quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A varina do Tejo



Uma réstia de luz atravessa o madeiramento da janela, avisando que o tempo passou. Por um breve momento, assusta-se, pensando ter perdido a hora, mas lembra-se que está acamada. A garganta doía-lhe e um leve calafrio, percorria-lhe a espinha.

Estava na cama, sob as cobertas, mas o corpo sentia falta do vento e do rio. Acostumou-se a acordar antes do sol e ir para a margem esquerda do Tejo, no cais da freguesia, aguardar as pequenas barcas e faluas que trariam os charrocos, bogas, douradas, corvinas e pardelhas que vendia, no ponto em frente ao liceu, desde que era miúda e franzina.

Todo dia, nos últimos 35 anos, quando a vila ainda despertava, já estava ela, com seu avental de burel, sentada em seu caixotinho de madeira, ordenando os peixes por tamanho e espécie, na padiola que Seu Gerônimo, biscateiro, ajudava-a a montar por cinco escudos. 

Virou-se na cama e pensou, estava velha, o corpo doía-lhe inteiro. Além disso, continuava a divagar, havia mais de dez anos que as moedas de euro começaram a circular na sua banca e ainda confundia-as com as de escudos, as quais sabia reconhecer até de olhos fechados. As moedas de euro, arrazoava, eram desprovidas de história, símbolos vazios, não pareciam trazer em si uma força monumental,  faltava-lhes alma.

Deixa de besteira, disse, dando uma raspanete em si mesma, agora deu para bacorar? Está lá, que não vá trabalhar, mas aproveite o tempo para dormir ou fazer coisa que o valha. 

Riu sozinha, era como ouvir a voz da mãe, sempre a chibar. Sentia falta, acostumara-se aos raspanetes da velha. Ainda muito novinha, ao ver passar as meninas do liceu, com suas fitas engomadas e seus livros de capa dura, costumava dizer à mãe: dia desses, desmonto a padiola e vou para a escola. Não ia, a mãe sabia e ralhava. O cheiro do peixe impregnava-lhe a vida. Nunca seria menina de fita brilhante e saiote plissado.

E assim, a vontade de deixar a banca foi amainando, o tempo passando. A vida escorreu junto com a água do balde que usava para lavar a calçada no fim da tarde quando a venda cessava.

Um espirro trouxe-a de volta ao tempo do dia. Precisava levantar-se e preparar alguma coisa para comer. Não deu jeito. Ficou na cama, entre dores presentes e passadas. Variando as ideais entre os tempos do agora e do ontem.  



Vila Franca de Xira, Portugal, 10 de outubro de 2013. 

A ser impresso e publicado em 12 de outubro de 2013 no Correio Trespontano, Minas Gerais, Brasil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário