sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Um dia, um padre, uma travessia


Um dia, um padre, uma travessia. 
Um padre, uma travessia, um dia. 
Uma travessia, um dia, um padre. 
(Homenagem a Padre Victor, o padre santo, de Três Pontas, MG).

Pela estrada seguia o padre um dia, caminhava. Caminho sem marcas. Não cumpria trajeto, fazia travessia.

Em cada beira de poço, o padre parava, se refrescava, olhava o fundo e pensava: é aqui. E ficava. Ficava à sombra de árvores raquíticas, quase sem sombras. Ficava à beira do poço, à beira do caminho, na travessia.

Depois, passado um tempo, o padre seguia. Ia ele, assim, um dia, dois dias, três dias, anos. De poço em poço, também de ribeirinho, ia ele, de beira em beira, pelo caminho. Não cumpria trajeto, fazia travessia.

Vez ou outra, derivava da estrava principal e embrenhava pelo mato. Invernava dias sem fim, sem trilha. A mata  raquítica, seca e retorcida confundia o caminho, fazia caminhar delicado, olho na ponta do pé.

Seguia assim, na bússola do pé, ouvido atento aos rumores do vento. Logo, sentia o cheiro da água e pensava: é aqui. Sentava à beira do riacho, na sombra raquítica da caviúna retorcida e ficava. Ficava à beira do rio, à beira do caminho, na travessia.

Depois, passado algum tempo, o padre seguia. Ia ele, assim, um dia, outro dia, muitos dias, anos. De campo em campo, também de mata, ia ele, de beira em beira, pelo caminho. Não cumpria trajeto, fazia travessia. De vez em quando pensava: é aqui, e ficava.

Havia dias em que aparecia vivente na beira do poço, colhendo água com as mãos. O padre oferecia a cuia, único utensílio do embornal vazio. O vivente aceitava. Tomava a água fresca e compunha gratidão. O padre sorria, tendiquê. O vivente partia, refeito. O padre ficava.

Depois, passado outro tempo, o padre seguia. Não cumpria trajeto, fazia travessia e de vez em quando pensava: é aqui.


Impresso e publicado originalmente em 28 de setembro de 2012, no Correio Trespontano.

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