domingo, 3 de junho de 2012

Mulherzinha em desuso

"No princípio foram os bordados, o verbo veio depois"  Rubem Alves.

 Há quanto tempo você não remenda uma meia?

Queria escrever um artigo que se intitulasse: Mulherzinha em desuso. Nele eu falaria das artes manuais esquecidas, das artes perdidas.

Até a metade do século passado, digo "século passado", mas foi ontem mesmo, dia desses... Pois então, até a Segunda Grande Guerra, as artes manuais faziam parte do cotidiano das mulheres em todas as culturas. 

Do Pós-Guerra em diante, especialmente no ocidente capitalista, as mulheres começaram cada vez mais fortemente a sair de casa para trabalhar e, com isso, as tarefas domésticas passaram a ser terceirizadas ou feitas de forma rápida e "prática". 

Sinalizei a palavra prática, pois este valor nem sempre foi considerado como um valor positivo, algo a ser desejado. Isso começou a ocorrer desde que o tempo das mulheres (e também dos homens, mas aqui estamos dedicados ao feminino) começou a ser capturado pelo sistema de trabalho externo, deixando as tarefas do dia a dia em segundo plano. Esta situação não é  desconhecida, mas mesmo assim, é pouco problematizada.

Hoje, a cultura dá pouco valor às artes manuais, relacionando-as, quase sempre, a uma figura que, neste provável artigo que escreveria, poderia chamar de "mulherzinha". Como a cultura da atualidade caracterizaria essa mulherzinha? Talvez, uma moça prendada, que sabe tricotar, bordar, costurar, cozinhar. Muito provavelmente seja "do lar", leria romances, revistas de moda e livros de autoajuda. Enfim, alguém improdutivo, de baixa qualificação. Alguém à margem do sistema produtivo. 

Mas essa aparência resistiria a uma crítica que levasse em consideração uma vida de qualidade? O fato das mulheres terem se libertado das tarefas artísticas da casa, a tornaram mais independentes? Ou apenas trocaram o fator de subjugação? O tempo que usávamos para bordar, costurar, tricotar em um passado recente, hoje é usado para quê? Que corpo construímos desde que nossas mãos pararam de atuar criativamente? Que relações mantemos com nossas casas, filhos e companheiros? Que fazemos da habilidade que antes dedicávamos aos trabalhos manuais? A quem pode interessar a troca da autonomia do fazer pela submissão do comprar? O que está implicado no desuso da cultura feminina do fazer manual?

Perguntas muitas que poderiam ser investigadas neste artigo que, talvez, um dia, eu venha escrever.

Impresso e publicado originalmente em 26 de maio de 2012.



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