quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A epifania de Alice


A crônica dessa semana trata de uma diagonal: um traço entre corpo e material. Assunto dos mais densos em minha pesquisa de doutoramento. Coisa que exige estudo e observação. Ainda estou longe de poder dizer  desse imbricado agenciamento. Por hora, segue apenas a narração fabular de alguns efeitos possíveis. A personagem Alice é baseada em pesquisa de campo, realizada aqui em Portugal, acrescida de uma tardia homenagem à  bailarina-performer Ludmila Machado, as cenas de seu "Entrelinhas" fazem parte de um vídeo que acompanha meu artigo no livro: Entre composições: formação, corpo e educação.  O espetáculo, a partir da interpretação de cada uma das ações de trabalho das fiandeiras, realiza uma leitura dinâmica da gestualidade das artífices da fiação. 

Sem que houvesse se dado conta, estava hipnotizada por aquele movimento de corpo. Bem à sua frente, a mulher, de traços grosseiros e mãos grandes, curvava-se em direção à roda. Movia-se ritmadamente, repetindo sempre o mesmo gesto, enquanto falava, explicando sobre seu ofício.

Alice não prestava atenção às palavras, o corpo dizia tudo o quanto ela conseguia ouvir. As palavras eram como ruídos, um ruído a mais em meio a muitos: o sapato da mulher a bater na tábua do chão, a tábua rangendo uma ou outra vez, a engrenagem do fuso sem óleo, a roda assoviando ao girar. 

Aquele som a fazia lembrar de quando o irmão e ela brincavam com a bicicleta coxa do Tio Vicente. Viravam-na com a única roda para cima, e dando impulso, ora com a mão no pneu ora com o pedal, faziam-na girar o  mais depressa que podiam. Logo a mãe, escutando o barulho do giro, gritava da cozinha, vão perder os dedos nessa brincadeira!

Lembrava-se disso, enquanto o zunido da roda de fiar cortava o ar, em meio às palavras de Dona Vitorina Fiandeira, naquela tarde de maio, na visita em que fez com a prima noiva, a encomendar manta para o enxoval. É de pura lã, Alice, feita sob medida, a da loja nem se compara... 

Foi quando aconteceu. Anos mais tarde, quando lhe perguntaram o porquê, ela não soube explicar bem, mas sabia que tinha sido ali, entre palavras surdas e o zunido da roda.

Já se passavam mais de dez anos e a imagem ainda lhe era clara, via a cena completa à sua  frente: enquanto uma das mãos da mulher pegava o manelo de lã do cesto, a outra parava a roda de fiar. Em seguida, ajeitava o fio torcido no fuso, unindo a ponta solta da maçaroca a um novo chumaço. Então, ainda curvada, dava um grande passo para trás e fazia a roda girar, enquanto o manelo de lã em sua mão desaparecia, fazendo surgir o fio. Cada manelo rendia-lhe uma boa metragem de fio fino, surgido de um movimento contínuo, de uma certeza de corpo que a hipnotizara. Aquele corpo, aqueles gestos, algo ali fez desaparecer o tempo. Não sabe quanto permaneceu nesse devaneio, mas o instante tornou-se sempre. 

Quando a prima a cutucou, despertando-a do transe, ela  soube. Tivera uma epifania. Soube o que faria por toda vida. Soube que nada mais a interessaria dali para frente a não ser descobrir como aqueles gestos eram capazes de plasmar-se corpo. Como aqueles movimentos se deixavam conduzir pelo material. 

A campainha soou avisando que faltavam cinco minutos para o primeiro ato. Precisava terminar de maquiar-se e aquecer-se. Amarrou as sapatilhas ainda ouvindo o chiado da roda.

A ser impresso e publicado em 14 de dezembro de 2013.

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