domingo, 3 de junho de 2012

A clareira

Por que há algo no lugar do nada? Repito: Por que há algo no lugar do nada? Repito? Não, não adianta, ninguém sabe. Um dos filósofos que se esforçou para tentar desvendar esse mistério foi Heidegger. Poucos conseguem entendê-lo. Na aula de sexta (aquela), fui explicar o tal do Dasein, me dei muito mal. Não há como explicar o inexplicável. Por que há algo no lugar do nada? Sei lá. Como explicar a existência?  O Dasein? Veja se consegue, prezado leitor: “Das Wesen des Daseins liegt in seiner Existenz”. Deu? Não? Vou traduzir, talvez fique melhor: “a essência do existir consiste em sua existência”.  Melhorou? Deve querer dizer: temos florestas e nas florestas clareiras, enquanto estamos na clareira, existimos, quando não estamos na clareira, existimos também, mas ninguém vê. Simples assim. 


O assunto era Dasein. A palavra tem tradução exata para o português, mas gostam de usá-la assim mesmo no alemão. Dasein quer dizer existência, mas pode ser entendido também como "ser-aí". Soa estranho. É estranho. Coisa da filosofia que, quase sempre a gente estuda estuda e não nos diz nada, pois não entendemos nada. 

Pois bem. Dasein também tem haver com habitar uma clareira. A clareira estava lá. Estávamos nela. Pressupõe-se a floresta, não a víamos. Na clareira, o assunto era Dasein, mas outra coisa chamava atenção. Não era a leitura, nem a interpretação dos textos. Não eram as questões em debate. Não. O que chamava atenção era a condução da aula. Quem olhasse de fora, não via diferença. Na clareira, todos pareciam alunos. No entanto a professora estava lá. Atenta, perspiscaz, fazendo anotações e dando feedbacks. 

Quando as questões saíam um pouco do assunto e o senso comum começava a sobrevoar a clareira, a professora trazia de volta o fio do pensamento com a alegria e a leveza de um menino empinando pipa. 

De dentro da fala de cada um, na imanência do dito do outro, buscava reconduzir o tema. Ação feita com graça, interesse e pensamento ligeiro, alvo preciso de águia planando para a amplitude do olhar.

De repente, o  foco da águia se lança para fora da aula: a chuva forte bate na vidraça. Minha roupa no varal! A dinâmica do gesto, a expressão da fala, o impulso espontâneo, a surpresa do acontecimento invade a sala.

O compartilhar do cotidiano evoca o aparecimento do próximo mais próximo, potencializando a aula. O acontecimento inventa  uma dobra no tecido da aula. Faz a clareira ser habitada, tornar-se espaço outro no mesmo da aula.

A aula segue, mas a vibração do gesto permanece: a vida da roupa viva no varal sob a chuva. A roupa na clareira, intensa, intempestiva. A aula segue, quem sabe agora já estamos mais próximos de  compreender o movimento afirmativo da águia?

Impresso e publicado originalmente em 14 de maio de 2011.



 

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