sábado, 26 de maio de 2012

Sangue na lousa

Um educador diante da lousa não está em um lugar comum. Ele está em uma posição, especialmente diante de crianças pequenas, de constituição de valores. O que acontece quando aquele que está diante da lousa não está implicado em seus fazeres docentes com toda sua vontade? Não está permeando com seu sangue as ações que faz? Inspirados em Nietzsche, muitos filósofos trágicos, como Rosset e Cioran, afirmam que só há dois caminhos éticos a seguir: ou a afirmação incondicional da existência ou o suicídio. Isso pode nos parecer radical, mas significa dizer que se vamos fazer alguma coisa, seja por  dever ou prazer, façamos com todo o nosso sangue, afirmativamente ou não façamos. Significa ter coragem de dizer não radicalmente às demandas do estabelecido sem ficar na posição covarde daquele que reclama, reclama, mas continua fazendo parte do sistema. Ou pior, daquele que está dentro do sistema, mas só faz o que quer, sobrecarregando quem costuma dar o sangue eticamente.   

O que se quer dizer, quando se fala: "aquela pessoa deu o sangue"? Acho que o prezado leitor concorda comigo que, na maioria das vezes,  significa que aquela pessoa se esforçou ao máximo, deu tudo de si, interessou-se demais, atuou com vontade plena. Não é mesmo?

Pois, tendo em mente este conceito de sangue, o que significaria o título desta crônica: "Sangue na lousa"? Considerando "lousa" como quadro de anotações, desses usados nas salas de aula, que hoje podem variar de cor e ser negro, verde, branco ou digital, o que poderia significar sangue na lousa?

Teria a ver com permear aquilo que se faz no quadro com toda  vontade, interesse, esforço? Fazer por que se quer. Seria isto? Uma pessoa que faz as coisas com má vontade, apenas por dever ou obrigação, pode ser considerada uma pessoa que dá o sangue? Quando cumprimos nossas tarefas, mas o fazemos obrigados, podemos dizer que aquela tarefa foi feita com sangue? Aquele que reveste de sangue suas ações, 
na maioria das vezes, o faz para aquém e para além de suas obrigações e deveres. Não é mesmo?

Ao que parece, dar o sangue, significa fazer as coisas por vontade própria, seja por prazer ou responsabilidade. De toda forma, dar o sangue parece ter a ver com ética, com implicar-se com aquilo que se faz, com afirmar o que se faz.

Quando fazemos as coisas por consciência de dever ou obrigação, mas com pouco interesse, parece que falta-nos o sangue. Neste caso, podemos considerar que estamos sendo morais, porém pouco éticos, já que fazemos sem dar tudo de nós, fazemos apenas para responder ao estabelecido, ao externo. Acontece que não há problema nenhum em fazer com sangue aquilo que é nosso dever, aquilo que responde ao estabelecido, o que é moral. 

Este é um ponto importante para que moral e ética possam caminhar juntas: fazer as coisas com sangue não significa não fazer o que o sistema exige de nós, mas, quando fazê-lo, permeá-lo com todo o nosso interesse e implicar-se nisto. 

Do contrário, corremos o risco de fazer o joguinho infantil e reativo do "do contra". Estamos apenas reagindo ao sistema, fazendo com má vontade o que nos pedem, sem coragem para romper com o estabelecido e deixar de fazê-lo. Assim, o sangue da ética, dá lugar à hipocrisia da moral. E, diante da lousa, isto pode ser bem complicado.

Impresso e publicado originalmente em 14 de abril de 2012.







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