lençóis estendidos no capim crescido do quintal. Uma sensação antiga tenta se superpor à sensação atual, e a estende sobre várias épocas ao mesmo tempo. O corpo experimentando a dinâmica da imanência na leitura de Quarar a alma, de Suely Rolnik.

Na volta das lições de casa, a memória implica. Uma estranha contradição entre a sobrevivência e o nada. Nada mais? Só memória? Quarar, um hábito ancestral, praticamente em desuso, é trazido para o presente, proporcionando uma estranha alegria. Uma vez experimentada esta alegria, a qualidade aparece como uma propriedade do objeto que a possui: o texto lido. Mas, estranhamente, tudo se passa como se esta qualidade envolvesse a alma de um objeto diferente daquele, um signo. Lavei a alma.

Sentados uns diante dos outros, os alunos leem a pergunta na ementa da disciplina que se inicia: Como constituir um corpo nesta experimentação?

O Tempo, para tornar-se visível, vive a cata de corpos e, mal os encontra, logo deles se apodera, a fim de exibir sua lanterna mágica. Uns diante dos outros, as apresentações circulam em fragmentos de tempos plurais. Que corpo? Minhas pernas.


Venho sendo. Acreditava em um eu. Eu tô botando dúvida. Vozes em círculo, respingando água em lençóis estendidos no chão da sala. O lençol já traz em si a memória. Não estou mais no colégio. Memória do corpo.

Dizeres em movimentos fugazes, quase imperceptíveis. Inquietações moventes. A própria subjetividade passa por ressignificação.   Movimentos do corpo que se desenha e redesenha sua forma. Talvez a beleza vá me fazer caminhar para algum lugar. Estética e produção de existência em corpo-pensamento.

No círculo, os corpos. Na memória, as afetações dos tempos. Retomar o contato. Colocar em movimento.  Atender expectativas. Encontros necessários.  A expectativa é sempre um lugar à frente. Quais os discursos serão produzidos? As problema-tizações se constituirão junto.

A vida está em obra é jardim e capim. Implica em vencer certas crenças. De todo modo, na memória da aula passada, tenta-se reatar realidade e poesia, num signo que se revela artistado.

Impresso e publicado originalmente em 24 de março de 2012.


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