terça-feira, 1 de maio de 2012

Resolvi por Clarice

No início dessa década, fiz uma pesquisa científica sobre Clarice Lispector. No trabalho, além do aspecto literário na observação do fluxo de consciência presente em alguns textos de Clarice, pude fazer a primeira grande ponte entre o trabalho acadêmico e o conhecimento antroposófico. Agora no projeto de pesquisa que teço para o doutorado, fiquei com saudades de Clarice e optei por usar fragmentos de seus textos para  reunir os fios soltos das minhas experiências e fazer mais uma dobra na manta-coberta do meu trabalho científico.


Resolvi por Clarice. Uma pergunta inquietava: que obra literária me afeta realmente? Fiquei com a pergunta tempos. Vez ou outra a coisa voltava: qual? Não vinha resposta. Queria resposta. Trazer a palavra artística para junto do projeto acadêmico do doutorado. Fiquei espantada com meu afastamento das artes literárias. Nenhum autor? E Rosa? Ah... mas Rosa não vale, o velho Guima é quase religião. 


Que seria esse afastamento das letras-artes? Época dos questionamentos e leituras curiosas, primeiro. Das descobertas e leituras profundas, mais tarde. Dos estudos e leituras obrigatórias, depois. Tempo atravessado por artes outras também. Artes do corpo. Corpo? Mão. Mas mão também é corpo, ora. 


Resolvi por Clarice. Fio solto na tecedura da minha manta. Fui com ela quase, quase não, a contragosto, de fato, na Iniciação Científica do curso de Letras. Era a pesquisa que tinha e eu fui. Queria pesquisa, isso bastava. Clarice não me afetava. 



Terminou e ela ficou lá, arquivada, ilhada. 


Nessa pesquisa, meu querer é ponte. Assim, resolvi por Clarice. Ponte entre Clarice e a formação de professores? Fios soltos na manta-coberta. Formação de professores aconteceu no mestrado, queria pesquisa, de novo, isso importava. Comecei pelo que me afetava: análise do discurso: Foucault, Pêcheux, Robin e também Lacan. No caminho, a pedra. Mudança de planos, desvio imposto administrativamente. Novo orientador e com ele EAD e a formação de professores. Queria pesquisa, fiquei, mas não me afetava. Agora quero ponte, linha, costura, fio que une, alinhavo. 


Resolvi por Clarice e formação de professores.  Não mais identidade na fala, mas subjetividade no fazer.   Fio é para tecer como a vida.


Fragmentos-lembranças de um processo acadêmico tardio e caótico. Quando acesso os conteúdos passados, graduações, latos, mestrado, sinto frio. 


Quero reunir os fios soltos e fazer mais uma dobra na minha manta-coberta. Descobertas. Como escreve Clarice, "neste momento minha inspiração dói em todo o meu corpo". Resolvi por ela. Oxalá me aceitem... (aceito rezas).


Impresso e publicado em 28 de agosto de 2010.



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