sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Depois de tudo, o que vem?


A região do Alentejo português é rica em história e cultura. Foi palco de rebeliões, guerras e resistência política. A monotonia e a aridez da paisagem refletem-se na marcação do ritmo de vida e na arte. A música tradicional, o cante, muito similar ao canto gregoriano, herança de romanos e árabes, que já viveram por lá, apresenta a melancolia característica do povo alentejano. Muitas das personagens da pesquisa que realizo em Portugal habitam as planícies desertas, nas casas de pedra caiadas, em aldeias de difícil acesso.


***

Andava vagando pela casa, luzes apagadas, pupilas dilatadas, tal às da gata, a fitá-la da frontaria. Ia devagar, fazendo tempo, sentido os pés tocarem o chão frio da tijoleira. O pensamento preenchia-se em ecos, como sonho.

Estava enfadada, já intentara dormir imenso. Desde que ouvira o badalo das  duas é que remexia-se na cama de lado a lado, sem conseguir perceber o sono. Agora, levantara-se e estava a vagar lembranças. 

Vivia sozinha na casa de pedra que havia abrigado a família por gerações, desde antes dos espanhóis. Ouvia o vento lá fora. Lembrava-lhe a avó a entoar o cante no bater manta ao tear. A voz da avó era mesmo o vento da planície alentejana, rasgava o ar e invadia a alma.

Mesmo agora, sessenta anos de outrora, podia ouvir a canelinha percorrer a cala, soltando o fio na trama e o bater do pente a compor-se com o monótono triste do cante.

A avó olhava o vazio toda vez que batia a trama contra a parte já tecida. Que pensava a avó? Nunca soube. O olhar triste percorria cada fio do carapulo atentamente. As colchas da avó eram procuradas em toda península, até por gentes da margem direita do Guadiana.

A mãe contava que o avô fazia a travessia do rebanho, dos campos de Ourique para as longínquas pastagens de verão  de Estrela-Gredos, quando conheceu a avó. O pastor comprou-lhe um agasalho para a longa estadia fora de casa. Era a montanhac mais bem trabalhada e decorada de toda aldeia. O avô apaixonou-se primeiro pelas mãos da avó,  depois pelos olhos tristes da  rapariga tecedeira, completava a mãe, para o desagrado da avó que batia ainda mais firme a  trama e, sem perceber, voltava a perder o olhar no vazio.

A gata deixou a frontaria de azinheira num salto, assustou-a,  trazendo de volta à madrugada. Entrou no quarto de tecer, acendeu a  lâmpada. A luz fraca trouxe-lhe um cheiro de querosene à memória. Quantas mulheres de sua família já haviam habitado aquele quarto? Quantas madrugadas frias como aquela, à luz de velas ou lamparinas, mulheres doíam peito e costas a fazer manta?

Havia um pano no tear. Estava lentamente tecendo um graves. Mesmo hoje em dia, com a vista fraca, ainda punha a teada, vez a vez. Nunca pôde deixar o tear a nú. Era como se faltasse uma parte de si.

Pensou em trabalhar um pouco, mas as costas ardiam-lhe. Sentou-se na cadeira de faia de fronte à dobadoira. Os novelos a acalmariam. Dobar sempre lhe dava sono. Enrolou uma meada à volta dos dedos e começou a girar a peça de castanho entalhada pelo avô.

A voz da avó fez-se ouvir: "Casta fuit, domum servit, lanam fecit". Hoje, entendia a lágrima que caia na face da avó quando entoava o cante. Sim, havia sido casta, cuidado da casa e fiado a lã. Depois de tudo, o que vem?



A ser impresso e publicado em 4 de janeiro de 2014.

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