domingo, 3 de junho de 2012

Ao redor do buraco tudo é beira



Primeiro você cai num poço.  Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas logo você começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço.  A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A  gente não sente medo? A  gente sente um pouco de medo, mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói?  Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê. Caio Fernando Abreu.
Vertigem. A sala pequena, a fala contínua, intensa. A atenção voltada para cada palavra dita ou lida.  Pensares. A aula feita laboratório, experiência. Nós-lâmina. 

Esforço para retirar do texto  o nexo,  busca de sentido. Será isso? Seria o exercício da aula esse? Busca de entendimento? Compreender o  escrito? Entender o  autor e seu dito? É isso a aula? Que aula? 

Dúvidas. Esclarecê-las ou permanecer como tecido vivo na lâmina sob o microscópio quebrado? Descoberta impossível.  Permanecer na tensão do desconhecido. No movido da dúvida. À beira.
A aula como permanente exercício, constante investigação inconclusa, movimento repetido na arte da busca. Aula-experimentação.

Os dizeres ali. Ditribuídos em livros e notas, rassuras em volta do buraco incompreensível. Poço. Nós-atraídos, prestes ao abismo. Lançados? Ainda não. Por enquanto, na beira, equilibrando a palavra a cada dito. Que palavra usar? As palavras começam a ter sentido outro. Não podem mais ser usadas, precisam ser descobridas. Desacostumadas, como diz o poeta na aula. 

Cada pressuposto investigado, declarado, descoberto. Fosso. Esforço para falar. Esforço para pensar. Esforço sujeito ao fracasso. Sujeito? Que sujeito se produz na aula? Que sujeito produz a aula? Que sujeita a aula?

Permanecer na beira ou lançar-se? A aula tensiona. Põe em questão. Vertigem. Abismo. Buraco. Fosso. Poço. Vazio.

Estabelecer o fosso. Viver nas bordas. Refletir no vazio.

A aula segue. Os sujeitos lá. Nós-outros. Mesmos. Inquietos. Como alguém escuta? Como alguém aprende? Como alguém se torna? Tornar-se outro? Tornar-se o mesmo? Tornar-se alguém? Tornar-se o que se é.

Na aula-experiência, a experiência da aula. Experiência? Lâmina? Tecido vivo. Pele. Fala o poeta na aula: o mais profundo é a pele. Aula-superfície. Beira aberta ao acontecimento. Tudo o que acontece e tudo o que se diz acontece e se diz na superfície. 

Impresso e publicado originalmente em 7 de maio de 2011.




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