quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A diagonal atelier-cozinha


Em Lisboa, bem ao lado da Catedral da Sé, no centro histórico da cidade, tem uma loja de peças em lã de carneiro que faz parte do meu itinerário de pesquisa:  a ChiCoração - Sé.  A proprietária, Otília Santos, é uma daquelas mulheres que conseguem agenciar a vida-viva em sua plenitude sem deixar de afirmar o caos cotidiano de uma vida de empresária, artista e dona de casa. A crônica de hoje é uma ficção inspirada em seu cotidiano e será a chamada do capítulo da tese que trata dos processos  metodológicos que adoto na pesquisa de doutorado que realizo na Universidade Federal de Juiz de Fora e na Universidade de Lisboa.


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Os alfinetes na boca espetavam-lhe vez ou outra a língua. Gostava daquela dor, lembrava-lhe de que estava viva. Não a deixava esquecer de que afrouxar as fronteiras entre ser dona de casa, empresária e artista da moda, era quase sempre caótico, doía, custava, mas a fazia sentir-se viva.

Lutava para dar caimento a uma gola, mas a malha teimava em seguir outra direção. Há muito sabia que, não adiantava o que fizesse, a malha sempre vencia.  Naquelas horas, atribuía a teimosia da gola ao curso de design que nunca frequentou. Bobagem, dizia depois, de si para si, as estagiárias de moda que cá estiveram, tinham  desenhos perfeitos e elaborados, belas ideias, mas não sabiam como fazer para que saíssem do papel. Por isso, respirou fundo e deixou-se levar pelo fluxo da malha. Queria tanto a gola de um certo jeito... ideias. Pudesse ela trabalhar sem ideias prévias. Somente entrar em contato com os elementos e deixar-se conduzir junto ao movimento e, aí sim, abrir-se às ideias....

Um cheiro forte invadiu o atelier, situado logo abaixo da cozinha, na grande casa, em frente a Serra de Santo Antônio. O arroz! às pressas, cuspiu os alfinetes em cima da mesa, deixou a malha fazer o que bem quisesse e subiu as escada de um fôlego só: tarde demais! Pegou a panela fumegante pela alça, queimando um pouco a mão. No sumiço repentino do pegador, agarrou o pano de prato e completou o trajeto até a pia. Lançou um jato de água sobre a pedra fria, pousou a panela quente sobre ele e escutou o chiado com um misto de encantamento e desespero.

Tarde demais! mais uma vez, o arroz queimado! O marido tinha razão: estás sempre com a cabeça à lua, mulher! Ainda   tentando raspar a crosta queimada do fundo da panela, lembrou-se de que havia esquecido de acrescentar arroz à lista de compras. Foi o último.  Faria macarrão. Um bom macarrão instantâneo resolveria o jantar. 

Então percebeu, no movimento da água sobre a panela, a solução: está lá! A gola! Sim, basta-me isso e a malha cairá de maneira especial. Desceu as escadas rumo ao atelier aos saltos de dois em dois, agarrou os alfinetes em cima da mesa, um deles a espetou bem em cima do recém-queimado da mão. Sentiu dor, sentiu vida. Está cá: a gola caidinha, não do jeito que havia imaginado como ideal, mas ainda melhor: o perfeito possível.

Estava alegre quase eufórica. Criar o possível! Era isso que a mantinha plena e viva. Cozinharia um macarrão chinês com legumes e soyo para o jantar. E acenderei as velas. Uma grande noite!

Se o marido perguntasse o que estavam celebrando, com o jantar especial, apenas sorriria. Ele não entenderia a alegria que se dá na mistura de um arroz queimado com gola de malha, queimadura e espetadas. Difícil explicar a potência que sentia.



Para ser impresso e publicado em 19 de outubro de 2013 no Correio Trespontano.


Para acompanhar o desenvolvimento da minha pesquisa aqui em Portugal, acesse: http://cadernosdeartifice.blogspot.pt/. O blog é um e-caderno. Um dispositivo de apoio às anotações e experiências de minha pesquisa de doutorado em curso no Brasil, na Universidade Federal de Juiz de Fora e em Portugal, na Universidade de Lisboa. A fase portuguesa da pesquisa apresentará as fiandeiras antigas.

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