segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A vertigem e o rigor

Recentemente, conheci uma doutora renomada e apaixonada pelo que faz. Trabalha com pesquisa, coordenando um importante instituto na universidade.  Sob sua supervisão, pesquisas instigantes são realizadas, evolvendo cultura e linguagens. Entre elas, as narrativas que circundam as artes manuais, razão pela qual aproximei-me de seu programa. Atenciosa, recebeu-me em seu moderno gabinete, confidenciando-me que, hoje em dia, é bastante difícil encontrar pesquisares das artes manuais que, além de pesquisar, sejam manuelistas.  Ao ver meu caderno-projeto de primeira qualificação bordado, costurado e com partes escritas à mão, perguntou-me: E os colegas? O que dizem dessa forma de expressão? Aprovam ou acham que falta rigor? A crônica dessa semana é uma ficção inspirada nesta pergunta.

***
Só quem a conhecia muito de perto, o que era raro, poderia perceber, no movimento leve que fazia, batendo a ponta do lápis na capa do livro, um quê de impaciência. Há muito acostumara-se a manter-se impassível, mesmo quando, no íntimo, queria estremecer. O aluno demorara demais para encontrar a página e continuar a responder à arguição. Já passara de uma da tarde e as taças de café preto que ingerira durante a manhã começavam a causar-lhe indisposição.

Sentia-se duplamente frustrada. Primeiro, diante da demora no andamento da banca, depois, pela própria estrutura de avaliação que desaprovava. No entanto, sempre fora voto vencido nos encaminhamentos dados pelo programa de pós-graduação ao qual pertencia.

Sem dúvida, pensava, levando a mão ao estômago dolorido, não se pode avaliar alguém pelo número de horas que é capaz de ficar na biblioteca.

O aluno voltara a falar e ela descobriu-se com fome. Se demorar, a cabeça vai começar a doer. Era sempre assim: tomava café demais, comia de menos e depois ainda precisava recorrer aos analgésicos para dar conta de chegar ao final do dia com as tarefas acadêmicas cumpridas. Esse ritmo de trabalho não considera as mínimas necessidades de comer e dormir, reclamava para si, enquanto, e ao mesmo tempo, atribuía o mal humor à baixa de glicose que começava a se fazer sentir pela irritação excessiva.

Já nem escutava mais o colega que, dedo em riste, questionava o avaliado sobre sua falta de rigor ao usar um conceito. Rigor, rigor! Tivesse ela a coragem de dizer - ali mesmo em uma banca de seleção para o doutorado - o que pensava dessa vontade de rigor. Bandeira que muitos acadêmicos levantavam em nome da moral e dos bons costumes do conhecimento. Ia desmaiar. Sabia. Começava a ver pequenas luzes brilhando pela sala de defesa. A vertigem crescia: era cansaço demais.

Sentiu um calor agradável e conhecido a envolvê-la. Abriu os olhos devagar. Viu, na luz suave da tarde de inverno, a mãe e a avó, sentadas, cada uma de um lado, tendo ao colo o grande tapete que bordavam juntas. O calor do tapete em seu colo, o cheiro da juta e a aspereza da lã a faziam querer desmaiar. A vertigem crescia: era prazer demais, não podia aguentar-se. 

Nessas momentos, ouvia a voz da mãe a dizer-lhe: Ma chère, passe-moi les ciseaux, s'il vous plaît. Assim, sempre que se perdia em sensações, a mãe, carinhosamente, usava o francês para despertá-la. Era como a lâmina afiada da tesoura no tecido: cortava sem ferir. Dessa maneira, sem perceber, aprendeu o francês, a costura e o bordado.

Um leve toque em seu braço a trouxe de volta à sala de defesa. A sessão terminara, iriam deliberar. Seu voto a favor e dois contras: não aprovado, faltava-lhe rigor. Rigor? Teria coragem? Sabia que não. Doze anos! Era o quanto restava para aposentar-se.


Impresso e publicado em 26 de outubro de 2013 no Correio Trespontano.


Nenhum comentário:

Postar um comentário