quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A vendedora de panos


Um conto de Natal sempre me assombrou pelos valores que trazia: A pequena Vendedora de Fósforos, de Hans Christian Andersen. A crônica de campo, dessa semana, ambienta-se na atmosfera do conto para dizer de mundos e valores arraigados ao ideário do fazer manual.

Na foto, detalhe de um bordado de Guimarães, com os pontos mencionados no texto. O slogan  criado para a campanha promocional dos bordados desta cidade portuguesa é sugestivo para pensar os valores discutidos na crônica: "Passado em busca de seu futuro".

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Era noite de Natal. Poderia sentir isso, mesmo que não o soubesse. Os cheiros dos assados vinham das moradas à volta. O de borrego ao forno parecia vir pelo lado do Seu Mário, do 43. O tender, esse tinha certeza, chegava do andar de baixo. Dona Carmela o fazia com calda de damasco, sentia o doce no ar.  Havia também peru e uma torta de maçã e nozes, quase os podia tocar.

Na mesa, o rendilhado da toalha branca como a neve e, sobre ela, fino serviço de jantar, com rosas miúdas a decorá-lo. Um ganso assado fumegava, recheado de maçãs e ameixas pretas. Estava sentada à mesa, perto de uma brilhante árvore de Natal.    Milhares de velas ardiam nos verdes ramos. Era a maior e mais enfeitada  árvore que jamais houvera visto.

Mantinha os olhos fechados, no lusco-fusco do fim da tarde. Os olhos fechados abriam possibilidades imensas. Era o que tinha, dizia de si para si, ainda sob o efeito da magia aromática. Mas o pensamento ácido dispersou o encanto e a  obrigou a abrir os olhos e ver ao redor. O quarto conjugado estava às escuras. Sempre desligava a luz, quando cessava de bordar. Por economia, justificava, em pensamento, ao severo amigo, Damião, vigilante em todas as horas.

Com os olhos abertos, sentiu os aromas atiçarem-lhe a fome. Não havia comido e já eram mais de cinco da tarde. Saiu debaixo das cobertas e foi então que percebeu o quanto o gás lhe fazia falta. Impossível ficar de camisola, neste frio do Norte. Vestiu o casacão e deu poucos passos em direção à geladeira desligada. Se duvidar, deve estar mais quente lá dentro do que aqui, dizia a amiga, Matilda, no seu sorriso largo. A risada da amiga animou-a até abrir a porta e ver duas maçãs e uma porção de papas de sarrabulho. Ainda tem duas, pensou aliviada. Pegou uma e cortou-a ao meio. Sei que tinha um resto de papel amanteigado por aqui. Vasculhou o armário e acabou desistindo. Comerei inteira, aos pouquinhos, durará até à ceia. Não pôde deixar de rir. Matilda abriu novo sorriso largo. Ela sempre a aprovava quando alegrava-se. Essa noite, declarou, teremos maçãs em todas as mesas, do número 56, na Assis Vaz, Freguesia dos Paranhos, Zona do Porto.

Voltou para a cama. Não sairia para trabalhar. Ninguém compra panos de pratos bordados na noite de Natal. O movimento nos cafés da ribeira diminui muito no inverno, ainda mais nessa época de mesas fartas e gentes reunidas, justificou ao atento Damião. E acrescentou: hoje, chega a cessar por completo.

Olhou para a estante e sorriu, para a aprovação imediata de Matilda, a rir seu riso frouxo. Na foto, a menina, Maria do Amparo, futura cientista pela Universidade do Porto, orgulhou-se. Licenciada pela Faculdade de Ciências da Nutrição e da Alimentação. Está a cursar o mestrado integrado, informou, em direção a Damião, logo será doutora. Estuda muito, por isso não está cá, justificou.

Haveria de ter forças para muitos pé de flor, espinha e caseado, necessários para os inúmeros emolumentos da  academia. Cada pano bordado e escudo economizado eram garantia de que a filha jamais precisaria pegar em uma agulha. A miúda não trará a sangrar os dedos ao ofício antigo. Aconchegou-se um pouco mais  sob o pesado cobertor. Fechou os olhos e procurou concentrar-se bem nos aromas.

  A ser impresso e publicado em 21 de dezembro de 2013.

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