quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A qualificação e o pão



Os doutores chegaram com seus canudos em busca dos conceitos, dos livros lidos, das citações de si mesmo. Não tinha. Tinha cheiro, tinha cor, tinha pão, vassoura na mão. Os doutores, em suas togas apertadas, homenagearam aqueles que passam oito horas por dia lendo os livros difíceis, são difíceis, minha filha, eu sei, mas valem à pena, falam da vida. Os tecidos expostos, intocados. Variedades de cores e texturas para serem sentidas, perguntadas, mexidas, foram esquecidas entre as páginas dos livros. A mesa posta, variedades de sabores para serem degustadas, cheiradas invadindo as anotações precisas. Uma sala de aula feita por mãos que passam o dia entre a cozinha, a biblioteca e a oficina. Ler-cozinhar-escrever-costurar-varrer. Fazeres manuais. Mãos empoderadas pelo cotidiano. Os doutores viram, sentiram, mas não entenderam. O que isso tem a ver com o corpo de que falam os livros? Estamos falando de outro corpo. Não este que tece, fia, come, cozinha, varre. Leia mais, minha filha, você vai entender: não há nada fora dos conceitos. 


***


Coloca mais um pouquinho de leite. Quero picar o abacaxi. Acho que essa massa está um pouco pesada. Quer colocar mais água? Alguém vai usar o liquidificador agora? Carinhos.

Na Universidade Federal de Juiz de Fora, um exame de  qualificação de doutorado era preparado. A cozinha movimentava-se. Bolsistas de Iniciação Científica e Treinamento Profissional, mestrandos, doutorandos, doutores, mangas arregaçadas, mãos ocupadas com o fazer culinário. A conversa derivava: que sujeito, que educação? Quantas xícaras? A Formação de Professores como Linha de Pesquisa atravessa, mas como dizer da formação de professores sem forma, sem fôrma. Você pode untar essa fôrma redonda para mim? É para usar óleo ou margarina? Que formação é essa que discutimos? Não diremos mais Formação de Professores, pois não temos a forma, nem a fôrma  que se espera, nominável e segura para o ofício. Apostaremos na invenção  da atualidade dos encontros com seus meios, no meio, sem fins seguros, sem fim que disforma, é disforme, mas inventa formas sempre em devir*. Olha, está uma delícia essa manga. Experimenta a massa. Acha que está boa de sal? Amizades.

Alguém me ajuda a fazer essa urdidura? Mordidura? Urdidura: os fios presos ao tear que serão a base para a trama na tecelagem. Que você vai fazer com isso? Vai para a exposição dos fazeres da pesquisa. Ah... faço a urdidura-mordidura. O bolo está pronto?

A mesa posta, os pães recém-assados perfumando a sala de aula. Aromas, cores, texturas. Um exame de qualificação inicia com a examinação dos sentidos, sensações outras ao encontro dos corpos formados e conformados em uma educação com fôrma. Alegrias.

Como qualificar com o corpo todo? Minha filha, o corpo de que estamos falando não é o corpo físico. Existe outro? Existe um corpo que pensa e não cheira? Existe um corpo que estuda e não come? Existe um corpo que lê e não anda? Que corpo se fala em uma qualificação? Afetividades.

Sujar o chão da sala de aula com pão. Manchar o chão da sala de aula com tinta. Varrer os fios e as migalhas. Atravessamentos de fome, prazeres vivos no cubo da aula. Um doutoramento varre, lava, costura. Um doutoramento-educação, onde educação quer e faz vida-viva cotidiana.


Esta crônica estará impressa e  publicada em 2 de março de 2013.
* Com Tarcísio em "O que atravessou o Travessia".








3 comentários:

  1. O fazer vivo que pensa fazendo que faz sentindo, que brinca, ensina e cresce. Vivência - ciência - infância, adolescência, amadurescência, velhescência.
    Parabénscia, Nina Veiga, há um coro ao seu redor, um círculo de feiticeiras que fazem o mesmo e a apoiam. Parabênscia, Nina Veiga.
    Júlia Bárány

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  2. Estou nesse coro ao seu redor.... Concordo com Barany Editora...
    Parabens Nina Veiga !

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  3. hum...

    E o invisível!?

    Resistindo ao novo acoplamento.

    beijo

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