quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Cheiro de lã



Dona Vitoria Maria, a última fiandeira em atividade na região de Mértola,  Alentejo português foi minha primeira entrevistada na série que tenho planejada para a fase portuguesa da minha pesquisa de doutoramento. Dona Vitorina aprendeu o ofício com a mãe, hoje com 94 anos, permanece atenta à lida da filha: "Fui eu quem ensini". Dona Perpétua Maria, orgulhosa do ofício, não sabe como aprendeu. Estava lá, com a mãe, desde pequena, fazia uma coisa e outra, aprendia-se na lida. Ainda hoje, está Dona Perpétua a fazer as meadas no sarrilho. Acima, Dona Vitorina Maria esguedelhando a lã, antes de untar e cardar. Fases que antecedem e preparam a lã para ser fiada.


Quando a penumbra não lhe permitia mais enxergar, ela acendeu a lamparina com um gesto que a fazia lembrar da avó. Parecia ver, pensava, a mão da avó, magra e enrugada, a riscar o fósforo e o aproximar da mecha com um movimento levemente trêmulo.

Agora, ela mesma era a avó. Olhava sua mão a gestuar e não entendia como aquelas mãos fortes, acostumadas ao trabalho, haviam se tornado assim, tão magras, enrugadas e trêmulas.

O tempo é sonho, dizia de si para si. É sonho, repetia, enquanto a luz bruxuleante da lamparina enchia o quarto onde, desde muito miúda, via a avó e a mãe a fiar. A vida toda acostumou-se a ouvir as vozes das mulheres de sua família, reunidas naquele quarto pequeno e entulhado, a cuidar da lida do fio. 

Quando o velo chegava do campo, trazido pelo pai ou pelo tio, o cheiro forte do rebanho preenchia o quarto. A mãe e as tias logo tratavam de lavar a lã na velha tina de madeira que ficava no quintal de trás. Depois de seca, batiam-na  para terminar de soltar os ciscos,  esguedelhavam-na com os dedos ágeis e a  arrumavam em camadas no chão, em cima da lona amarela, para o banho de óleo. Ainda podia ver o riso da avó quando ralhava com tia Eulália por deixar manchar o vestido ao untar de azeite a lã.

Foi tia Eulália a primeira a deixar a lida. Um dia gritou com a vó, lembrava-se bem, coração ainda aos pulos: "Vou-me embora estudar!". A tia bateu a porta atrás de si e só voltou tempos depois para apresentar tio Geraldo e o bebê Jessé.

Também as outras  tias se foram. Por muito tempo, só se ouvia o barulho da carda da mãe e da vó. Passados anos, a cardação da vó silenciou. Ela ficava lá, quieta, olhando a mãe passar a lã de uma pá a outra e armazenando no colo o amontoado das nuvens que virariam fio.

O cheiro da lã, o ruído das cardas e o girar da roda a envolviam. Quando mocinha,  também ela tentou ir,  mas o quarto não a deixava. Não podia imaginar a vida fora dali. Assim, desde muito, estava só entre a lã e os fios.

Mértola, domingo, 29 de setembro de 2013.

Impresso e publicado em 5 de outubro de 2013 no Correio Trespontano, Minas Gerais, Brasil.

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