quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Alma de atriz

A crônica dessa semana traz uma personagem inspirada na música Alma de atriz,  de Haroldo Jr. ( 1963 - 4 de novembro de 2013 ).



Levantava-se antes do sol. Quando escutava o alarme do despertador, um frio percorria-lhe a coluna. Mais um dia.  Sempre assim.  Colocava-se sentada na cama e imediatamente pensava naquilo que não era. Antes mesmo de abrir a janela sabia: não aconteceria jamais.

Fazia um pequeno verso que havia aprendido com o irmão quando pequena.  Não lembrava se algum dia tivera rima, com o passar dos anos, fora mudando-o,   tomando posse das palavras dadas,  tornando seu o dito de outrem. Agora, não sabia mais o que era dela,  o que era do autor. Quem mesmo?  Algum dia soubera...

Respirou fundo como que se preparando para entrar em cena, a cena de mais um dia sem luz ou cenário. Balançou a cabeça a espantar os pensamentos tristes e recitou mentalmente: "Há sol em mim"... fazia um esforço para que não fossem apenas palavras... "A vida é bela"... queria convencer-se disso... "Eu nasci para amar"... teve um tempo, que não conseguia declamar esta parte sem deixar cairem as lágrimas... "Só faço o bem"... Era a parte da poesia com a qual podia concordar sempre. Se considerava uma pessoa boa, o que nunca evitava que fosse agredida ou desprezada constantemente. Pensava em tudo pelo que sempre passava e tinha que se esforçar para não cair no choro, um nó apertava-lhe a garganta... Para se controlar,  repetia o verso inteiro, desde o início, concentrando-se bem: "Há sol em mim, a vida é bela, eu nasci para amar. Só faço o bem. Só me fazem o bem"... repetia aquela última frase,  suplicando para que se tornasse verdade.

Desde que o irmão a deixara, após uma longa batalha contra à doença,  tomava seu desejum sozinha. Na noite anterior ajeitava a mesa, para poupar-lhe qualquer correria pela manhã. Não suportava ter de apressar-se para fazer o que não gostava.

Sentia o cheiro do café ficando pronto na cafeteira. A mãe nunca aprovara café de cafeteira, não tinha gosto, dizia. Reclamava sempre que tia Carminda,  a única a ter cafeteira elétrica na família,  lhe oferecia.  A mãe tomava fazendo caretas e a tia ria uma risada gostosa, achando graça na rabugice da irmã.  Fora aquela risada aberta que, anos mais tarde,  quando a mãe se fora,  a levou a comprar a cafeteira vermelha brilhante.  A mãe não iria aprovar,  dizia o irmão,  fazendo um trejeito com a boca que quase parecia um sorriso. Ela sabia, e era isso que, ainda hoje, fazia do momento em que o aroma exalava, um pequeno êxtase.

Êxtase que sentira na noite do festival, quando fugida de casa,  subiu ao palco do grande teatro. Lá, sentiu pela primeira e única vez que estava viva. Não importara que a mãe havia descoberto e mandara o irmão a buscar.  Não importara que houvessem dito que jamais passaria no teste. Estar ali, flutuando em luz, era puro êxtase. Nasci para viver sob a luz de um refletor, respondia, quando era entrevistada, na sua vida de fantasia, enquanto deixava a água fria molhar-lhe a pele enrugada. Para o espanto dos jornalistas, sorria, um sorriso aberto como o da tia, e dizia: se me acende o fogo, faço o dobro de mim. Os flashes disparavam e terminava a entrevista com uma frase que,  sabia ela, se tornaria destaque: o amor é um palco,  tem de encenar sem ter ensaio... fechava a torneira, as últimas gotas que escorriam lavavam o sal das lágrimas. Tinha de apressar-se, o novo gerente não tolerava atrasos.

A ser impresso e publicado em 7 de novembro de 2013. 

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