domingo, 3 de junho de 2012

Falar com ou falar sobre?

Quando falamos sobre alguma coisa, estamos, necessariamente, nos distanciando dela, olhando para ela de fora. A distância que permite a visão é uma separação. O olhar nos coloca ilusoriamente fora daquilo de que - de fato - fazemos parte.  É o olhar que nos imagina separado. Quando falamos sobre algo baseado naquilo que vemos, estamos reforçando a separatividade. Como seria um exercício de olhar e falar que não separasse? Abaixo, gravura de M.C. Escher, Céu e água I, propõe metamorfose e deslocamento do olhar.



Pode ser mais interessante para o pesquisador falar "com" do que falar "sobre", pois falar sobre pode ainda guardar uma certa distância. 


As palavras do filósofo e psicanalista Daniel Lins, na introdução de uma palestra são indicativas.   Mas como seria esse falar com?


Se falar sobre ainda guarda certa distância, falar com deve ser falar de perto, bem perto, sem distância. Junto. O que seria para o pesquisador estar junto?


Uma pesquisa é uma investigação,  implica um olhar para algo. Seria possível olhar para algo sem ser de fora? Olhar pressupõe distância? Que tipo de olhar é possível junto?


Pense em estar junto, juntinho, num abraço, por exemplo. O que acontece? Normalmente sentimos o calor, o cheiro, o toque, mas, mesmo quando não fechamos os olhos, dificilmente vemos quem estamos abraçando. Olhar, no caso do abraço, não é relevante para o abraçar, para o estar com, estar junto.


Como seria isso para a pesquisa? Falar com, ao invés de falar sobre a pesquisa, implicaria em não olhar? Implicaria em olhar de perto? Mas olhar de perto também requer distância, menos distância, mas ainda assim distância.


Como pesquisar sem olhar? Voltemos ao abraço. O que precisamos para abraçar? Peito, costas, braços, eventualmente, mãos e também cabeça. Para abraçar, um bom abraço, precisamos do corpo todo. 


Se no abraçar, no estar com e junto, o olhar é irrelevante, mas o corpo preponderante. Será que em uma pesquisa que falasse com, que abraçasse a investigação ao invés de olhar para, o corpo todo deveria estar presente?


E como seria uma pesquisa com o corpo todo? Uma pesquisa que falasse com, pensasse com. Uma investigação de tão perto que atravessasse o corpo inteiro e que impossibilitasse o distanciamento pelo olhar? Uma pesquisa assim, seria um abraço, quente, tátil, inteiro e falaria, pensaria com.


Impresso e publicado originalmente em 9 de abril de 2011.

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